Doutrina de Deus (Parte 6):  O relacionamento de Deus com o Tempo

Temos falado sobre a eternidade de Deus. A título de revisão, vimos que a eternidade de Deus é afirmada nas Escrituras como Deus sendo sem princípio e sem fim. Ele existe permanentemente. Mas os dados das Escrituras são indeterminados em relação a como Deus se relaciona com o tempo. Deus é transtemporal? Ele está fora do tempo? Deus é um ser atemporal que não existe no tempo? Ou é Deus um ser eterno que existe onitemporalmente, a todo momento? As Escrituras não deixam isso claro. Portanto, essa questão deve ser resolvida pela teologia filosófica. Precisamos considerar argumentos a favor e contra a atemporalidade e a temporalidade divinas.

Escrevi vários livros sobre esse assunto, tendo estudado por quase 11 anos. Um deles é chamado Tempo e Eternidade. Se você estiver interessado em acompanhar esse assunto, recomendo este livro, publicado pela Crossway Books. Nele, examino o que considero os argumentos mais importantes para Deus ser atemporal, bem como os argumentos mais importantes para Deus ser onitemporal.

De todos os vários argumentos que foram oferecidos para que Deus seja atemporal, acho que o melhor argumento é provavelmente o argumento da incompletude da vida temporal. A existência temporal é terrivelmente incompleta, pois você ainda não tem seu futuro, é apenas potencial. E você não tem mais o passado. Acabou e é isto. Tudo que você tem é o presente. Esse é um instante passageiro que desaparece assim que chega. Portanto, a existência temporal é um tipo fugaz de existência, em que você não tem a plenitude de toda a sua vida de uma só vez, mas apenas tem uma fatia momentânea dessa vida, uma fatia após a outra. O argumento aqui é que esse tipo de existência incompleta é incompatível com a existência de um ser mais perfeito, que é o que Deus é. Um ser mais perfeito deveria ter sua vida de uma só vez, por assim dizer. Ele nunca deve perder seu passado ou ter um futuro que ainda será conquistado. Ele deveria ter sua vida de uma só vez.

A natureza fugaz da vida temporal me foi apresentada de maneira muito poderosa e inesperada, anos atrás, quando li para meus filhos, Charity e John, o livro de Laura Ingalls Wilder, Uma Casa na Floresta.  Quero ler para você os parágrafos finais desse livro. Ela diz:

<blockquote>

As longas noites de inverno com fogueiras e música voltaram. A voz forte e doce de Pa cantava suavemente:

Deve um antigo conhecido ser esquecido?
 

E nunca ser lembrado?
 

Deve um antigo conhecido ser esquecido?
 

E os bons e velhos tempos?
 

E os bons e velhos tempos, meu amigo?
 

 E os bons e velhos tempos?
 

Deve um antigo conhecido ser esquecido?
 

E os bons e velhos tempos?

Quando o violino parou de tocar, Laura falou baixinho: Quais são os bons e velhos tempos, Pa?

- São os dias de muito tempo atrás, Laura - disse o pai. 'Vá dormir agora.'

Mas Laura ficou acordada um pouco, ouvindo o violino de Pa tocando suavemente e o som solitário do vento na Grande Floresta. Ela olhou para o pai sentado no banco ao lado da lareira, a luz do fogo brilhando em seus cabelos e barba castanhos, e brilhando no violino marrom. Ela olhou para Ma, balançando suavemente e tricotando.

Ela pensou consigo mesma: "O agora é isso".

Ela estava feliz que a casa aconchegante, e Pa, Ma, a luz do fogo e a música estavam  no agora. Eles não poderiam ser esquecidos, ela pensou, porque o agora é agora. Isso nunca pode ser há muito tempo.[1]

Essa passagem não atingiu meus filhos com a mesma força que me atingiu, envolvido como eu estava no estudo do tempo e da eternidade.[2] Mas quando li fiquei de perplexo. O que torna a passagem tão comovente é que aquele momento tão real para Laura Ingalls, que era o agora e nunca poderia ser esquecido, agora se foi! O pai e a mãe se foram. A fronteira americana que eles lutaram para vencer se foi. Aqueles dias felizes como ela os chamava se foram para sempre, e nunca mais serão recuperados. O tempo tem uma maneira selvagem de consumir a vida, tornando-a terrivelmente incompleta e evanescente. Esse tipo de vida, diz o argumento, é incompatível com a existência de um ser mais perfeito que deve ter a plenitude da vida de uma só vez e, portanto, transcender o tempo completamente.

Eu acho que esse é um argumento poderoso. Porém, no caso de Deus, penso que a incompletude da vida temporal é diminuída de alguma forma por sua onisciência. Para um ser onisciente eterno, ele conhece o futuro com todos os detalhes que conhece o presente e o passado. Ele sabe tudo. Além disso, ele lembra do passado em detalhes perfeitos, para poder revivê-lo mentalmente como se estivesse no presente. Para um ser onisciente, penso que a passagem do tempo não é tão melancólica, como é para seres transitórios finitos. Portanto, acho que a incompletude da vida temporal no caso de Deus não é tão melancólica e deficiente como um modo de existência, como pode ser para seres temporais finitos.

No entanto, acho que temos que admitir que esse argumento tem alguma força e poderia motivar uma doutrina da atemporalidade divina, a menos que haja argumentos para a temporalidade divina que sejam ainda mais poderosos e superem isso.

Então, quando nos voltamos para argumentos sobre Deus estar no tempo, parece-me que existem dois argumentos especialmente poderosos para pensar que Deus é temporal e não transcende o tempo. O primeiro seria baseado nas mudanças das relações de Deus com o mundo. Deus muda em seus relacionamentos com as coisas no mundo temporal.

