Temos falado sobre os atributos infinitos de Deus. Concluímos na semana passada o nosso estudo da aseidade divina. Hoje, queremos nos voltar para um novo atributo de Deus, ou seja, a eternidade de Deus. Iremos examinar primeiro alguns dados das Escrituras referentes à eternidade de Deus.
Primeiro, as Escrituras ensinam que Deus existe sem começo e fim. Salmos 90:1-4:
Senhor, tu tens sido o nosso refúgio de geração em geração. Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus.
Deus existe sem princípio e sem fim.
Segundo, as Escrituras indicam que a eternidade de Deus contrasta com a transitoriedade do homem. Salmos 102: 11-12; 25-27:
Meus dias são como uma sombra que declina, e como a erva me vou secando. Mas tu, SENHOR, permanecerás para sempre, a tua memória de geração em geração [...]. Desde a antiguidade fundaste a terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles envelhecerão como um vestido. Como roupas os mudarás, e ficarão mudados; porém, tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim.
Aqui você tem uma comparação embelezada entre a eternidade de Deus, sem princípio e sem fim, e a criação que Deus fez, que é temporal e transitória.
Salmos 90:5-6: "Tu os levas como uma corrente de água; são como sono; de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca".
Aqui a vida humana é comparada a um sono, que é evanescente em sua existência. Ele desaparece no momento em que você acorda. Ou a grama que de manhã é fresca e florescente, mas depois é queimada à tarde. Da mesma forma, nossa existência é muito transitória quando comparada à existência eterna de Deus.
Também podemos comparar aqui Jó 36:26, que diz: “Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos; o número de seus anos não se pode esquadrinhar”. Compare isso com Isaías 41: 4: “Quem operou e fez isso, chamando as gerações desde o princípio? Eu, o Senhor, o primeiro, e com os últimos eu mesmo". Aqui Deus é o eterno que estava lá no começo e no final da história humana. Ele é quem dura para sempre, enquanto a existência humana é passageira e transitória.
Finalmente, de uma maneira difícil de expressar, as Escrituras parecem ensinar que Deus existia antes do tempo começar. Embora existam várias passagens como essa, vejamos apenas uma delas. Judas 1:25, o último livro antes do livro de Apocalipse no Novo Testamento.[1] Aqui o autor diz: “Ao único Deus sábio, nosso Salvador, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória, majestade, domínio e autoridade, antes de todos os tempos, agora e sempre. Amém". Que expressão interessante por parte do autor. Ele dá glória a Deus antes de todos os tempos (antes do início dos tempos), agora (atualmente) e para sempre no futuro. Isso sugere que o próprio tempo teve um começo e que Deus, de alguma maneira difícil de expressar, existia "antes do início do tempo".
Vamos falar sobre uma reflexão sistemática sobre esses dados bíblicos. A Bíblia ensina que Deus é eterno como vimos, mas não deixa claro como Deus é eterno. O que quero dizer com isso? Existem duas maneiras pelas quais algo pode existir sem começo e sem fim. Uma seria existir ao longo do tempo infinito. Se imaginarmos o tempo como uma linha que não tem fim, mas continua para sempre e que não tem começo, algo pode ser sem começo e sem fim, existindo o tempo todo, sem começo e sem fim. Essa seria uma maneira de ser eterno, ser sem começo e sem fim ao longo do tempo infinito.
A outra maneira seria existir completamente fora do tempo. Se dissermos que Deus não está na linha do tempo em lugar algum, então ele não tem nenhuma localização e nenhuma duração temporal. Ele seria sem começo e sem fim, simplesmente porque os conceitos de começo e fim não se aplicariam a um ser que não está no tempo. Um ser que transcende o tempo e que não está na linha do tempo não teria começo nem fim, porque ele não persiste durante o tempo.
Como eu disse, os dados bíblicos deixam em aberto uma questão sobre se Deus é eterno no sentido de ser onitemporal ao longo do tempo infinito ou simplesmente ser atemporal. Portanto, essa não é uma questão que possa ser decidida biblicamente; mas, essa é uma questão teológica filosófica. É aqui que o exegeta bíblico para, então, ele tem que entregar a tarefa ao teólogo filosófico se quisermos ir mais longe.
A ideia central da eternidade que esses dois conceitos englobam seria a de que existir eternamente é existir sem começo ou fim, ou existir permanentemente. Essa é a ideia central da eternidade. Mas existem pelo menos dois modos de existência que poderiam se encaixar nessa definição: um modo onitemporal ao longo do tempo infinito, ou um modo atemporal de existência. A Bíblia não resolve essa questão.
COMEÇO DA DISCUSSÃO
Aluno: Quando as Escrituras que você citou de Judas disse que Deus existia antes do espaço-tempo (em outras palavras, ele existia antes; esse é o tipo de afirmação de que o tempo começou em algum momento). Então ele poderia ter existido antes que houvesse algo como esse reino do espaço-tempo, e então estar nele quando ele o criou.
Dr. Craig: Sim. A dificuldade é como vamos entender isso? Como vamos analisá-lo? Porque se for tido pelo valor nominal, pareceria uma contradição dizer que Deus existia antes do tempo porque "antes" é uma relação temporal, certo?[2] Portanto, existir antes do início dos tempos em sentido literal seria uma contradição em termos. Obviamente, a Bíblia não é um livro de filosofia e, portanto, precisamos tentar entender o que Judas está tentando dizer. Isso envolverá algum tipo de reflexão filosófica para tentar fazer sentido. É isso que vamos tentar fazer.
