[1] Jamais vi em nenhum lugar da Internet nem no YouTube caricatura do argumento cosmológico tão ridícula quanto a de Goldstein. Em comparação, ela faz os adolescentes que publicam na Internet se parecerem a palestrantes das Preleções Gifford.

Goldstein tomou algumas providências para dar cobertura a seus argumentos infantis. Para isso, alega que os 36 argumentos do apêndice foram formulados e elaborados por Cass Seltzer, o novo personagem ateu do romance, no seu livro campeão de vendas. Goldstein pode alegar, com alguma plausibilidade, que os argumentos do apêndice são a representação fiel dos argumentos ateus em voga: “Portanto, não me culpem!”. Além disso, a sobrecapa do livro dela proclama: “Em fundamentos puramente intelectuais, parece que os céticos têm tudo do seu lado. Porém, as pessoas se recusam a aceitar seus argumentos aparentemente irrefutáveis, preferindo adotar a fé em Deus como fonte de sentido, propósito e consolação”.

Uma olhada nos argumentos revela como essa postura é risível. Primeiramente, Goldstein os distorce e depois apresenta refutações aleijadas contra eles. Por exemplo, eis sua declaração acerca do argumento cosmológico:

1. Tudo que existe deve ter uma causa.

2. O universo deve ter uma causa (inferido de 1).

3. Nada pode ser a causa de si mesmo.

4. O universo não pode ser sua própria causa (inferido de 3).

5. Alguma coisa fora do universo deve tê-lo causado (inferido de 2 e 4).

6. Deus é a única coisa fora do universo.

7. Deus causou o universo (inferido de 5 e 6).

8. Deus existe.

O engraçado é que Goldstein prossegue apontando duas “brechas” nesse aglomerado de declarações disfarçado de argumento cosmológico. Ela sequer faz uma pausa para verificar que o conjunto não é só logicamente inválido, mas raciocina circularmente, uma vez que (8) resulta somente de (6), de modo que todas as demais premissas não passam de apelação. Essa falácia do espantalho nunca foi defendida por nenhum filósofo na história do pensamento.

Assim, que brechas Goldstein adivinha nesse argumento? É claro que você já sabe: “Quem causou Deus?”. O proponente do argumento cosmológico, afirma ela, só pode dizer que ou Deus não tem uma causa, o que contraria (1), ou que Deus é a causa de si mesmo, o que contradiz (3).

O problema dessa refutação é que nenhuma versão do argumento cosmológico encontrada nas obras de seus principais proponentes afirma a premissa (1) de Goldstein. Antes, a premissa apresentada nos argumentos deles seria algo assim:

1'. Tudo o que passa a existir tem uma causa,

ou

1''. Tudo o que existe tem explicação para a sua existência (na necessidade intrínseca à sua natureza ou em uma causa externa).

As versões do argumento cosmológico que adotam (1') defendem que tudo que vem a existir deve ter uma causa (algo não surge a partir do nada). Contudo, se algo existe desde a eternidade, obviamente nunca veio a existir e, portanto, não é necessária uma causa. Esta versão do argumento apresentará em seguida a premissa de que o universo passou a existir, algo que está visivelmente ausente na formulação de Goldstein.

Outras versões do argumento cosmológico que adotam (1'') defendem que tudo que vem a existir, até mesmo o universo eterno, deve ter uma explicação por que existe. Essa explicação pode ser uma dentre dois tipos: ou a coisa existe por necessidade intrínseca à sua natureza, pois é um ser metafisicamente necessário, ou tem uma causa externa, sendo, assim, um ser contingente. Esta versão do argumento apresentará em seguida a premissa de que o universo não existe por necessidade e, portanto, deve ter uma causa externa em um ser que existe por necessidade intrínseca à sua natureza e é a causa de tudo o que é contingente.

Goldstein apresenta a sua premissa (1) misturando as duas versões do argumento cosmológico. Ao emaranhar (1') com (1''), ela concebe uma premissa jamais defendida por qualquer proponente do argumento: “tudo o que existe” – tirado de (1'') – “tem uma causa” – tirado de (1').