Aqui é importante distinguir entre o que poderíamos chamar de mudança intrínseca e mudança extrínseca. Algo muda intrinsecamente se mudar em uma de suas propriedades não relacionais, uma propriedade que se tem por si mesma. Por exemplo, uma maçã pode mudar de verde para vermelha. Isso seria uma mudança intrínseca na maçã. Uma mudança extrínseca, por outro lado, seria uma mudança relacional. Algo pode não mudar intrinsecamente, mas mudaria em suas relações com outras coisas. Por exemplo, eu já fui mais alto que meu filho, John, mas agora sou mais baixo que John. Isso é por causa de uma mudança intrínseca em mim? Não! Eu tenho a mesma altura que sempre estive, mas me tornei mais baixo que John, pois ele mudou intrinsecamente e ficou mais alto. Uma vez, estive na relação “mais alto que” com meu filho, mas agora estou na relação “mais baixo que” com meu filho. Portanto, sofri uma mudança não intrínseca, mas extrínseca, no meu relacionamento com ele.

Ao criar um mundo temporal, Deus pareceria sofrer, se não uma mudança intrínseca, pelo menos uma mudança extrínseca, porque ao criar um mundo temporal, Deus agora mantém novas relações como "causar o universo". Deus agora está relacionado causalmente ao universo, e ele não estava relacionado causalmente ao universo que existe sem ele. Da mesma forma, ele agora tem um relacionamento minimamente coexistente com o universo, uma propriedade a qual ele não tinha antes da criação. [3] De fato, não houve um momento antes da criação. Parece que Deus passaria por esses tipos de mudanças relacionais extrínsecas, na medida em que ele está relacionado a um universo temporal. Isso seria suficiente para estar no tempo.

Para entender, imagine uma rocha existindo isolada no espaço sideral. Vamos supor que esta rocha seja absolutamente imutável. Está congelada no zero absoluto. Eu sei que isso é fisicamente impossível, mas isso é apenas um experimento mental. Vamos imaginar essa rocha hipotética que é absolutamente imutável e está isolada no espaço sideral. Imagine então que um meteoro passa zunindo e depois outro. Claramente, a rocha não seria atemporal, embora seja intrinsecamente imutável. Porquê? Porque muda em sua relação com outras coisas que mudam. Primeiro houve um meteoro passando, depois outro meteoro passou. A rocha, apesar de imutável intrinsecamente, estaria claramente no tempo porque está relacionada à mudança das coisas. Uma vez que Deus está relacionado a um mundo temporal em mudança, Deus passaria por mudanças extrínsecas e, portanto, estaria no tempo. Parece-me um argumento muito poderoso para o fato de Deus ser temporal.

Deixe-me adicionar mais uma coisa. Essa mudança relacional em Deus se torna particularmente difícil para a atemporalidade quando você pensa na doutrina da encarnação. Porque, na encarnação, a segunda pessoa da Trindade assume uma natureza humana. Ele agora está relacionado a essa natureza humana de uma maneira que ele não estava antes. Parece claramente que houve um tempo em que a segunda pessoa da Trindade ainda não estava relacionada à natureza humana que Jesus de Nazaré possuía, e há um tempo depois no qual ele tem uma natureza humana e está relacionado à natureza humana. . Isso implicaria que Deus, portanto, está no tempo em virtude dessas relações mutáveis, mesmo que ele seja intrinsecamente imutável. Mesmo que ele seja intrinsecamente imutável, ele ainda seria temporal, tendo em vista suas mudanças de relacionamento com as coisas temporais.

O segundo argumento a favor da temporalidade divina seria baseado no conhecimento de Deus de fatos temporais. O que quero dizer com fatos temporais? Por fatos temporais, quero dizer fatos relacionados ao passado, presente e futuro. Por exemplo, agora são 15:00h. Isso seria um fato temporal. Eram 14:30h meia hora atrás. Isso é um fato temporal. Será 15:30h daqui a meia hora. Todos esses seriam fatos temporais. Como um ser onisciente, Deus deve conhecer todos os fatos. Se há fatos sobre o mundo dos quais Deus não sabe, ele não pode ser considerado onisciente. Se há fatos temporais, parece-me que Deus precisaria conhecê-los porque ele é onisciente. Ele sabe que horas são agora. Mas se Deus sabe que agora são 15:00h, ele está obviamente localizado neste momento para saber que agora são 15:00h. Se ele estiver localizado às 14:30h, ele saberá que são agora 14:30h. Portanto, haveria mudanças acontecendo constantemente em Deus à medida que esses fatos temporais mudassem. A maneira mais simples de pensar sobre isso é apenas saber que horas são. Deus não sabe que horas são no universo? Ele sabe que horas são agora. Se Deus não estivesse no tempo, ele não saberia se agora é a era da formação das galáxias, ou o tempo da vida na Terra, ou o momento em que o universo está sofrendo destruição termodinâmica. Ele não saberia o que está acontecendo agora no universo se não estiver no tempo. Parece-me que, em virtude de sua onisciência, Deus deve conhecer fatos temporais e, portanto, deve estar no tempo. Isso parece implicar não apenas uma mudança extrínseca, mas também intrínseca, em Deus; ou seja, Deus estaria constantemente mudando em sua vida de pensamento. Ele saberia que são agora 15:00h, agora são 15:01, agora são 15:02.[4] Haveria um fluxo no conteúdo da consciência em Deus, enquanto ele registra que horas são.