Aluno: Há alguém que teve uma ideia com a qual eu já havia concordado: Deus deve ter seu próprio tempo. Vamos simplificar e dizer o seu próprio tempo. Se você define o tempo como aquilo que ocorre entre eventos não simultâneos, obviamente houve tempo antes da criação do espaço-tempo, porque se Deus tem pensamentos seguidos, esses são dois eventos não simultâneos. Algo tinha que preencher entre eles. Se você quiser chamar de outra coisa, tudo bem, mas parece-me que Deus precisa desse tempo antes de criar o universo. Você poderia dizer que o tempo e a distância são relativos e tal. Tudo bem. Esse seria outro tempo no meu conceito. Mas antes de criar esse tempo, ele teria que ter feito isso. Em Judas 1:25, que você citou, na NVI diz "antes de todos os tempos". Brad acabou de verificar. O grego é aión , 165 de Strong. O significado grego disso é o mesmo que o significado de "épico", como os anos 1920. Um tempo que tinha uma certa característica, mas talvez não um começo e um fim definidos, mas uma era. Geralmente, quando Cristo no Novo Testamento diz: "Eis que estou com você até o fim dos tempos", é aí que está; ou seja, quando ele volta para nós. Em vez de dizer esse versículo, não creio que seja um argumento forte de que Deus precedeu o tempo, mas que ele precedeu todas as eras ou todas as coisas que ele criou no universo.
Dr. Craig: Certo. Essa não era uma pergunta de compreensão. O que você começou a fazer é entrar em uma reflexão sistemática sobre isso. Eu acho que muitos dos seus comentários foram muito úteis. Eu diria que, com relação a aión, o uso da palavra “tempos” pode significar coisas diferentes em contextos diferentes. Se você observar como isso é usado em relação a Deus e ao tempo, há vários versículos que parecem sugerir que, antes do início de qualquer tempo, Deus existia sozinho e que depois ele os criou. Pode ser que você queira dizer que ele existiu em um tempo próprio que é diferente do tipo de espaço-tempo físico que, penso eu, a outra pessoa estava falando. Guardaremos esse pensamento por enquanto e voltaremos a ele.
Aluno: A linha que representa o tempo, sempre tem um valor? Hoje, tempo para mim significa segundos e minutos. É isso o que representa? O tempo infinito sempre tem um valor?
Dr. Craig: Se por valor você quer dizer que eles podem ser intervalos especificados, estamos falando sobre o tipo de tempo que terá unidades métricas como dias, anos, segundos e assim por diante. Então, sim, é disso que estamos falando. É isso que você está perguntando?
Aluno: Sim. Estou realmente muito confuso sobre isso. Então o tempo nem sempre pode existir porque, antes da criação do universo, como o tempo era mensurado?
Dr. Craig: Certo, estamos entrando exatamente no que chamo de perguntas sistemáticas. O que o última pessoa que perguntou quer dizer é que Deus tem um tempo próprio e que, mesmo que este período do nosso universo tenha tido um começo, digamos no Big Bang por uma questão de simplicidade, no entanto, talvez Deus tenha preexistido o início do tempo físico em uma espécie de tempo metafísico em que ele existe. Essa é uma pergunta que merece ser explorada.
Aluno: Não é um pouco mais preciso definir o tempo não como uma linha reta, mas como um círculo?
Dr. Craig: Eu não acho que isso seria certo do ponto de vista cristão, pelo menos porque, do ponto de vista cristão, o tempo ou a história não são circulares.[3] Muito pelo contrário. Ele tem um objetivo, ou um telos, que é para ser alcançado no Reino de Deus, o lugar de uma vida após a morte, céu e inferno, e assim por diante. Portanto, existe uma criação e, depois, um fim para o qual o mundo está caminhando e se movendo. O conceito cristão de tempo é linear. Não é circular. A visão de que o tempo é circular seria uma visão que estaria mais associada ao pensamento cíclico da Grécia antiga de que tudo se repetiria, que não há objetivo ou destino para o qual o universo esteja caminhando, mas tudo simplesmente se repete. Mas mesmo se isso fosse verdade na história da humanidade, parece-me que isso resultaria em eventos se repetindo, mas ainda haveria um tempo linear. Para o tempo ser literalmente circular, significaria que algum evento E está antes e depois de si mesmo, o que parece absurdo. Como E poderia estar antes e depois de si? Se o tempo é circular, essa seria a implicação que parece loucura. Se E já ocorreu, não poderá estar diante de si. Penso que a ideia de tempo cíclico ou circular é realmente absurda. O tempo (se existir) será linear, mesmo que os eventos no tempo se repitam.
Aluno: Eu entendo o que você está dizendo. Acho que o que estou dizendo e não expressei muito bem é que a eternidade seria melhor definida como um círculo. Não tem começo; não tem fim. Não importa o ponto do círculo escolhido, você pode ir para a esquerda, direita, para cima ou para baixo. Enquanto o tempo, se você o considera um evento criado, tem um começo, tem um fim e é definido.
Dr. Craig: Eu tenho dificuldade, novamente, com essa ideia de circular, porque isso parece significar que as coisas são antes e depois de si mesmas. Se você quiser escolher uma geometria para a existência atemporal de Deus, acho que um único ponto seria uma melhor representação geométrica da eternidade. Não há antes; não há depois; não há mais cedo ou mais tarde. Há apenas esse estado único. Então, eu diria que, se você deseja representar a eternidade geometricamente, então, em vez de qualquer tipo de linha, seria apenas um ponto.