Curiosamente, Goldstein não diz que o argumento cosmológico é falho por ter uma premissa falsa. Antes, o problema que ela vê é “explicar por que Deus tem de ser a única exceção” e não o próprio universo. Se tivesse reproduzido fielmente o argumento cosmológico, e não essa caricatura, ela saberia a resposta da questão. Os proponentes da primeira versão defendem que o universo passou a existir e, portanto, deve ter uma causa, ao passo que os da segunda versão defendem que o universo não existe por necessidade intrínseca à sua natureza; logo, só pode ser contingente. Essas afirmações são importantes e polêmicas, mas não poderão ser discutidas se o argumento for tão deturpado a ponto de essas premissas sequer aparecerem.

Em relação ao argumento 4, “o argumento do big bang”, Goldstein refere-se brevemente à evidência da cosmologia física a favor do início do universo. A “falha” que ela vê nesse argumento é: “Nem mesmo todos os cosmólogos concordam que o big bang seja uma singularidade [...] É possível que o big bang represente o surgimento legítimo de um novo universo a partir de outro previamente existente”. Isso é uma falha? Desde quando se exige consenso universal para que uma evidência física confirme uma hipótese? Além disso, a menção de singularidade não passa de uma tentativa de desviar o assunto, já que modelos de um universo com passado finito, como os de Stephen Hawking e James Hartle, poderiam caracterizar um começo não singular. Em 2003, Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin provaram que qualquer universo que está em média em estado de expansão cósmica não pode ter passado eterno, mas deve ter obrigatoriamente um início absoluto. O fato é que não existe modelo do universo defensável matemática e fisicamente que seja extrapolável para o passado infinito. Se Goldstein pensa o contrário, deixemos que ela nos apresente o modelo. Enfim, o que vale é: a física não lida com possibilidades. As possibilidades custam barato. O que queremos saber é para onde as evidências apontam.

A segunda falha que Goldstein descobre no argumento cosmológico é que a nossa melhor definição de causa é “uma relação que ocorre entre eventos ligados por leis da física”. “Aplicar tal conceito ao próprio universo é usar erroneamente a definição de causa, estendendo-a para um âmbito no qual não temos nenhuma ideia de como aplicá-la”. Nesse, Goldstein está confusa. A questão relevante não é a definição de “causa”; para descobri-la, procure a palavra num dicionário. (Com certeza, a definição de Goldstein não funcionará: por exemplo, simultaneidade é “uma relação que ocorre entre eventos ligados por leis da física”, mas, obviamente, “ser simultâneo a” não significa nem implica “ser causado por”.) O Dicionário Webster’s define “causa” como “pessoa ou coisa que, voluntária ou involuntariamente, atua como o agente que dá origem a um efeito ou resultado”. Não há nenhum problema com essa definição!

A questão relevante, mais exatamente, é se seremos capazes de fornecer uma análise filosófica da relação causal em termos mais primitivos ou básicos, ou se a causalidade é em si uma ideia fundamental. Por exemplo, alguns filósofos pensam em analisar a relação causal da seguinte maneira:

Para quaisquer entidades x e y, x é causa de y se, e somente se,

(i) Se x não existisse, y não existiria, e

(ii) Se y não existisse, x ainda existiria.

Se considerarmos que x seja Deus e y, o universo, então, segundo essa análise, Deus atende às condições para ser a causa do universo, uma vez que, se Deus não existisse, o universo não existiria; porém, se o universo não existisse, Deus ainda assim existiria. Portanto, ao contrário do que defende Goldstein, a causalidade é extensível para além do universo, e temos de fato uma ideia clara de como usá-la. Ora, não posso fingir que essa análise da causalidade seja adequada para todos os casos. A análise correta da causação é motivo de grande controvérsia entre os filósofos, e muitos diriam que esse é exatamente um conceito básico e irredutível. Mas observe que a adequação dessas análises será estabelecida conforme a melhor maneira que elas se engrenam com o nosso entendimento intuitivo pré-filosófico da relação causa–efeito. Não é necessário análise filosófica para reconhecer que coisas que passaram a existir têm causas. Muito mais poderia se dizer aqui de natureza técnica (por exemplo, por que pensar, como ela mesma diz, que a causação deve ser exclusivamente uma relação entre eventos, e por que os eventos devem estar obrigatoriamente ligados às leis da físicas?), mas vamos deixar isso para trás. Não é mais objetável dizer que Deus é a causa do universo, tanto quanto Tolstói é a causa de Guerra e Paz.