Longe de ser uma imperfeição em Deus, parece-me que esse tipo de conhecimento é uma perfeição em Deus. É em virtude de sua onisciência que Deus não pode ser enganado sobre que horas são; ele não está congelado na imobilidade, mas mantém o controle do que está acontecendo no universo. Portanto, ele sabe o que está acontecendo agora.

Esses dois argumentos, se corretos, creio que fornecem bases muito poderosas para pensar que Deus está no tempo e, portanto, mais do que contrabalançam o argumento da atemporalidade divina com base na incompletude da vida temporal.

Como devemos avaliar esses dois argumentos para a temporalidade divina? Parece-me que há uma escapatória para o defensor da atemporalidade divina. Esses argumentos assumem que existem fatos temporais sobre o mundo, sobre o que é presente, passado ou futuro. E eles supõem que a transfomação temporal é real. Que o mundo temporal realmente está mudando. As coisas passam a existir e se vão. Se você acha que isso é verdade ou não, vai depender de qual teoria do tempo você adotar. Se você tem uma teoria temporal do tempo (isso geralmente é chamado de Teoria A, isso é apenas uma designação arbitrária, não descritiva) ou se você tem uma teoria atemporal do tempo (isso geralmente é chamado Teoria B).

Como posso explicar a diferença entre essas duas teorias? Vamos começar com a teoria do tempo atemporal e depois passar para a teoria do tempo temporal.

Segundo a teoria do tempo atemporal, a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão da consciência humana. Realmente não existe tal coisa objetivamente falando. As coisas passam a existir e se vão. Isso, novamente, é apenas uma ilusão dos seres humanos. Antes, tudo no tempo se espalha como uma linha espacial, e tudo é igualmente existente. Para as pessoas em 1868, 1868 é agora. Para as pessoas em 2015, 2015 é agora. Para as pessoas em 5030, 5030 é agora. Se você pergunta qual é realmente o agora, a resposta é que não há um agora real. É apenas uma de suas perspectivas pessoais subjetivas, nenhuma das quais é objetivamente verdadeira.

Se fizermos um diagrama dessa teoria, podemos deixar que esse disco represente o espaço. Vamos supor que, à medida que você volta no tempo, o espaço está encolhendo e, assim, diminuindo de volta ao começo do Big Bang. Isso seria o começo do tempo e do espaço. Vamos supor apenas por uma questão de conveniência que, à medida que você avança no futuro, o universo se contrai novamente até um ponto em que o tempo e o espaço acabam. Na teoria B, ou na teoria atemporal, do tempo, o tempo é meramente uma dimensão interna que ordena as seções espaciais desse continuum espaço-tempo. Desde o início no Big Bang até o final do Big Crunch, tudo é igualmente real. Não há transformação temporal. Não há fatos do tempo. Em vez disso, para qualquer seção que você escolher, as pessoas naquele momento pensarão que isso é o agora, e as pessoas naquela seção pensarão que aquele momento delas é o agora. Mas tudo isso são apenas perspectivas subjetivas.

Portanto, nessa teoria atemporal do tempo, é muito fácil pensar em Deus como existindo fora do tempo. Ele não está nesse espaço-tempo contínuo.[5] Portanto, ele não muda sua relação com ele. Ele está relacionado a tudo no tempo e no espaço, do começo ao fim, de modo atemporal. De fato, em certo sentido, essa criação, este mundo espaço-temporal, é, em certo sentido, co-eterna com Deus. Dizer que ele passa a existir apenas significa que tem uma vantagem. Mas Deus nunca existe sem ele. O tempo é simplesmente uma dimensão interna disso. Nesta visão, Deus nunca passa por mudanças extrínsecas, porque realmente não há mudança relacional entre Deus e as coisas no tempo. Da mesmo modo, não há fatos temporais para saber. O que Deus sabe é que fatos atemporais como esse X ocorrem em t = 7 e Y ocorre em t = 10. Eles são imutáveis. Eles nunca mudam. Sua mente nunca passa por um fluxo de consciência. Ele não tem passado, presente e nem futuro. Isso é apenas uma ilusão das pessoas no tempo. Nesta teoria atemporal, esses argumentos não passam porque Deus nunca passa por mudanças extrínsecas ou intrínsecas.

Por outro lado, na Teoria A do tempo, tudo o que realmente existe é o momento presente. Momentos passados ou momentos futuros não são reais. Eles são puramente potenciais. O passado se foi, o futuro ainda não chegou. Então, tudo o que realmente existe é o presente. Na Teoria A do tempo, se Deus estiver causalmente relacionado ao mundo, ele sofrerá mudanças extrínsecas à medida que o momento presente mudar, e ele conhecerá diferentes fatos temporais sobre o que está acontecendo no universo agora, à medida que o tempo passa.

Acho que esses argumentos são bons, dependendo da teoria temporal do tempo. Os argumentos para atemporalidade e temporalidade divina me parecem permanecer ou cair em sua visão do tempo. Você acha que passado, presente e futuro são características reais e objetivas da realidade? Ou você acha que a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão subjetiva da consciência humana e que nada realmente surge ou passa?

No meu livro, eu analiso os argumentos a favor e contra essas teorias do tempo. Sem tentar entrar nessa manhã, deixe-me simplesmente dizer que é universalmente reconhecido que a Teoria A (ou a teoria temporal) é a visão de senso comum do tempo. Esta é a visão do leigo. As coisas surgem e se vão. Realmente existe um presente e este é diferente do passado e do futuro. Essa visão de senso comum está enraizada em nossa experiência de transformação temporal, à medida que vivenciamos a passagem do tempo e as coisas que estão surgindo e desaparecendo. Não vejo razão para negar essa vivência. Parece-me que somos perfeitamente racionais para acompanhar o que nossa experiência nos diz: que, de fato, a transformação temporal é objetiva e há uma diferença entre passado, presente e futuro.