Aluno: Eu sempre penso no tempo como algo que usamos como substituto para medir a mudança. Se Deus é imutável, o tempo de Deus é irrelevante, porque não há mudança. Se Deus tem pensamentos seguidos, ele não muda com seus pensamentos. Todos os seus pensamentos são simultâneos.
Dr. Craig: Certo, veja que essa é uma visão muito diferente da de Bob. Isso é bom porque temos aqui um exemplo de duas pessoas, ambas cristãs, que têm concepções diferentes da eternidade divina. Uma vê Deus pensando de uma maneira linear, um pensamento após o outro que, como Bob diz, obviamente estabelece uma relação antes e depois. Enquanto você diz que não, Deus não pensa sequencialmente assim. Todos os seus pensamentos estão neste único, em certo sentido, ponto simultâneo. Isso ilustra exatamente essas duas concepções diferentes da eternidade. Muitos teólogos concordariam com você que um Deus imutável é simplesmente atemporal. Outros, especialmente os teólogos mais contemporâneos, concordariam com Bob, que Deus está no tempo e passa por uma sequência temporal. Como eu disse, essa é uma questão sobre a qual os cristãos ortodoxos discordam. Mas pelo menos essas diferenças estão nos ajudando a ver com muita clareza as visões contrastantes.[4]
Aluno: Eu me referiria a Romanos 4:17, um dos meus versículos favoritos, Deus dá vida aos mortos e chama à existência coisas que não existem, como se existissem. Eu vejo Deus vivendo no infinito agora. Ele não tem uma sequência temporal de eventos, mas pode chamar à existência as coisas que não existem como se existissem.
Dr. Craig: Esse versículo ao qual você está se referindo, onde diz que Deus cria as coisas que não existem, provavelmente é uma referência à sua criação do mundo do nada. Esta é uma expressão da doutrina da criação ex nihilo, do nada. Não vejo que isso decida a questão sobre a qual estamos falando aqui, se a existência de Deus é atemporal ou temporal. Qualquer um desses pontos de vista verá Deus criando o universo do nada. O universo não tem uma causa material. Deus criou toda a matéria e energia, bem como tudo o que é feito de matéria e energia, bem como os reinos angélicos. Então, eu acho que essa é uma questão que não poderemos decidir biblicamente citando textos como provas. Essa será uma questão teológica filosófica à qual teremos que dar argumentos.
Aluno: Existe uma visão alternativa? Você disse que Deus está fora do tempo, ou que ele está em um tempo temporal, que diz que Deus está em todos os momentos do nosso tempo temporal ao mesmo tempo. Por fim, ele está em nosso tempo temporal, mas está no mesmo lugar porque pode ver o passado, o presente e o futuro.
Dr. Craig: É muito difícil entender o que você acabou de dizer, porque você disse que Deus está em todos os momentos ao mesmo tempo. Bem, agora, que horas são? Ele está as 3 horas o tempo todo? Isso não faria sentido. Como ele poderia estar em todos os momentos, se está naquele momento? Eu acho que a única maneira de entender o que você disse seria se tivéssemos duas dimensões de tempo ou uma espécie de hipertempo. [desenha um diagrama no quadro branco ilustrando o hipertempo]
Você pode imaginar que há outra dimensão de tempo. O que você poderia dizer é que em todos os momentos do hipertempo, Deus existe em todos os momentos do nosso tempo. Isso evitaria a contradição. Você está dizendo que Deus existe em todo momento no mesmo momento. Mas você está falando sobre dois tempos diferentes. Você está falando sobre o tempo comum e o hipertempo. Acho que a dificuldade é que não é apenas extravagante postular essas dimensões do hipertempo para as quais não temos evidências (não há razão para pensar que esses hipertensos existam), mas, em certo sentido, apenas coloca o problema no andar de cima, porque agora você tem um Deus no hipertempo, que existe apenas em momentos seguidos no hipertempo. Portanto, é o mesmo problema novamente.
Aluno: Outra maneira de dizer isso é: ele é onitemporal?
Dr. Craig: Ser onitemporal é apenas ser eterno ao longo do tempo infinito. Essa é uma das visões. Essa é uma das duas visões sobre as quais estamos falando.
Aluno: Qual dessas visões seria então?
Dr. Craig: Essa seria a visão em que eu originalmente desenhei uma linha e disse que Deus existe em todos os pontos da linha do tempo. Sem começo e sem fim. Mas o que eu ouvi você dizendo foi que Deus existe em todos os momentos ao mesmo tempo, o que para mim soa como esse tipo de visão de hipertempo que é uma possibilidade, você pode entender isso; mas como eu digo, acho que é extravagante e, no fim, apenas coloca o problema lá em cima. Realmente não resolve.[5]
Aluno: Eu acho que realmente se resume a qual é a verdadeira definição de tempo?
Dr. Craig: Bem, não necessariamente. Eu vou dizer algo sobre isso. Mas não acho que Bob e Brad pensem diferente em suas definições de tempo. Eles apenas concebem o relacionamento de Deus com o tempo de maneira diferente. Eu não acho que seja uma questão de definição aqui. É apenas que uma pessoa pensa em Deus como estando no tempo como nós. Ele está persistindo de um momento para o outro. A outra pessoa pensa, não, Deus está completamente fora dessas dimensões. Ele não está no tempo.
Aluno: Você poderia comentar sobre o relacionamento de Deus com o tempo e sua capacidade de responder à oração?
