“reasonable faith”) que busca propor uma cosmovisão abrangente, levando em conta as melhores informações das ciências, história, filosofia, lógica e matemática. Alguns dos argumentos a favor da existência de Deus que defendo, como argumentos a partir da origem e do ajuste fino do universo, apelam para os melhores dados da ciência contemporânea. Tenho a impressão, Nick, de que você pensa que a ciência é, de algum modo, incompatível com a crença em milagres. Se for o caso, você precisa oferecer um argumento a favor dessa conclusão. O famoso argumento de David Hume contra milagres é reconhecido, hoje em dia, como “fracasso abjeto”, nas palavras de John Earman, filósofo da ciência. Ninguém ainda conseguiu superar Hume.

Kristof: Você é cristão evangélico, e devo reconhecer que religiosos doam mais para caridade do que irreligiosos, além de se voluntariarem mais. No entanto, fico consternado que líderes evangélicos parecem, às vezes, fanfarrões moralistas, tão concentrados em questões sobre as quais Jesus não deu nem um pio — como gays e aborto —, enquanto ficam indiferentes à pobreza, desigualdade, intolerância e outros tópicos centrais aos ensinamentos de Jesus.

Craig: Sim, entendo. Às vezes, fico com vergonha das pessoas que a mídia destaca como porta-vozes do cristianismo. A mídia evita cristãos inteligente e articulados em favor de pregadores e televangelistas incendiários. Mas saiba que a igreja cristã está envolvida não apenas na defesa da santidade da vida e do casamento, mas em toda uma gama de questões sociais, como o combate à pobreza, o sustento dos desabrigados, o cuidado médico, a ajuda em meio a desastres, programas de alfabetização, o incentivo a pequenos negócios, a promoção de direitos das mulheres e a perfuração de poços, especialmente no mundo em desenvolvimento. Honestamente, os cristãos têm sofrido injustamente com má publicidade e reputação.

Nicholas Kristof é colunista para The New York Times desde 2001. Ele ganhou dois prêmios Pulitzer por sua cobertura sobre a China e o genocídio em Darfur. Você pode se cadastrar em seu boletim bissemanal por e-mail e segui-lo no Instagram, no Twitter @NickKristof e no Facebook.

Uma versão imprensa deste artigo apareceu em 23 de dezembro de 2018, na página SR23 da edição de Nova Iorque, com a manchete “Professor, Was Jesus Really Born to a Virgin?” [Professor, Jesus realmente nasceu de uma virgem?].

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Professor, Jesus realmente nasceu de uma virgem?

Summary

Esta é a última parte de minha série ocasional de conversas sobre o cristianismo. Anteriormente, falei com o Rev. Timothy Keller, Jimmy Carter e Cardinal Joseph Tobin. Aqui vai minha entrevista com William Lane Craig, professor na Escola de Teologia Talbot e na Universidade Batista de Houston.

Kristof: Feliz Natal, Dr. Craig! Devo confessar que, apesar de toda minha admiração por Jesus, sou cético quanto à narrativa que herdamos. Você realmente tem certeza de que Jesus nasceu de uma virgem?

Craig: Feliz Natal para você também, Nick! Estou razoavelmente certo. Quando era não-cristão, eu lutava com isto também. Porém, ocorreu-me que, para um Deus que podia criar o universo inteiro, fazer que uma mulher ficasse grávida não era lá grande coisa! Dada a existência de um criador e arquiteto do universo (para o que temos bons indícios), um milagre ocasional é brincadeira de criança. Historicamente falando, a história da concepção virginal é atestada independentemente por Mateus e Lucas, sendo completamente distinta de tudo na mitologia pagã ou no judaísmo. Qual é o problema, então?

Kristof: Por que não podemos aceitar que Jesus era extraordinário mestre de moral, sem aderir a milagres?

Craig: Você pode fazê-lo, mas será à custa de se opor aos indícios. Que Jesus desempenhou um ministério de operação de milagres e exorcismos é tão amplamente atestado em cada estrato das fontes que o consenso entre estudiosos do Jesus histórico é que Jesus curava pela fé e exorcizava. Isto não prova que os eventos eram milagres genuínos, mas mostra que Jesus se considerava como mais do que um simples mestre de moral.

Kristof: Você não crê nos relatos de Gênesis, segundo os quais o mundo foi criado em seis dias, ou Eva foi criada da costela de Adão, não é mesmo? Se as histórias da Bíblia hebraica não precisam ser tomadas literalmente, por que também não aceitar que os autores do Novo Testamento tomaram algumas liberdades?