Além disso, tenho uma objeção teológica à teoria atemporal que eu ressaltaria. Que eu acho que enfraquece a doutrina da criação. Nesta visão, como eu digo, o mundo é realmente eterno com Deus. Agora, depende de Deus, depende ontologicamente dele. Deus é independente do mundo, mas o mundo não é independente de Deus. O mundo depende de Deus para existir. No entanto, não existe um estado de coisas em que Deus exista sozinho sem o mundo. Dizer que Deus criou o universo significa apenas que o universo tem uma vantagem, por assim dizer. Todo esse objeto co-eterno depende de Deus para sua existência. Eu acho que realmente enfraquece a doutrina cristã da criação do nada, que diz que há um estado de coisas no mundo real em que Deus existe sozinho. Nada está com ele. Como diz Isaías: “Quem estava comigo? Ninguém! Nada!" Então Deus diz para o mundo existir, e o mundo começa a existir de maneira temporal.[6]    

Além disso, observe que, sob esse ponto de vista, de uma maneira muito desconfortável, o mal nunca é realmente vencido. O mal existe aqui no mundo. Mesmo se mais tarde na história o julgamento de Deus recair sobre o mal, o mal nunca é realmente erradicado. Ainda existe nesses pontos espaço-temporais anteriores. Mas nunca é realmente eliminado. O que isto significa é que Cristo está pendurado permanentemente na cruz. A crucificação nunca acaba. Certamente há uma ressurreição mais tarde nos intervalos de tempo. Mais tarde, Jesus ressuscita dos mortos. Mas a crucificação nunca acaba. Nunca passa. Para mim, isso é teologicamente censurável. Eu acho que queremos dizer que Deus elimina o mal. Ele acaba com o mal. É vencido ou aniquilado. Para que isso aconteça, você precisa ter uma teoria temporal. Isso não vai acontecer na teoria atemporal.

Por essas razões, na minha opinião, Deus está no tempo. Se o tempo tivesse um começo, eu diria que Deus existindo sozinho sem o mundo é atemporal. Então, posso afirmar que ele tem uma espécie de existência atemporal. Mas eu diria que isso é uma propriedade contingente de Deus, não uma propriedade essencial. Quando ele cria o universo em virtude de suas reais relações com o mundo temporal, ele se torna temporal. Portanto, Deus sem a criação é atemporal, mas desde o momento da criação ele é temporal e está no tempo.

COMEÇO DA DISCUSSÃO

Aluno: Com a Teoria B, não é difícil imaginar ou entender que a Palavra (Deus) criou essa realidade espaço-temporal com sua Palavra, assim como um autor escreve um romance. Portanto, não há contradição quanto à sua atemporalidade e sua história.

Dr. Craig: Na verdade, essa é uma analogia usada com frequência para ilustrar a relação entre um Deus atemporal e um universo temporal. Imagine que este é um romance escrito por Deus que tem uma introdução, um primeiro capítulo, capítulos posteriores e, finalmente, uma conclusão. O autor está fora do período do romance e é externo a ele. Mas dentro do romance há uma linha do tempo, há uma história. Essa é uma boa ilustração dessa visão. Mas, neste ponto de vista, diferente do caso do autor e do romance, Deus nunca existe sem o romance. É co-eterno com ele, a menos que você use um hipertempo, um tipo de segunda dimensão do tempo em que ele cria o tempo. Então eu acho que a crítica que eu ofereci ainda permaneceria.

Aluno: Há muitas coisas com as quais me preocupo e tento entender e realmente desejo poder entender. Esta não é uma delas. Assim, com as advertências usuais de que isso parece simples, porque, de fato, eu sou simplório, que tal simplificá-lo da seguinte forma. Para nós, é a teoria A. Isso é tudo o que temos. Para Deus, é o A ou o B, o que ele quiser. Você pode ter a Teoria B, em outras palavras, acredito que tudo existe igualmente, mas você precisa ser Deus para vivência-la. Ele pode voltar no passado, voltar no futuro e fazê-lo exatamente do jeito que está. Porém, você diz que isso não é real. Mas, o que é real? É tão real quanto eu. Ele me criou. É real se ele diz que é real.  Seu argumento sobre o pecado nunca está sendo eliminado. Eu não vejo que isso [...], só depende de onde Deus quer estar no momento. Se ele quer entrar na nossa dimensão, ele sabe que o pecado será eliminado. Ele planeja fazer isso. Se ele simplesmente optar por não existir ou entrar no período em que o pecado era predominante, mas Cristo não estará na cruz para sempre. Deus pode voltar para aquele tempo, mas ele também pode voltar para os tempos muito mais abundantes em que Cristo não estava na cruz.

Dr. Craig: Penso que, na visão que você está descrevendo, é realmente uma teoria B, mas nossa experiência no tempo é uma ilusão. Não é objetiva. Não é assim que realmente é. Pensamos que a crucificação terminou, mas é tão real quanto o momento presente. Se Deus entra e sai disso não seria relevante. O fato é que, se você tem uma metafísica atemporal de como o tempo é, essas coisas são igualmente reais, independentemente da nossa experiência, que certamente está mudando.