Dr. Craig: Acho que isso entra na questão da onisciência divina e de sua presciência do futuro. Algumas pessoas argumentaram que Deus deve ser atemporal, porque esta é a única maneira pela qual você pode explicar seu conhecimento do futuro, dada a liberdade e indeterminação humanas. Ele está fora do tempo e todo o tempo está espalhado diante dele. É assim que ele conhece o futuro, e é assim que ele pode responder às suas orações antes que você as faça, porque ele tem um conhecimento prévio do futuro. Eu não acho que seja um bom argumento. Quando chegarmos à onisciência e falarmos sobre presciência divina, tentarei dar conta de como Deus pode prever o futuro sem ser atemporal. Mas você está certo ao chamar nossa atenção para o fato de que algumas pessoas disseram que é por isso que acreditam que Deus é atemporal, porque isso explica como Deus pode conhecer um futuro contingente e também pode responder às orações antes de serem feitas.
Aluno: Em termos da eternidade de Deus, é sábio afirmar que Deus existe na eternidade agora?
Dr. Craig: Essa é uma expressão muito comum, não é? Para aqueles que pensam que Deus é atemporal, que Deus existe no eterno agora. Eu acho que precisamos entender que isso é metafórico. Isso não significa que haja um tempo em que Deus existe e esse tempo é composto de apenas um instante. Mas é como um instante, como eu disse, na visão atemporal, a eternidade é como um ponto geometricamente. Nesse sentido, é como o presente, que também é como um ponto geometricamente. Nesse sentido, as pessoas falam do eterno de Deus agora, no sentido de que é uma analogia a um único instante temporal. Desde que entendamos a metáfora e a analogia, acho que é inquestionável. Mas não devemos pensar que existe literalmente um tipo de tempo em que Deus existe que é um agora, mas é como o agora. É como o presente temporal, pois seria um ponto único.
Aluno: Uma linha possui pontos infinitos, e um plano possui linhas infinitas, e um espaço possui planos infinitos. Portanto, se considerarmos o tempo como agente de mudanças, ele terá um espaço infinito. Se tirarmos fotos de um espaço e o tempo for apenas um infinito desses espaços, não podemos, nesse tipo de expansão dimensional, pensar em Deus em uma dimensão superior a do tempo. Portanto, ele tem um tempo infinito e, no entanto, ele é uma dimensão acima.
Dr. Craig: É uma boa pergunta. Podemos imaginar geometricamente nosso espaço-tempo como um cilindro no qual o tempo será a dimensão vertical e, em seguida, as duas dimensões horizontais representarão nosso espaço tridimensional. Suprimimos uma das três dimensões do espaço porque, sendo criaturas tridimensionais, não podemos desenhar um cilindro quadridimensional. Então, suprimimos uma das dimensões do espaço e deixamos que essa seja o tempo. Então usamos a analogia de um disco, e esse disco seria um espaço tridimensional. Poderíamos imaginar que esse cilindro continua para sempre e existiu para sempre no passado, de modo que o tempo seria infinito e você teria essas seções espaciais como se fossem do espaço à medida que o tempo passa.[6] Acho que o que você está sugerindo é que talvez esse cilindro esteja incorporado em uma dimensão superior na qual Deus existe. Então Deus está aqui, por assim dizer, e que esse espaço-tempo - essa coisa quadridimensional - existe nesta realidade dimensional mais elevada, na qual Deus existe. Existem alguns teólogos que defendem essa visão. Hugh Ross, por exemplo, defende isso. Ou pelo menos ele diz que defende. Quando você o pressiona e aponta alguns dos problemas com esse ponto de vista, ele se retira rapidamente e diz que isso é apenas uma metáfora: "Eu não quero dizer literalmente que Deus está em uma dimensão superior; é apenas uma maneira metafórica de falar de um Deus atemporal". Eu acho que seria melhor ver isso como um modelo ou ilustração de um Deus atemporal que simplesmente não existe no espaço-tempo quadridimensional. Ele apenas transcende o tempo. Não devemos pensar nisso como incorporado em alguma dimensão superior, mas que Deus é apenas atemporal. Ele é apenas atemporal. Mas você está certo ao chamar nossa atenção para essa alternativa.
Aluno: Quando você tem o gráfico bidimensional do hipertempo versus o tempo atual, e agora esse gráfico, você não abre a porta para uma explicação multiversa do universo? Isso causa um problema?
Dr. Craig: Não vejo como isso abre a porta para isso. Parece-me que é bem possível dizer que Deus criou outros espaços-tempos além do nosso. Isso parece ser legítimo. Mas não acho que isso esteja implícito ou seja dependente disso. Há apenas uma pergunta independente de que Deus pode ter criado outros espaços-tempos além do nosso.
Aluno: É possível que um dos outros espaços-tempos que ele criou além do nosso fosse o que os anjos habitavam?
Dr. Craig: Bem, a dificuldade seria que, se você colocar esses anjos em algum outro espaço-tempo, é difícil ver como eles teriam alguma interação conosco, porque estão em um espaço-tempo diferente. Então, se queremos dizer que os anjos estão envolvidos em nossa história, espaço e tempo, precisamos mantê-los aqui, em vez de levá-los para outro lugar onde não possam ter nenhum tipo de conexão causal conosco ou qualquer tipo de relação temporal.
FIM DA DISCUSSÃO
Deixe-me concluir dizendo que a questão do relacionamento de Deus com o tempo é extremamente difícil que intriga os teólogos há séculos. O que farei na próxima aula é oferecer o que eu considero o melhor argumento para Deus ser atemporal, e então eu vou oferecer o que eu acho que são os melhores argumentos para Deus ser temporal. Em seguida, exploraremos como isso deve ser avaliado e qual é o melhor entendimento para o relacionamento de Deus com o tempo. Essa será a próxima vez em que eu vou me encontrar com vocês.[7]
Temos falado sobre os atributos infinitos de Deus. Concluímos na semana passada o nosso estudo da aseidade divina. Hoje, queremos nos voltar para um novo atributo de Deus, ou seja, a eternidade de Deus. Iremos examinar primeiro alguns dados das Escrituras referentes à eternidade de Deus.
