Doutrina do Espírito Santo (Parte 1): A Terceira Pessoa da Trindade
April 2, 2023Dados bíblicos
Hoje, começamos uma nova seção no curso Defensores. Antes de prosseguir, vamos voltar um pouco e fazer uma revisão, para conseguirmos enxergar o quadro maior.
Neste último ano, estamos estudando a doutrina de Deus — a existência e natureza de Deus. O primeiro assunto que analisamos sob este título geral foi os atributos de Deus. Vimos propriedades como onisciência, onipotência, asseidade, eternidade, santidade, amor e assim por diante. Em seguida, fizemos um breve adendo sobre teologia natural, analisando argumentos favoráveis à existência de Deus, como o argumento cosmológico, o argumento moral e o argumento teleológico e, então, vimos também argumentos contrários à existência de Deus. Por fim, agora há pouco, acabamos de terminar uma subseção sobre a doutrina da Trindade.
Hoje, gostaria de começar uma nova subseção da doutrina de Deus — o Espírito Santo. Os teólogos costumam se referir a esta área como pneumatologia. Vem da palavra grega pneuma, que significa “espírito” ou “vento”. Obviamente, é desta palavra que deriva nossa palavra “pneumático”, como em martelo pneumático. Agora vamos estudar pneumatologia ou a doutrina do Espírito Santo.
É com razão que o Espírito Santo tem sido chamado de a pessoa esquecida da Trindade. Quando se olha para os primeiros pais pós-apostólicos, parece que eram praticamente binitários, e não trinitários. Criam em Deus Pai e em seu Verbo ou Logos que procedeu do Pai. Porém, quase não se dizia nada acerca da pessoa do Espírito Santo. As controvérsias trinitárias e cristológicas que dominaram a igreja antiga por séculos excluíram qualquer discussão aprofundada da pessoa do Espírito Santo. Assim, por exemplo, no Credo Apostólico, tudo que se verá em relação ao Espírito Santo é a afirmação: “Creio no Espírito Santo”, que traz à tona a pergunta: o que se crê sobre o Espírito Santo? No Credo Niceno, é ainda mais curta. Depois de dizer “Creio no Pai e no Filho” e de estas pessoas serem explicadas, ele diz: “e no Espírito Santo”. Ele como que aparece ali no fim, por precaução.
Até mesmo hoje, creio que o Espírito parece ser negligenciado por muitos cristãos. Por exemplo, na minha formação no seminário, um dos cursos que fizemos como parte do currículo básico no programa de Mestrado em Teologia (MDiv) foi o curso de teologia sistemática intitulado “Deus, o homem e Cristo”. Quando se pensa a seu respeito, é muito estranho. Seria um novo tipo de Trindade profana de Deus, homem e Cristo? O que aconteceu com o Espírito Santo? Ele foi como que deixado de lado, sinto dizer.
Por isso, queremos gastar um pouco de tempo discutindo a pessoa e obra do Espírito Santo.
Quem é o Espírito Santo? O Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade. Como tal, ele é coigual a Deus Pai e Deus Filho. O Espírito Santo é Deus. Já vimos alguns dos versículos sobre a divindade do Espírito, mas vejamos Atos 5.3-4 mais uma vez. Pedro se dirige a Ananias, que tentou ficar com parte do valor do terreno que vendera:
Então Pedro perguntou: “Ananias, por que Satanás encheu o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e ficasses com uma parte do valor do terreno? Enquanto o possuías, não era teu? E, depois de vendido, o dinheiro não estava em teu poder? Como planejaste isso no coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus”.
No versículo 3, ele diz: “Satanás encheu o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo” e, então, no versículo 5, ele diz: “mentiste a Deus”. Logo, o Espírito Santo é Deus.[1]
O Espírito Santo não é o fantasma (“ghost”) de Jesus, como pode sugerir a infeliz tradução inglesa arcaica “the Holy Ghost”. O Espírito Santo não é o fantasma de Jesus que, de algum modo, ainda está a perambular na terra após a partida de Jesus para o céu. Antes, o Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade. Assim sendo, o Espírito Santo é uma pessoa — um indivíduo autoconsciente e racional. O Espírito Santo não é um “algo”; nunca devemos nos referir ao Espírito Santo como “isso” ou “algo”, porque ele não é uma força impessoal. O Espírito Santo é “alguém”, e não “algo”.