Por último, Goldstein comenta que o argumento cosmológico é expressão do nosso atordoamento diante da pergunta: por que existe algo em vez de nada? — ao que ela recomenda a réplica: “E se não existisse nada? Vocês ainda assim se queixariam!”. Acho que isso era para ser uma tirada esperta, porque, se não existisse nada, você não existiria para queixar-se. Mas o ponto não é exatamente esse? O nada não precisa nem pode ter uma explicação (não há nada para explicar nem para ser explicado!); o fato de que algo existe é fato positivo que reclama uma explicação. Não-teístas conscienciosos reconhecem o peso da questão. O filósofo naturalista Derek Parfit, por exemplo, devaneia: “Nenhuma questão é mais sublime do que esta: por que o universo existe? Por que existe algo em vez de nada?”.

É trágico que, no momento e na época em que uma genuína renascença da filosofia cristã está em pleno florescimento, seja esse o tipo de alimento encontrado no livro de Goldstein, servido ao público faminto.

"> PT
back
05 / 06

36 argumentos para a existência de Deus: Goldstein e o argumento cosmológico

Summary

Rebecca Goldstein's novel presents and refutes three dozen "arguments" for God's existence. The arguments, however, are straw men of her own construction, bearing only passing resemblance to the classical arguments. Moreover, at least in the case of the cosmological argument, the straw man appears to be winning! Her criticisms are easily defeated, making her critique a nice exercise for beginners in apologetics. Originalmente publicado como: “36 Arguments for the Existence of God: Goldstein on the Cosmological Argument”. Christian Research Journal 34/01 (2010), pp. 52-53. Texto reproduzido na íntegra em /36-arguments-for-the-existence-of-god.

Devo confessar que não tenho paciência para ler livros desse tipo nem os considero interessantes. Como filósofo, quero premissas e argumentos fundamentais sem que tenha de peneirar para separar o trigo filosófico da palha da narrativa ficcional popular. Felizmente, o livro inclui um apêndice que rotula claramente os 36 argumentos teístas e apresenta suas premissas e argumentos fundamentais. Por isso, pude ir direto ao assunto para ver o que Rebecca Goldstein tem a dizer sobre meu argumento favorito: o argumento cosmológico (o número 1 da sua lista). Fiquei horrorizado.

Vejam só, eu tinha acabado de escrever um artigo em nível popular a respeito de “The World’s Ten Worst Objections to the Kalam Cosmological Argument” [As dez piores objeções do mundo contra o argumento cosmológico kalam] colhidas do YouTube e da Internet. Eu deveria ter lido primeiro o livro de Goldstein. [1] Jamais vi em nenhum lugar da Internet nem no YouTube caricatura do argumento cosmológico tão ridícula quanto a de Goldstein. Em comparação, ela faz os adolescentes que publicam na Internet se parecerem a palestrantes das Preleções Gifford.

Goldstein tomou algumas providências para dar cobertura a seus argumentos infantis. Para isso, alega que os 36 argumentos do apêndice foram formulados e elaborados por Cass Seltzer, o novo personagem ateu do romance, no seu livro campeão de vendas. Goldstein pode alegar, com alguma plausibilidade, que os argumentos do apêndice são a representação fiel dos argumentos ateus em voga: “Portanto, não me culpem!”. Além disso, a sobrecapa do livro dela proclama: “Em fundamentos puramente intelectuais, parece que os céticos têm tudo do seu lado. Porém, as pessoas se recusam a aceitar seus argumentos aparentemente irrefutáveis, preferindo adotar a fé em Deus como fonte de sentido, propósito e consolação”.