Primeiro, as Escrituras ensinam que Deus existe sem começo e fim. Salmos 90:1-4:
Senhor, tu tens sido o nosso refúgio de geração em geração. Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus.
Deus existe sem princípio e sem fim.
Segundo, as Escrituras indicam que a eternidade de Deus contrasta com a transitoriedade do homem. Salmos 102: 11-12; 25-27:
Meus dias são como uma sombra que declina, e como a erva me vou secando. Mas tu, SENHOR, permanecerás para sempre, a tua memória de geração em geração [...]. Desde a antiguidade fundaste a terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles envelhecerão como um vestido. Como roupas os mudarás, e ficarão mudados; porém, tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim.
Aqui você tem uma comparação embelezada entre a eternidade de Deus, sem princípio e sem fim, e a criação que Deus fez, que é temporal e transitória.
Salmos 90:5-6: "Tu os levas como uma corrente de água; são como sono; de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca".
Aqui a vida humana é comparada a um sono, que é evanescente em sua existência. Ele desaparece no momento em que você acorda. Ou a grama que de manhã é fresca e florescente, mas depois é queimada à tarde. Da mesma forma, nossa existência é muito transitória quando comparada à existência eterna de Deus.
Também podemos comparar aqui Jó 36:26, que diz: “Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos; o número de seus anos não se pode esquadrinhar”. Compare isso com Isaías 41: 4: “Quem operou e fez isso, chamando as gerações desde o princípio? Eu, o Senhor, o primeiro, e com os últimos eu mesmo". Aqui Deus é o eterno que estava lá no começo e no final da história humana. Ele é quem dura para sempre, enquanto a existência humana é passageira e transitória.
Finalmente, de uma maneira difícil de expressar, as Escrituras parecem ensinar que Deus existia antes do tempo começar. Embora existam várias passagens como essa, vejamos apenas uma delas. Judas 1:25, o último livro antes do livro de Apocalipse no Novo Testamento.[1] Aqui o autor diz: “Ao único Deus sábio, nosso Salvador, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória, majestade, domínio e autoridade, antes de todos os tempos, agora e sempre. Amém". Que expressão interessante por parte do autor. Ele dá glória a Deus antes de todos os tempos (antes do início dos tempos), agora (atualmente) e para sempre no futuro. Isso sugere que o próprio tempo teve um começo e que Deus, de alguma maneira difícil de expressar, existia "antes do início do tempo".
Vamos falar sobre uma reflexão sistemática sobre esses dados bíblicos. A Bíblia ensina que Deus é eterno como vimos, mas não deixa claro como Deus é eterno. O que quero dizer com isso? Existem duas maneiras pelas quais algo pode existir sem começo e sem fim. Uma seria existir ao longo do tempo infinito. Se imaginarmos o tempo como uma linha que não tem fim, mas continua para sempre e que não tem começo, algo pode ser sem começo e sem fim, existindo o tempo todo, sem começo e sem fim. Essa seria uma maneira de ser eterno, ser sem começo e sem fim ao longo do tempo infinito.
A outra maneira seria existir completamente fora do tempo. Se dissermos que Deus não está na linha do tempo em lugar algum, então ele não tem nenhuma localização e nenhuma duração temporal. Ele seria sem começo e sem fim, simplesmente porque os conceitos de começo e fim não se aplicariam a um ser que não está no tempo. Um ser que transcende o tempo e que não está na linha do tempo não teria começo nem fim, porque ele não persiste durante o tempo.
Como eu disse, os dados bíblicos deixam em aberto uma questão sobre se Deus é eterno no sentido de ser onitemporal ao longo do tempo infinito ou simplesmente ser atemporal. Portanto, essa não é uma questão que possa ser decidida biblicamente; mas, essa é uma questão teológica filosófica. É aqui que o exegeta bíblico para, então, ele tem que entregar a tarefa ao teólogo filosófico se quisermos ir mais longe.
A ideia central da eternidade que esses dois conceitos englobam seria a de que existir eternamente é existir sem começo ou fim, ou existir permanentemente. Essa é a ideia central da eternidade. Mas existem pelo menos dois modos de existência que poderiam se encaixar nessa definição: um modo onitemporal ao longo do tempo infinito, ou um modo atemporal de existência. A Bíblia não resolve essa questão.
COMEÇO DA DISCUSSÃO
Aluno: Quando as Escrituras que você citou de Judas disse que Deus existia antes do espaço-tempo (em outras palavras, ele existia antes; esse é o tipo de afirmação de que o tempo começou em algum momento). Então ele poderia ter existido antes que houvesse algo como esse reino do espaço-tempo, e então estar nele quando ele o criou.
Dr. Craig: Sim. A dificuldade é como vamos entender isso? Como vamos analisá-lo? Porque se for tido pelo valor nominal, pareceria uma contradição dizer que Deus existia antes do tempo porque "antes" é uma relação temporal, certo?[2] Portanto, existir antes do início dos tempos em sentido literal seria uma contradição em termos. Obviamente, a Bíblia não é um livro de filosofia e, portanto, precisamos tentar entender o que Judas está tentando dizer. Isso envolverá algum tipo de reflexão filosófica para tentar fazer sentido. É isso que vamos tentar fazer.