Vejam, por exemplo, Atos 13.2: “Enquanto cultuavam o Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: ‘Separai-me Barnabé e Saulo para a obra para a qual os tenho chamado’”. Aqui, o Espírito Santo fala e usa pronomes da primeira pessoa em referência a si mesmo. “Me” e “eu”, algo que apenas uma pessoa pode fazer. Vejam também, no Evangelho de João (João 14.15-17). Aqui, Jesus diz:
Se me amardes, obedecereis aos meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique para sempre convosco, o Espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, pois ele habita convosco e estará em vós.
No caso, Jesus promete o advento do Consolador — o Espírito Santo —, que virá no seu lugar e habitará os crentes. Conforme expliquei ao vermos a doutrina da Trindade, João, na realidade, viola a gramática grega, neste versículo, ao usar um pronome masculino para o Espírito Santo. A palavra “espírito”, no grego, é neutra, e, ainda assim, João emprega um pronome masculino — “ele” — com relação ao Espírito Santo.
Lendo mais adiante, em João 14.25-26,
Essas coisas vos tenho falado enquanto ainda estou convosco. Mas o Consolador, o Espírito Santo a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que eu vos tenho dito.
No caso, temos o ministério didático do Espírito Santo, o que, obviamente, mostra mais uma vez que ele é uma pessoa, já que vai ensinar aos discípulos de Jesus o ensinamento que Jesus lhes dera.
Então, em João 16.7-15, Jesus expande a questão. Ele diz:
Todavia, digo-vos a verdade; é para o vosso benefício que eu vou. Se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, eu o enviarei. E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está condenado. Ainda tenho muito que vos dizer; mas não podeis suportá-lo agora. Quando, porém, vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá a toda a verdade. E não falará de si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, pois receberá do que é meu e o anunciará a vós. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso eu vos disse que ele, recebendo do que é meu, o anunciará a vós.
Aqui, mais uma vez, Jesus descreve o ministério do Espírito Santo à igreja, após Jesus ascender ao Pai.[2] Ele faz esta afirmação tão notável de que, na verdade, nos é vantajoso que Jesus parta e que o Espírito Santo venha no seu lugar. O que poderia ser mais proveitoso (como pensaríamos) do que ter a presença pessoal do próprio Jesus conosco? Porém, diz Jesus, não, é melhor para vocês, na verdade — é para seu proveito — que o Espírito Santo venha, e ele lhes declarará a verdade a meu respeito e convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Mostra-se, assim, a importância e natureza pessoal do Espírito Santo.
Deem uma olhada também em Romanos 8.26-27. No caso, temos aí descrito o ministério de oração intercessora do Espírito Santo em favor dos crentes. Paulo diz:
Do mesmo modo, o Espírito nos socorre na fraqueza, pois não sabemos como devemos orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos que não se expressam com palavras. E aquele que sonda os corações sabe qual é a intenção do Espírito; ele intercede pelos santos, segundo a vontade de Deus.
No caso, o Espírito Santo é, claramente, uma pessoa, porque ele intercede pelos santos, segundo a vontade de Deus. Isto se refere à mente do Espírito: Deus Pai sabe o que está na mente do Espírito, e o Espírito intercede por nós, segundo a vontade de Deus.
Mais uma vez, acho que fica bastante claro que não estamos lidando aqui com uma espécie de força, energia ou poder impessoal. Trata-se de uma pessoa. É o próprio Deus. É a terceira pessoa da Trindade.
Por último, esta pessoa é distinta do Pai e do Filho. Não é o Pai ou o Filho em roupagem diferente ou em papel diferente. Trata-se de pessoa diferente. Mateus 28.19 elenca todas as três pessoas da Trindade juntas, num dos grandes versículos trinitários no Novo Testamento. É parte da Grande Comissão. Jesus diz: “Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei; e eu estou convosco todos os dias, até o final dos tempos”. Todas as três pessoas são nomeadas na fórmula batismal: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Igualmente, em 2 Coríntios 13,14, temos todas as três pessoas mencionadas no mesmo versículo. A bênção final desta carta diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Aqui, como de costume, Deus refere-se a Deus Pai, Senhor refere-se a Jesus Cristo e, então, faz-se menção ao Espírito Santo. São três distintas pessoas da Trindade, igualmente divinas e igualmente pessoais.