Uma olhada nos argumentos revela como essa postura é risível. Primeiramente, Goldstein os distorce e depois apresenta refutações aleijadas contra eles. Por exemplo, eis sua declaração acerca do argumento cosmológico:

1. Tudo que existe deve ter uma causa.

2. O universo deve ter uma causa (inferido de 1).

3. Nada pode ser a causa de si mesmo.

4. O universo não pode ser sua própria causa (inferido de 3).

5. Alguma coisa fora do universo deve tê-lo causado (inferido de 2 e 4).

6. Deus é a única coisa fora do universo.

7. Deus causou o universo (inferido de 5 e 6).

8. Deus existe.

O engraçado é que Goldstein prossegue apontando duas “brechas” nesse aglomerado de declarações disfarçado de argumento cosmológico. Ela sequer faz uma pausa para verificar que o conjunto não é só logicamente inválido, mas raciocina circularmente, uma vez que (8) resulta somente de (6), de modo que todas as demais premissas não passam de apelação. Essa falácia do espantalho nunca foi defendida por nenhum filósofo na história do pensamento.

Assim, que brechas Goldstein adivinha nesse argumento? É claro que você já sabe: “Quem causou Deus?”. O proponente do argumento cosmológico, afirma ela, só pode dizer que ou Deus não tem uma causa, o que contraria (1), ou que Deus é a causa de si mesmo, o que contradiz (3).

O problema dessa refutação é que nenhuma versão do argumento cosmológico encontrada nas obras de seus principais proponentes afirma a premissa (1) de Goldstein. Antes, a premissa apresentada nos argumentos deles seria algo assim:

1'. Tudo o que passa a existir tem uma causa,

ou

1''. Tudo o que existe tem explicação para a sua existência (na necessidade intrínseca à sua natureza ou em uma causa externa).

As versões do argumento cosmológico que adotam (1') defendem que tudo que vem a existir deve ter uma causa (algo não surge a partir do nada). Contudo, se algo existe desde a eternidade, obviamente nunca veio a existir e, portanto, não é necessária uma causa. Esta versão do argumento apresentará em seguida a premissa de que o universo passou a existir, algo que está visivelmente ausente na formulação de Goldstein.

Outras versões do argumento cosmológico que adotam (1'') defendem que tudo que vem a existir, até mesmo o universo eterno, deve ter uma explicação por que existe. Essa explicação pode ser uma dentre dois tipos: ou a coisa existe por necessidade intrínseca à sua natureza, pois é um ser metafisicamente necessário, ou tem uma causa externa, sendo, assim, um ser contingente. Esta versão do argumento apresentará em seguida a premissa de que o universo não existe por necessidade e, portanto, deve ter uma causa externa em um ser que existe por necessidade intrínseca à sua natureza e é a causa de tudo o que é contingente.

Goldstein apresenta a sua premissa (1) misturando as duas versões do argumento cosmológico. Ao emaranhar (1') com (1''), ela concebe uma premissa jamais defendida por qualquer proponente do argumento: “tudo o que existe” – tirado de (1'') – “tem uma causa” – tirado de (1').

Curiosamente, Goldstein não diz que o argumento cosmológico é falho por ter uma premissa falsa. Antes, o problema que ela vê é “explicar por que Deus tem de ser a única exceção” e não o próprio universo. Se tivesse reproduzido fielmente o argumento cosmológico, e não essa caricatura, ela saberia a resposta da questão. Os proponentes da primeira versão defendem que o universo passou a existir e, portanto, deve ter uma causa, ao passo que os da segunda versão defendem que o universo não existe por necessidade intrínseca à sua natureza; logo, só pode ser contingente. Essas afirmações são importantes e polêmicas, mas não poderão ser discutidas se o argumento for tão deturpado a ponto de essas premissas sequer aparecerem.

Em relação ao argumento 4, “o argumento do big bang”, Goldstein refere-se brevemente à evidência da cosmologia física a favor do início do universo. A “falha” que ela vê nesse argumento é: “Nem mesmo todos os cosmólogos concordam que o big bang seja uma singularidade [...] É possível que o big bang represente o surgimento legítimo de um novo universo a partir de outro previamente existente”. Isso é uma falha? Desde quando se exige consenso universal para que uma evidência física confirme uma hipótese? Além disso, a menção de singularidade não passa de uma tentativa de desviar o assunto, já que modelos de um universo com passado finito, como os de Stephen Hawking e James Hartle, poderiam caracterizar um começo não singular. Em 2003, Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin provaram que qualquer universo que está em média em estado de expansão cósmica não pode ter passado eterno, mas deve ter obrigatoriamente um início absoluto. O fato é que não existe modelo do universo defensável matemática e fisicamente que seja extrapolável para o passado infinito. Se Goldstein pensa o contrário, deixemos que ela nos apresente o modelo. Enfim, o que vale é: a física não lida com possibilidades. As possibilidades custam barato. O que queremos saber é para onde as evidências apontam.