Aluno: Há alguém que teve uma ideia com a qual eu já havia concordado: Deus deve ter seu próprio tempo. Vamos simplificar e dizer o seu próprio tempo. Se você define o tempo como aquilo que ocorre entre eventos não simultâneos, obviamente houve tempo antes da criação do espaço-tempo, porque se Deus tem pensamentos seguidos, esses são dois eventos não simultâneos. Algo tinha que preencher entre eles. Se você quiser chamar de outra coisa, tudo bem, mas parece-me que Deus precisa desse tempo antes de criar o universo. Você poderia dizer que o tempo e a distância são relativos e tal. Tudo bem. Esse seria outro tempo no meu conceito. Mas antes de criar esse tempo, ele teria que ter feito isso. Em Judas 1:25, que você citou, na NVI diz "antes de todos os tempos". Brad acabou de verificar. O grego é aión , 165 de Strong. O significado grego disso é o mesmo que o significado de "épico", como os anos 1920. Um tempo que tinha uma certa característica, mas talvez não um começo e um fim definidos, mas uma era. Geralmente, quando Cristo no Novo Testamento diz: "Eis que estou com você até o fim dos tempos", é aí que está; ou seja, quando ele volta para nós. Em vez de dizer esse versículo, não creio que seja um argumento forte de que Deus precedeu o tempo, mas que ele precedeu todas as eras ou todas as coisas que ele criou no universo.
Dr. Craig: Certo. Essa não era uma pergunta de compreensão. O que você começou a fazer é entrar em uma reflexão sistemática sobre isso. Eu acho que muitos dos seus comentários foram muito úteis. Eu diria que, com relação a aión, o uso da palavra “tempos” pode significar coisas diferentes em contextos diferentes. Se você observar como isso é usado em relação a Deus e ao tempo, há vários versículos que parecem sugerir que, antes do início de qualquer tempo, Deus existia sozinho e que depois ele os criou. Pode ser que você queira dizer que ele existiu em um tempo próprio que é diferente do tipo de espaço-tempo físico que, penso eu, a outra pessoa estava falando. Guardaremos esse pensamento por enquanto e voltaremos a ele.
Aluno: A linha que representa o tempo, sempre tem um valor? Hoje, tempo para mim significa segundos e minutos. É isso o que representa? O tempo infinito sempre tem um valor?
Dr. Craig: Se por valor você quer dizer que eles podem ser intervalos especificados, estamos falando sobre o tipo de tempo que terá unidades métricas como dias, anos, segundos e assim por diante. Então, sim, é disso que estamos falando. É isso que você está perguntando?
Aluno: Sim. Estou realmente muito confuso sobre isso. Então o tempo nem sempre pode existir porque, antes da criação do universo, como o tempo era mensurado?
Dr. Craig: Certo, estamos entrando exatamente no que chamo de perguntas sistemáticas. O que o última pessoa que perguntou quer dizer é que Deus tem um tempo próprio e que, mesmo que este período do nosso universo tenha tido um começo, digamos no Big Bang por uma questão de simplicidade, no entanto, talvez Deus tenha preexistido o início do tempo físico em uma espécie de tempo metafísico em que ele existe. Essa é uma pergunta que merece ser explorada.
Aluno: Não é um pouco mais preciso definir o tempo não como uma linha reta, mas como um círculo?
Dr. Craig: Eu não acho que isso seria certo do ponto de vista cristão, pelo menos porque, do ponto de vista cristão, o tempo ou a história não são circulares.[3] Muito pelo contrário. Ele tem um objetivo, ou um telos, que é para ser alcançado no Reino de Deus, o lugar de uma vida após a morte, céu e inferno, e assim por diante. Portanto, existe uma criação e, depois, um fim para o qual o mundo está caminhando e se movendo. O conceito cristão de tempo é linear. Não é circular. A visão de que o tempo é circular seria uma visão que estaria mais associada ao pensamento cíclico da Grécia antiga de que tudo se repetiria, que não há objetivo ou destino para o qual o universo esteja caminhando, mas tudo simplesmente se repete. Mas mesmo se isso fosse verdade na história da humanidade, parece-me que isso resultaria em eventos se repetindo, mas ainda haveria um tempo linear. Para o tempo ser literalmente circular, significaria que algum evento E está antes e depois de si mesmo, o que parece absurdo. Como E poderia estar antes e depois de si? Se o tempo é circular, essa seria a implicação que parece loucura. Se E já ocorreu, não poderá estar diante de si. Penso que a ideia de tempo cíclico ou circular é realmente absurda. O tempo (se existir) será linear, mesmo que os eventos no tempo se repitam.
Aluno: Eu entendo o que você está dizendo. Acho que o que estou dizendo e não expressei muito bem é que a eternidade seria melhor definida como um círculo. Não tem começo; não tem fim. Não importa o ponto do círculo escolhido, você pode ir para a esquerda, direita, para cima ou para baixo. Enquanto o tempo, se você o considera um evento criado, tem um começo, tem um fim e é definido.
Dr. Craig: Eu tenho dificuldade, novamente, com essa ideia de circular, porque isso parece significar que as coisas são antes e depois de si mesmas. Se você quiser escolher uma geometria para a existência atemporal de Deus, acho que um único ponto seria uma melhor representação geométrica da eternidade. Não há antes; não há depois; não há mais cedo ou mais tarde. Há apenas esse estado único. Então, eu diria que, se você deseja representar a eternidade geometricamente, então, em vez de qualquer tipo de linha, seria apenas um ponto.