Craig: Porque os evangelhos são um tipo de literatura diferente da história primeva de Gênesis 1—11. O destacado assiriólogo Thorkild Jacobsen descreveu Gênesis 1—11 como história envolta na linguagem figurativa da mitologia, um gênero que ele cunhou de “mito-história”. Em contraste, o consenso entre historiadores é que os evangelhos pertencem ao gênero da biografia antiga, como “Vidas de gregos e romanos”, de Plutarco. Sendo assim, eles almejam oferecer um relato historicamente confiável.

Kristof: Como o senhor explica as tantas contradições dentro do Novo Testamento? Por exemplo, Mateus diz que Jesus se enforcou, enquanto Atos diz que ele “arrebentou-se ao meio”. Os dois não podem estar certos ao mesmo tempo; por que, então, insistir na inerrância das Escrituras?

Craig: Não insisto na inerrância das Escrituras. Antes, insisto naquilo que C. S. Lewis denominou de “cristianismo puro e simples”, ou seja, as doutrinas centrais do cristianismo. Harmonizar contradições observadas na Bíblia é uma questão de discussão interna entre cristãos. O que realmente importa são questões como: será que Deus existe? Existem valores morais objetivos? Será que Jesus era verdadeiro Deus e verdadeiro homem? Como sua morte numa cruz romana serve para superar nossa infração moral e alienação em relação a Deus? Estas são, na expressão de um filósofo, “as questões que importam”, e não como Judas morreu.

Kristof: Ao longo do tempo, as pessoas puseram sua fé em Zeus, em Xiva e Krisna, no deus chinês da cozinha, em inúmeras outras divindades. Somos céticos quanto a todas essas tradições de fé; será que deveríamos, então, suspender nossa ênfase na ciência e na racionalidade quando deparamos com milagres em nossa própria tradição?

Craig: Não entendi. Por que deveríamos suspender nossa ênfase na ciência e na racionalidade, simplesmente por causa de afirmações falsas, com indícios precários, em outras religiões? Defendo uma fé razoável e racional (“reasonable faith”) que busca propor uma cosmovisão abrangente, levando em conta as melhores informações das ciências, história, filosofia, lógica e matemática. Alguns dos argumentos a favor da existência de Deus que defendo, como argumentos a partir da origem e do ajuste fino do universo, apelam para os melhores dados da ciência contemporânea. Tenho a impressão, Nick, de que você pensa que a ciência é, de algum modo, incompatível com a crença em milagres. Se for o caso, você precisa oferecer um argumento a favor dessa conclusão. O famoso argumento de David Hume contra milagres é reconhecido, hoje em dia, como “fracasso abjeto”, nas palavras de John Earman, filósofo da ciência. Ninguém ainda conseguiu superar Hume.

Kristof: Você é cristão evangélico, e devo reconhecer que religiosos doam mais para caridade do que irreligiosos, além de se voluntariarem mais. No entanto, fico consternado que líderes evangélicos parecem, às vezes, fanfarrões moralistas, tão concentrados em questões sobre as quais Jesus não deu nem um pio — como gays e aborto —, enquanto ficam indiferentes à pobreza, desigualdade, intolerância e outros tópicos centrais aos ensinamentos de Jesus.

Craig: Sim, entendo. Às vezes, fico com vergonha das pessoas que a mídia destaca como porta-vozes do cristianismo. A mídia evita cristãos inteligente e articulados em favor de pregadores e televangelistas incendiários. Mas saiba que a igreja cristã está envolvida não apenas na defesa da santidade da vida e do casamento, mas em toda uma gama de questões sociais, como o combate à pobreza, o sustento dos desabrigados, o cuidado médico, a ajuda em meio a desastres, programas de alfabetização, o incentivo a pequenos negócios, a promoção de direitos das mulheres e a perfuração de poços, especialmente no mundo em desenvolvimento. Honestamente, os cristãos têm sofrido injustamente com má publicidade e reputação.

Nicholas Kristof é colunista para The New York Times desde 2001. Ele ganhou dois prêmios Pulitzer por sua cobertura sobre a China e o genocídio em Darfur. Você pode se cadastrar em seu boletim bissemanal por e-mail e segui-lo no Instagram, no Twitter @NickKristof e no Facebook.

Uma versão imprensa deste artigo apareceu em 23 de dezembro de 2018, na página SR23 da edição de Nova Iorque, com a manchete “Professor, Was Jesus Really Born to a Virgin?” [Professor, Jesus realmente nasceu de uma virgem?].