A segunda falha que Goldstein descobre no argumento cosmológico é que a nossa melhor definição de causa é “uma relação que ocorre entre eventos ligados por leis da física”. “Aplicar tal conceito ao próprio universo é usar erroneamente a definição de causa, estendendo-a para um âmbito no qual não temos nenhuma ideia de como aplicá-la”. Nesse, Goldstein está confusa. A questão relevante não é a definição de “causa”; para descobri-la, procure a palavra num dicionário. (Com certeza, a definição de Goldstein não funcionará: por exemplo, simultaneidade é “uma relação que ocorre entre eventos ligados por leis da física”, mas, obviamente, “ser simultâneo a” não significa nem implica “ser causado por”.) O Dicionário Webster’s define “causa” como “pessoa ou coisa que, voluntária ou involuntariamente, atua como o agente que dá origem a um efeito ou resultado”. Não há nenhum problema com essa definição!

A questão relevante, mais exatamente, é se seremos capazes de fornecer uma análise filosófica da relação causal em termos mais primitivos ou básicos, ou se a causalidade é em si uma ideia fundamental. Por exemplo, alguns filósofos pensam em analisar a relação causal da seguinte maneira:

Para quaisquer entidades x e y, x é causa de y se, e somente se,

(i) Se x não existisse, y não existiria, e

(ii) Se y não existisse, x ainda existiria.

Se considerarmos que x seja Deus e y, o universo, então, segundo essa análise, Deus atende às condições para ser a causa do universo, uma vez que, se Deus não existisse, o universo não existiria; porém, se o universo não existisse, Deus ainda assim existiria. Portanto, ao contrário do que defende Goldstein, a causalidade é extensível para além do universo, e temos de fato uma ideia clara de como usá-la. Ora, não posso fingir que essa análise da causalidade seja adequada para todos os casos. A análise correta da causação é motivo de grande controvérsia entre os filósofos, e muitos diriam que esse é exatamente um conceito básico e irredutível. Mas observe que a adequação dessas análises será estabelecida conforme a melhor maneira que elas se engrenam com o nosso entendimento intuitivo pré-filosófico da relação causa–efeito. Não é necessário análise filosófica para reconhecer que coisas que passaram a existir têm causas. Muito mais poderia se dizer aqui de natureza técnica (por exemplo, por que pensar, como ela mesma diz, que a causação deve ser exclusivamente uma relação entre eventos, e por que os eventos devem estar obrigatoriamente ligados às leis da físicas?), mas vamos deixar isso para trás. Não é mais objetável dizer que Deus é a causa do universo, tanto quanto Tolstói é a causa de Guerra e Paz.

Por último, Goldstein comenta que o argumento cosmológico é expressão do nosso atordoamento diante da pergunta: por que existe algo em vez de nada? — ao que ela recomenda a réplica: “E se não existisse nada? Vocês ainda assim se queixariam!”. Acho que isso era para ser uma tirada esperta, porque, se não existisse nada, você não existiria para queixar-se. Mas o ponto não é exatamente esse? O nada não precisa nem pode ter uma explicação (não há nada para explicar nem para ser explicado!); o fato de que algo existe é fato positivo que reclama uma explicação. Não-teístas conscienciosos reconhecem o peso da questão. O filósofo naturalista Derek Parfit, por exemplo, devaneia: “Nenhuma questão é mais sublime do que esta: por que o universo existe? Por que existe algo em vez de nada?”.

É trágico que, no momento e na época em que uma genuína renascença da filosofia cristã está em pleno florescimento, seja esse o tipo de alimento encontrado no livro de Goldstein, servido ao público faminto.

  • [1]

    O autor faz referência à obra 36 Arguments for the Existence of God (Nova Iorque: Pantheon, 2010), publicada em português com o título 36 argumentos para a existência de Deus (São Paulo: Companhia das Letras, 2011). [N. do R.]