Aluno: Eu sempre penso no tempo como algo que usamos como substituto para medir a mudança. Se Deus é imutável, o tempo de Deus é irrelevante, porque não há mudança. Se Deus tem pensamentos seguidos, ele não muda com seus pensamentos. Todos os seus pensamentos são simultâneos.
Dr. Craig: Certo, veja que essa é uma visão muito diferente da de Bob. Isso é bom porque temos aqui um exemplo de duas pessoas, ambas cristãs, que têm concepções diferentes da eternidade divina. Uma vê Deus pensando de uma maneira linear, um pensamento após o outro que, como Bob diz, obviamente estabelece uma relação antes e depois. Enquanto você diz que não, Deus não pensa sequencialmente assim. Todos os seus pensamentos estão neste único, em certo sentido, ponto simultâneo. Isso ilustra exatamente essas duas concepções diferentes da eternidade. Muitos teólogos concordariam com você que um Deus imutável é simplesmente atemporal. Outros, especialmente os teólogos mais contemporâneos, concordariam com Bob, que Deus está no tempo e passa por uma sequência temporal. Como eu disse, essa é uma questão sobre a qual os cristãos ortodoxos discordam. Mas pelo menos essas diferenças estão nos ajudando a ver com muita clareza as visões contrastantes.[4]
Aluno: Eu me referiria a Romanos 4:17, um dos meus versículos favoritos, Deus dá vida aos mortos e chama à existência coisas que não existem, como se existissem. Eu vejo Deus vivendo no infinito agora. Ele não tem uma sequência temporal de eventos, mas pode chamar à existência as coisas que não existem como se existissem.
Dr. Craig: Esse versículo ao qual você está se referindo, onde diz que Deus cria as coisas que não existem, provavelmente é uma referência à sua criação do mundo do nada. Esta é uma expressão da doutrina da criação ex nihilo, do nada. Não vejo que isso decida a questão sobre a qual estamos falando aqui, se a existência de Deus é atemporal ou temporal. Qualquer um desses pontos de vista verá Deus criando o universo do nada. O universo não tem uma causa material. Deus criou toda a matéria e energia, bem como tudo o que é feito de matéria e energia, bem como os reinos angélicos. Então, eu acho que essa é uma questão que não poderemos decidir biblicamente citando textos como provas. Essa será uma questão teológica filosófica à qual teremos que dar argumentos.
Aluno: Existe uma visão alternativa? Você disse que Deus está fora do tempo, ou que ele está em um tempo temporal, que diz que Deus está em todos os momentos do nosso tempo temporal ao mesmo tempo. Por fim, ele está em nosso tempo temporal, mas está no mesmo lugar porque pode ver o passado, o presente e o futuro.
Dr. Craig: É muito difícil entender o que você acabou de dizer, porque você disse que Deus está em todos os momentos ao mesmo tempo. Bem, agora, que horas são? Ele está as 3 horas o tempo todo? Isso não faria sentido. Como ele poderia estar em todos os momentos, se está naquele momento? Eu acho que a única maneira de entender o que você disse seria se tivéssemos duas dimensões de tempo ou uma espécie de hipertempo. [desenha um diagrama no quadro branco ilustrando o hipertempo]
Você pode imaginar que há outra dimensão de tempo. O que você poderia dizer é que em todos os momentos do hipertempo, Deus existe em todos os momentos do nosso tempo. Isso evitaria a contradição. Você está dizendo que Deus existe em todo momento no mesmo momento. Mas você está falando sobre dois tempos diferentes. Você está falando sobre o tempo comum e o hipertempo. Acho que a dificuldade é que não é apenas extravagante postular essas dimensões do hipertempo para as quais não temos evidências (não há razão para pensar que esses hipertensos existam), mas, em certo sentido, apenas coloca o problema no andar de cima, porque agora você tem um Deus no hipertempo, que existe apenas em momentos seguidos no hipertempo. Portanto, é o mesmo problema novamente.
Aluno: Outra maneira de dizer isso é: ele é onitemporal?
Dr. Craig: Ser onitemporal é apenas ser eterno ao longo do tempo infinito. Essa é uma das visões. Essa é uma das duas visões sobre as quais estamos falando.
Aluno: Qual dessas visões seria então?
Dr. Craig: Essa seria a visão em que eu originalmente desenhei uma linha e disse que Deus existe em todos os pontos da linha do tempo. Sem começo e sem fim. Mas o que eu ouvi você dizendo foi que Deus existe em todos os momentos ao mesmo tempo, o que para mim soa como esse tipo de visão de hipertempo que é uma possibilidade, você pode entender isso; mas como eu digo, acho que é extravagante e, no fim, apenas coloca o problema lá em cima. Realmente não resolve.[5]
Aluno: Eu acho que realmente se resume a qual é a verdadeira definição de tempo?
Dr. Craig: Bem, não necessariamente. Eu vou dizer algo sobre isso. Mas não acho que Bob e Brad pensem diferente em suas definições de tempo. Eles apenas concebem o relacionamento de Deus com o tempo de maneira diferente. Eu não acho que seja uma questão de definição aqui. É apenas que uma pessoa pensa em Deus como estando no tempo como nós. Ele está persistindo de um momento para o outro. A outra pessoa pensa, não, Deus está completamente fora dessas dimensões. Ele não está no tempo.
Aluno: Você poderia comentar sobre o relacionamento de Deus com o tempo e sua capacidade de responder à oração?