FIM DA DISCUSSÃO

Nosso tempo acabou, no sentido prático![7]  

 

[1]    Laura Ingalls Wilder, A Casa da Floresta (Nova York: Harper & Row, 1932), p. 237-238. (versão em inglês)

[2] 5:15

[3] 10:01

[4] 15:00

[5] 20:00

[6] 25:05

[7] Tempo total:   30:58 (direitos autorais © 2015 William Lane Craig)

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Doutrina de Deus (Parte 6): O relacionamento de Deus com o Tempo

Doutrina de Deus (Parte 6):  O relacionamento de Deus com o Tempo

Temos falado sobre a eternidade de Deus. A título de revisão, vimos que a eternidade de Deus é afirmada nas Escrituras como Deus sendo sem princípio e sem fim. Ele existe permanentemente. Mas os dados das Escrituras são indeterminados em relação a como Deus se relaciona com o tempo. Deus é transtemporal? Ele está fora do tempo? Deus é um ser atemporal que não existe no tempo? Ou é Deus um ser eterno que existe onitemporalmente, a todo momento? As Escrituras não deixam isso claro. Portanto, essa questão deve ser resolvida pela teologia filosófica. Precisamos considerar argumentos a favor e contra a atemporalidade e a temporalidade divinas.

Escrevi vários livros sobre esse assunto, tendo estudado por quase 11 anos. Um deles é chamado Tempo e Eternidade. Se você estiver interessado em acompanhar esse assunto, recomendo este livro, publicado pela Crossway Books. Nele, examino o que considero os argumentos mais importantes para Deus ser atemporal, bem como os argumentos mais importantes para Deus ser onitemporal.

De todos os vários argumentos que foram oferecidos para que Deus seja atemporal, acho que o melhor argumento é provavelmente o argumento da incompletude da vida temporal. A existência temporal é terrivelmente incompleta, pois você ainda não tem seu futuro, é apenas potencial. E você não tem mais o passado. Acabou e é isto. Tudo que você tem é o presente. Esse é um instante passageiro que desaparece assim que chega. Portanto, a existência temporal é um tipo fugaz de existência, em que você não tem a plenitude de toda a sua vida de uma só vez, mas apenas tem uma fatia momentânea dessa vida, uma fatia após a outra. O argumento aqui é que esse tipo de existência incompleta é incompatível com a existência de um ser mais perfeito, que é o que Deus é. Um ser mais perfeito deveria ter sua vida de uma só vez, por assim dizer. Ele nunca deve perder seu passado ou ter um futuro que ainda será conquistado. Ele deveria ter sua vida de uma só vez.

A natureza fugaz da vida temporal me foi apresentada de maneira muito poderosa e inesperada, anos atrás, quando li para meus filhos, Charity e John, o livro de Laura Ingalls Wilder, Uma Casa na Floresta.  Quero ler para você os parágrafos finais desse livro. Ela diz:

<blockquote>

As longas noites de inverno com fogueiras e música voltaram. A voz forte e doce de Pa cantava suavemente:

Deve um antigo conhecido ser esquecido?
 

E nunca ser lembrado?
 

Deve um antigo conhecido ser esquecido?
 

E os bons e velhos tempos?
 

E os bons e velhos tempos, meu amigo?
 

 E os bons e velhos tempos?
 

Deve um antigo conhecido ser esquecido?
 

E os bons e velhos tempos?

Quando o violino parou de tocar, Laura falou baixinho: Quais são os bons e velhos tempos, Pa?

- São os dias de muito tempo atrás, Laura - disse o pai. 'Vá dormir agora.'

Mas Laura ficou acordada um pouco, ouvindo o violino de Pa tocando suavemente e o som solitário do vento na Grande Floresta. Ela olhou para o pai sentado no banco ao lado da lareira, a luz do fogo brilhando em seus cabelos e barba castanhos, e brilhando no violino marrom. Ela olhou para Ma, balançando suavemente e tricotando.

Ela pensou consigo mesma: "O agora é isso".

Ela estava feliz que a casa aconchegante, e Pa, Ma, a luz do fogo e a música estavam  no agora. Eles não poderiam ser esquecidos, ela pensou, porque o agora é agora. Isso nunca pode ser há muito tempo.[1]

Essa passagem não atingiu meus filhos com a mesma força que me atingiu, envolvido como eu estava no estudo do tempo e da eternidade.[2] Mas quando li fiquei de perplexo. O que torna a passagem tão comovente é que aquele momento tão real para Laura Ingalls, que era o agora e nunca poderia ser esquecido, agora se foi! O pai e a mãe se foram. A fronteira americana que eles lutaram para vencer se foi. Aqueles dias felizes como ela os chamava se foram para sempre, e nunca mais serão recuperados. O tempo tem uma maneira selvagem de consumir a vida, tornando-a terrivelmente incompleta e evanescente. Esse tipo de vida, diz o argumento, é incompatível com a existência de um ser mais perfeito que deve ter a plenitude da vida de uma só vez e, portanto, transcender o tempo completamente.

Eu acho que esse é um argumento poderoso. Porém, no caso de Deus, penso que a incompletude da vida temporal é diminuída de alguma forma por sua onisciência. Para um ser onisciente eterno, ele conhece o futuro com todos os detalhes que conhece o presente e o passado. Ele sabe tudo. Além disso, ele lembra do passado em detalhes perfeitos, para poder revivê-lo mentalmente como se estivesse no presente. Para um ser onisciente, penso que a passagem do tempo não é tão melancólica, como é para seres transitórios finitos. Portanto, acho que a incompletude da vida temporal no caso de Deus não é tão melancólica e deficiente como um modo de existência, como pode ser para seres temporais finitos.

No entanto, acho que temos que admitir que esse argumento tem alguma força e poderia motivar uma doutrina da atemporalidade divina, a menos que haja argumentos para a temporalidade divina que sejam ainda mais poderosos e superem isso.