Dr. Craig: Acho que isso entra na questão da onisciência divina e de sua presciência do futuro. Algumas pessoas argumentaram que Deus deve ser atemporal, porque esta é a única maneira pela qual você pode explicar seu conhecimento do futuro, dada a liberdade e indeterminação humanas. Ele está fora do tempo e todo o tempo está espalhado diante dele. É assim que ele conhece o futuro, e é assim que ele pode responder às suas orações antes que você as faça, porque ele tem um conhecimento prévio do futuro. Eu não acho que seja um bom argumento. Quando chegarmos à onisciência e falarmos sobre presciência divina, tentarei dar conta de como Deus pode prever o futuro sem ser atemporal. Mas você está certo ao chamar nossa atenção para o fato de que algumas pessoas disseram que é por isso que acreditam que Deus é atemporal, porque isso explica como Deus pode conhecer um futuro contingente e também pode responder às orações antes de serem feitas.
Aluno: Em termos da eternidade de Deus, é sábio afirmar que Deus existe na eternidade agora?
Dr. Craig: Essa é uma expressão muito comum, não é? Para aqueles que pensam que Deus é atemporal, que Deus existe no eterno agora. Eu acho que precisamos entender que isso é metafórico. Isso não significa que haja um tempo em que Deus existe e esse tempo é composto de apenas um instante. Mas é como um instante, como eu disse, na visão atemporal, a eternidade é como um ponto geometricamente. Nesse sentido, é como o presente, que também é como um ponto geometricamente. Nesse sentido, as pessoas falam do eterno de Deus agora, no sentido de que é uma analogia a um único instante temporal. Desde que entendamos a metáfora e a analogia, acho que é inquestionável. Mas não devemos pensar que existe literalmente um tipo de tempo em que Deus existe que é um agora, mas é como o agora. É como o presente temporal, pois seria um ponto único.
Aluno: Uma linha possui pontos infinitos, e um plano possui linhas infinitas, e um espaço possui planos infinitos. Portanto, se considerarmos o tempo como agente de mudanças, ele terá um espaço infinito. Se tirarmos fotos de um espaço e o tempo for apenas um infinito desses espaços, não podemos, nesse tipo de expansão dimensional, pensar em Deus em uma dimensão superior a do tempo. Portanto, ele tem um tempo infinito e, no entanto, ele é uma dimensão acima.
Dr. Craig: É uma boa pergunta. Podemos imaginar geometricamente nosso espaço-tempo como um cilindro no qual o tempo será a dimensão vertical e, em seguida, as duas dimensões horizontais representarão nosso espaço tridimensional. Suprimimos uma das três dimensões do espaço porque, sendo criaturas tridimensionais, não podemos desenhar um cilindro quadridimensional. Então, suprimimos uma das dimensões do espaço e deixamos que essa seja o tempo. Então usamos a analogia de um disco, e esse disco seria um espaço tridimensional. Poderíamos imaginar que esse cilindro continua para sempre e existiu para sempre no passado, de modo que o tempo seria infinito e você teria essas seções espaciais como se fossem do espaço à medida que o tempo passa.[6] Acho que o que você está sugerindo é que talvez esse cilindro esteja incorporado em uma dimensão superior na qual Deus existe. Então Deus está aqui, por assim dizer, e que esse espaço-tempo - essa coisa quadridimensional - existe nesta realidade dimensional mais elevada, na qual Deus existe. Existem alguns teólogos que defendem essa visão. Hugh Ross, por exemplo, defende isso. Ou pelo menos ele diz que defende. Quando você o pressiona e aponta alguns dos problemas com esse ponto de vista, ele se retira rapidamente e diz que isso é apenas uma metáfora: "Eu não quero dizer literalmente que Deus está em uma dimensão superior; é apenas uma maneira metafórica de falar de um Deus atemporal". Eu acho que seria melhor ver isso como um modelo ou ilustração de um Deus atemporal que simplesmente não existe no espaço-tempo quadridimensional. Ele apenas transcende o tempo. Não devemos pensar nisso como incorporado em alguma dimensão superior, mas que Deus é apenas atemporal. Ele é apenas atemporal. Mas você está certo ao chamar nossa atenção para essa alternativa.
Aluno: Quando você tem o gráfico bidimensional do hipertempo versus o tempo atual, e agora esse gráfico, você não abre a porta para uma explicação multiversa do universo? Isso causa um problema?
Dr. Craig: Não vejo como isso abre a porta para isso. Parece-me que é bem possível dizer que Deus criou outros espaços-tempos além do nosso. Isso parece ser legítimo. Mas não acho que isso esteja implícito ou seja dependente disso. Há apenas uma pergunta independente de que Deus pode ter criado outros espaços-tempos além do nosso.
Aluno: É possível que um dos outros espaços-tempos que ele criou além do nosso fosse o que os anjos habitavam?
Dr. Craig: Bem, a dificuldade seria que, se você colocar esses anjos em algum outro espaço-tempo, é difícil ver como eles teriam alguma interação conosco, porque estão em um espaço-tempo diferente. Então, se queremos dizer que os anjos estão envolvidos em nossa história, espaço e tempo, precisamos mantê-los aqui, em vez de levá-los para outro lugar onde não possam ter nenhum tipo de conexão causal conosco ou qualquer tipo de relação temporal.
FIM DA DISCUSSÃO
Deixe-me concluir dizendo que a questão do relacionamento de Deus com o tempo é extremamente difícil que intriga os teólogos há séculos. O que farei na próxima aula é oferecer o que eu considero o melhor argumento para Deus ser atemporal, e então eu vou oferecer o que eu acho que são os melhores argumentos para Deus ser temporal. Em seguida, exploraremos como isso deve ser avaliado e qual é o melhor entendimento para o relacionamento de Deus com o tempo. Essa será a próxima vez em que eu vou me encontrar com vocês.[7]