Então, quando nos voltamos para argumentos sobre Deus estar no tempo, parece-me que existem dois argumentos especialmente poderosos para pensar que Deus é temporal e não transcende o tempo. O primeiro seria baseado nas mudanças das relações de Deus com o mundo. Deus muda em seus relacionamentos com as coisas no mundo temporal.

Aqui é importante distinguir entre o que poderíamos chamar de mudança intrínseca e mudança extrínseca. Algo muda intrinsecamente se mudar em uma de suas propriedades não relacionais, uma propriedade que se tem por si mesma. Por exemplo, uma maçã pode mudar de verde para vermelha. Isso seria uma mudança intrínseca na maçã. Uma mudança extrínseca, por outro lado, seria uma mudança relacional. Algo pode não mudar intrinsecamente, mas mudaria em suas relações com outras coisas. Por exemplo, eu já fui mais alto que meu filho, John, mas agora sou mais baixo que John. Isso é por causa de uma mudança intrínseca em mim? Não! Eu tenho a mesma altura que sempre estive, mas me tornei mais baixo que John, pois ele mudou intrinsecamente e ficou mais alto. Uma vez, estive na relação “mais alto que” com meu filho, mas agora estou na relação “mais baixo que” com meu filho. Portanto, sofri uma mudança não intrínseca, mas extrínseca, no meu relacionamento com ele.

Ao criar um mundo temporal, Deus pareceria sofrer, se não uma mudança intrínseca, pelo menos uma mudança extrínseca, porque ao criar um mundo temporal, Deus agora mantém novas relações como "causar o universo". Deus agora está relacionado causalmente ao universo, e ele não estava relacionado causalmente ao universo que existe sem ele. Da mesma forma, ele agora tem um relacionamento minimamente coexistente com o universo, uma propriedade a qual ele não tinha antes da criação. [3] De fato, não houve um momento antes da criação. Parece que Deus passaria por esses tipos de mudanças relacionais extrínsecas, na medida em que ele está relacionado a um universo temporal. Isso seria suficiente para estar no tempo.

Para entender, imagine uma rocha existindo isolada no espaço sideral. Vamos supor que esta rocha seja absolutamente imutável. Está congelada no zero absoluto. Eu sei que isso é fisicamente impossível, mas isso é apenas um experimento mental. Vamos imaginar essa rocha hipotética que é absolutamente imutável e está isolada no espaço sideral. Imagine então que um meteoro passa zunindo e depois outro. Claramente, a rocha não seria atemporal, embora seja intrinsecamente imutável. Porquê? Porque muda em sua relação com outras coisas que mudam. Primeiro houve um meteoro passando, depois outro meteoro passou. A rocha, apesar de imutável intrinsecamente, estaria claramente no tempo porque está relacionada à mudança das coisas. Uma vez que Deus está relacionado a um mundo temporal em mudança, Deus passaria por mudanças extrínsecas e, portanto, estaria no tempo. Parece-me um argumento muito poderoso para o fato de Deus ser temporal.

Deixe-me adicionar mais uma coisa. Essa mudança relacional em Deus se torna particularmente difícil para a atemporalidade quando você pensa na doutrina da encarnação. Porque, na encarnação, a segunda pessoa da Trindade assume uma natureza humana. Ele agora está relacionado a essa natureza humana de uma maneira que ele não estava antes. Parece claramente que houve um tempo em que a segunda pessoa da Trindade ainda não estava relacionada à natureza humana que Jesus de Nazaré possuía, e há um tempo depois no qual ele tem uma natureza humana e está relacionado à natureza humana. . Isso implicaria que Deus, portanto, está no tempo em virtude dessas relações mutáveis, mesmo que ele seja intrinsecamente imutável. Mesmo que ele seja intrinsecamente imutável, ele ainda seria temporal, tendo em vista suas mudanças de relacionamento com as coisas temporais.

O segundo argumento a favor da temporalidade divina seria baseado no conhecimento de Deus de fatos temporais. O que quero dizer com fatos temporais? Por fatos temporais, quero dizer fatos relacionados ao passado, presente e futuro. Por exemplo, agora são 15:00h. Isso seria um fato temporal. Eram 14:30h meia hora atrás. Isso é um fato temporal. Será 15:30h daqui a meia hora. Todos esses seriam fatos temporais. Como um ser onisciente, Deus deve conhecer todos os fatos. Se há fatos sobre o mundo dos quais Deus não sabe, ele não pode ser considerado onisciente. Se há fatos temporais, parece-me que Deus precisaria conhecê-los porque ele é onisciente. Ele sabe que horas são agora. Mas se Deus sabe que agora são 15:00h, ele está obviamente localizado neste momento para saber que agora são 15:00h. Se ele estiver localizado às 14:30h, ele saberá que são agora 14:30h. Portanto, haveria mudanças acontecendo constantemente em Deus à medida que esses fatos temporais mudassem. A maneira mais simples de pensar sobre isso é apenas saber que horas são. Deus não sabe que horas são no universo? Ele sabe que horas são agora. Se Deus não estivesse no tempo, ele não saberia se agora é a era da formação das galáxias, ou o tempo da vida na Terra, ou o momento em que o universo está sofrendo destruição termodinâmica. Ele não saberia o que está acontecendo agora no universo se não estiver no tempo. Parece-me que, em virtude de sua onisciência, Deus deve conhecer fatos temporais e, portanto, deve estar no tempo. Isso parece implicar não apenas uma mudança extrínseca, mas também intrínseca, em Deus; ou seja, Deus estaria constantemente mudando em sua vida de pensamento. Ele saberia que são agora 15:00h, agora são 15:01, agora são 15:02.[4] Haveria um fluxo no conteúdo da consciência em Deus, enquanto ele registra que horas são.

Longe de ser uma imperfeição em Deus, parece-me que esse tipo de conhecimento é uma perfeição em Deus. É em virtude de sua onisciência que Deus não pode ser enganado sobre que horas são; ele não está congelado na imobilidade, mas mantém o controle do que está acontecendo no universo. Portanto, ele sabe o que está acontecendo agora.

Esses dois argumentos, se corretos, creio que fornecem bases muito poderosas para pensar que Deus está no tempo e, portanto, mais do que contrabalançam o argumento da atemporalidade divina com base na incompletude da vida temporal.

Como devemos avaliar esses dois argumentos para a temporalidade divina? Parece-me que há uma escapatória para o defensor da atemporalidade divina. Esses argumentos assumem que existem fatos temporais sobre o mundo, sobre o que é presente, passado ou futuro. E eles supõem que a transfomação temporal é real. Que o mundo temporal realmente está mudando. As coisas passam a existir e se vão. Se você acha que isso é verdade ou não, vai depender de qual teoria do tempo você adotar. Se você tem uma teoria temporal do tempo (isso geralmente é chamado de Teoria A, isso é apenas uma designação arbitrária, não descritiva) ou se você tem uma teoria atemporal do tempo (isso geralmente é chamado Teoria B).

Como posso explicar a diferença entre essas duas teorias? Vamos começar com a teoria do tempo atemporal e depois passar para a teoria do tempo temporal.

Segundo a teoria do tempo atemporal, a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão da consciência humana. Realmente não existe tal coisa objetivamente falando. As coisas passam a existir e se vão. Isso, novamente, é apenas uma ilusão dos seres humanos. Antes, tudo no tempo se espalha como uma linha espacial, e tudo é igualmente existente. Para as pessoas em 1868, 1868 é agora. Para as pessoas em 2015, 2015 é agora. Para as pessoas em 5030, 5030 é agora. Se você pergunta qual é realmente o agora, a resposta é que não há um agora real. É apenas uma de suas perspectivas pessoais subjetivas, nenhuma das quais é objetivamente verdadeira.

Se fizermos um diagrama dessa teoria, podemos deixar que esse disco represente o espaço. Vamos supor que, à medida que você volta no tempo, o espaço está encolhendo e, assim, diminuindo de volta ao começo do Big Bang. Isso seria o começo do tempo e do espaço. Vamos supor apenas por uma questão de conveniência que, à medida que você avança no futuro, o universo se contrai novamente até um ponto em que o tempo e o espaço acabam. Na teoria B, ou na teoria atemporal, do tempo, o tempo é meramente uma dimensão interna que ordena as seções espaciais desse continuum espaço-tempo. Desde o início no Big Bang até o final do Big Crunch, tudo é igualmente real. Não há transformação temporal. Não há fatos do tempo. Em vez disso, para qualquer seção que você escolher, as pessoas naquele momento pensarão que isso é o agora, e as pessoas naquela seção pensarão que aquele momento delas é o agora. Mas tudo isso são apenas perspectivas subjetivas.

Portanto, nessa teoria atemporal do tempo, é muito fácil pensar em Deus como existindo fora do tempo. Ele não está nesse espaço-tempo contínuo.[5] Portanto, ele não muda sua relação com ele. Ele está relacionado a tudo no tempo e no espaço, do começo ao fim, de modo atemporal. De fato, em certo sentido, essa criação, este mundo espaço-temporal, é, em certo sentido, co-eterna com Deus. Dizer que ele passa a existir apenas significa que tem uma vantagem. Mas Deus nunca existe sem ele. O tempo é simplesmente uma dimensão interna disso. Nesta visão, Deus nunca passa por mudanças extrínsecas, porque realmente não há mudança relacional entre Deus e as coisas no tempo. Da mesmo modo, não há fatos temporais para saber. O que Deus sabe é que fatos atemporais como esse X ocorrem em t = 7 e Y ocorre em t = 10. Eles são imutáveis. Eles nunca mudam. Sua mente nunca passa por um fluxo de consciência. Ele não tem passado, presente e nem futuro. Isso é apenas uma ilusão das pessoas no tempo. Nesta teoria atemporal, esses argumentos não passam porque Deus nunca passa por mudanças extrínsecas ou intrínsecas.

Por outro lado, na Teoria A do tempo, tudo o que realmente existe é o momento presente. Momentos passados ou momentos futuros não são reais. Eles são puramente potenciais. O passado se foi, o futuro ainda não chegou. Então, tudo o que realmente existe é o presente. Na Teoria A do tempo, se Deus estiver causalmente relacionado ao mundo, ele sofrerá mudanças extrínsecas à medida que o momento presente mudar, e ele conhecerá diferentes fatos temporais sobre o que está acontecendo no universo agora, à medida que o tempo passa.

Acho que esses argumentos são bons, dependendo da teoria temporal do tempo. Os argumentos para atemporalidade e temporalidade divina me parecem permanecer ou cair em sua visão do tempo. Você acha que passado, presente e futuro são características reais e objetivas da realidade? Ou você acha que a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão subjetiva da consciência humana e que nada realmente surge ou passa?

No meu livro, eu analiso os argumentos a favor e contra essas teorias do tempo. Sem tentar entrar nessa manhã, deixe-me simplesmente dizer que é universalmente reconhecido que a Teoria A (ou a teoria temporal) é a visão de senso comum do tempo. Esta é a visão do leigo. As coisas surgem e se vão. Realmente existe um presente e este é diferente do passado e do futuro. Essa visão de senso comum está enraizada em nossa experiência de transformação temporal, à medida que vivenciamos a passagem do tempo e as coisas que estão surgindo e desaparecendo. Não vejo razão para negar essa vivência. Parece-me que somos perfeitamente racionais para acompanhar o que nossa experiência nos diz: que, de fato, a transformação temporal é objetiva e há uma diferença entre passado, presente e futuro.

Além disso, tenho uma objeção teológica à teoria atemporal que eu ressaltaria. Que eu acho que enfraquece a doutrina da criação. Nesta visão, como eu digo, o mundo é realmente eterno com Deus. Agora, depende de Deus, depende ontologicamente dele. Deus é independente do mundo, mas o mundo não é independente de Deus. O mundo depende de Deus para existir. No entanto, não existe um estado de coisas em que Deus exista sozinho sem o mundo. Dizer que Deus criou o universo significa apenas que o universo tem uma vantagem, por assim dizer. Todo esse objeto co-eterno depende de Deus para sua existência. Eu acho que realmente enfraquece a doutrina cristã da criação do nada, que diz que há um estado de coisas no mundo real em que Deus existe sozinho. Nada está com ele. Como diz Isaías: “Quem estava comigo? Ninguém! Nada!" Então Deus diz para o mundo existir, e o mundo começa a existir de maneira temporal.[6]    

Além disso, observe que, sob esse ponto de vista, de uma maneira muito desconfortável, o mal nunca é realmente vencido. O mal existe aqui no mundo. Mesmo se mais tarde na história o julgamento de Deus recair sobre o mal, o mal nunca é realmente erradicado. Ainda existe nesses pontos espaço-temporais anteriores. Mas nunca é realmente eliminado. O que isto significa é que Cristo está pendurado permanentemente na cruz. A crucificação nunca acaba. Certamente há uma ressurreição mais tarde nos intervalos de tempo. Mais tarde, Jesus ressuscita dos mortos. Mas a crucificação nunca acaba. Nunca passa. Para mim, isso é teologicamente censurável. Eu acho que queremos dizer que Deus elimina o mal. Ele acaba com o mal. É vencido ou aniquilado. Para que isso aconteça, você precisa ter uma teoria temporal. Isso não vai acontecer na teoria atemporal.

Por essas razões, na minha opinião, Deus está no tempo. Se o tempo tivesse um começo, eu diria que Deus existindo sozinho sem o mundo é atemporal. Então, posso afirmar que ele tem uma espécie de existência atemporal. Mas eu diria que isso é uma propriedade contingente de Deus, não uma propriedade essencial. Quando ele cria o universo em virtude de suas reais relações com o mundo temporal, ele se torna temporal. Portanto, Deus sem a criação é atemporal, mas desde o momento da criação ele é temporal e está no tempo.

COMEÇO DA DISCUSSÃO

Aluno: Com a Teoria B, não é difícil imaginar ou entender que a Palavra (Deus) criou essa realidade espaço-temporal com sua Palavra, assim como um autor escreve um romance. Portanto, não há contradição quanto à sua atemporalidade e sua história.

Dr. Craig: Na verdade, essa é uma analogia usada com frequência para ilustrar a relação entre um Deus atemporal e um universo temporal. Imagine que este é um romance escrito por Deus que tem uma introdução, um primeiro capítulo, capítulos posteriores e, finalmente, uma conclusão. O autor está fora do período do romance e é externo a ele. Mas dentro do romance há uma linha do tempo, há uma história. Essa é uma boa ilustração dessa visão. Mas, neste ponto de vista, diferente do caso do autor e do romance, Deus nunca existe sem o romance. É co-eterno com ele, a menos que você use um hipertempo, um tipo de segunda dimensão do tempo em que ele cria o tempo. Então eu acho que a crítica que eu ofereci ainda permaneceria.

Aluno: Há muitas coisas com as quais me preocupo e tento entender e realmente desejo poder entender. Esta não é uma delas. Assim, com as advertências usuais de que isso parece simples, porque, de fato, eu sou simplório, que tal simplificá-lo da seguinte forma. Para nós, é a teoria A. Isso é tudo o que temos. Para Deus, é o A ou o B, o que ele quiser. Você pode ter a Teoria B, em outras palavras, acredito que tudo existe igualmente, mas você precisa ser Deus para vivência-la. Ele pode voltar no passado, voltar no futuro e fazê-lo exatamente do jeito que está. Porém, você diz que isso não é real. Mas, o que é real? É tão real quanto eu. Ele me criou. É real se ele diz que é real.  Seu argumento sobre o pecado nunca está sendo eliminado. Eu não vejo que isso [...], só depende de onde Deus quer estar no momento. Se ele quer entrar na nossa dimensão, ele sabe que o pecado será eliminado. Ele planeja fazer isso. Se ele simplesmente optar por não existir ou entrar no período em que o pecado era predominante, mas Cristo não estará na cruz para sempre. Deus pode voltar para aquele tempo, mas ele também pode voltar para os tempos muito mais abundantes em que Cristo não estava na cruz.

Dr. Craig: Penso que, na visão que você está descrevendo, é realmente uma teoria B, mas nossa experiência no tempo é uma ilusão. Não é objetiva. Não é assim que realmente é. Pensamos que a crucificação terminou, mas é tão real quanto o momento presente. Se Deus entra e sai disso não seria relevante. O fato é que, se você tem uma metafísica atemporal de como o tempo é, essas coisas são igualmente reais, independentemente da nossa experiência, que certamente está mudando.

FIM DA DISCUSSÃO

Nosso tempo acabou, no sentido prático![7]  

 

[1]    Laura Ingalls Wilder, A Casa da Floresta (Nova York: Harper & Row, 1932), p. 237-238. (versão em inglês)

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[7] Tempo total:   30:58 (direitos autorais © 2015 William Lane Craig)