DISCUSSÃO COMEÇA
Aluno: Quanto ao Espírito Santo ser Deus, de fato, um dos meus versículos favoritos é Hebreus 10.15-17. Diz assim: “E o Espírito Santo também nos dá testemunho a esse respeito, porque, depois de ter dito...”, e então cita o Antigo Testamento. Creio que vem de Jeremias, onde se diz: “‘Esta é a aliança que farei com eles depois daqueles dias’, diz o Senhor: ‘Porei as minhas leis em seu coração e as escreverei em sua mente’, acrescentando: ‘E não me lembrarei mais de seus pecados e de suas maldades’”. Acho interessante que diz que o Espírito Santo diz tal coisa e, então, cita algo do Antigo Testamento que fala, especificamente, de Javé.[3] De fato, onde se diz “Senhor”, no Antigo Testamento, emprega-se o tetragrammaton. Parece-me bastante claro o que está dizendo, especificamente: identifica-se o Espírito Santo como Javé, e é por isso também que gosto de usar este versículo quando falo com Testemunhas de Jeová. Acho muito eficaz.
Dr. Craig: Muito bom! Obrigado.
Aluno: Como o senhor disse, os nossos predecessores o classificaram ou denominaram de “Holy Ghost”, e acho que foi, provavelmente, por causa de João 16.7, que diz: “ele está conosco, mas, se eu for, ele pode estar em vós”. Por isso, há mais em relação à Trindade do que sabemos agora.
Dr. Craig: João 16.7 diz: “se eu for, eu o enviarei”. Na continuação, ele diz que está convosco, mas estará em vós. Entendo que a diferença ali não está no Espírito Santo em si, mas, sim, no fato de que, na antiga aliança, as pessoas não fossem habitadas pelo Espírito Santo de maneira contínua. Falaremos a este respeito mais adiante, sobre o papel do Espírito Santo na Antiga Aliança. Parece que o Espírito Santo vinha sobre as pessoas, como os juízes (por exemplo, Sansão ou Gideão), para realizarem um grande ato, uma grande façanha. Depois, ele os deixava. Por isso, Davi pode orar nos Salmos: “Não retires de mim o teu Santo Espírito”. Penso que nenhum cristão poderia fazer esta oração na nova aliança, porque o Espírito Santo agora habita em nós. Foi esta a mudança que ocorreu no Pentecoste. Assim, o próprio Espírito Santo não muda, mas creio que a sua relação com o crente passa por mudança fundamental no Pentecoste, por ele se tornar, agora, a presença a habitar permanentemente a vida do crente, o que não se aplicava antes.
Aluno: Concordo com tudo isso. O que estou apontando é que se diz que ele não pode entrar em nós até que Cristo parta.
Dr. Craig: OK.
Aluno: As duas palavras empregadas para Deus são kyrios e theos. O que seria Espírito Santo em grego?
Dr. Craig: É pneuma hagion, Espírito Santo. Theos é Deus; kyrios é Senhor; to pneuma hagion é o Espírito Santo.
Aluno: Outro grande versículo trinitário em Hebreus é Hebreus 9.14: “quanto mais o sangue de Cristo, que, imaculado, por meio do Espírito eterno ofereceu a si mesmo a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes o Deus vivo”. Tem-se uma fórmula trinitária neste versículo também.
Dr. Craig: Sim, é verdade. O sangue de Cristo mediante o Espírito eterno ofertou-se a Deus. Tem-se aí, então, uma fórmula trinitária também. Muito bom. (Na verdade, deve ser hagion, porque é neutro, e não masculino.)
DISCUSSÃO TERMINA
Tratemos de alguns dos atributos que o Espírito Santo possui.
1. Segure a página aí mesmo em Hebreus 9.14, que acabamos de ler, porque quero destacar o atributo do Espírito Santo de eternidade. Leiam o versículo novamente: “quanto mais o sangue de Cristo, que, imaculado, por meio do Espírito eterno ofereceu a si mesmo a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes o Deus vivo”. No caso, o atributo de ser eterno refere-se ao Espírito Santo.
2. A onipresença é descrita em Salmos 139.7-8. O Espírito é onipresente. “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua presença? Se eu subir ao céu, lá tu estás; se fizer a minha cama nas profundezas, tu estás ali também”. No caso, não se pode fugir da presença do Espírito. Não importa aonde se vá, Deus Espírito Santo está presente ali.[4]
3. A onisciência é atribuída ao Espírito Santo. Em 1 Coríntios 2.10-11, está escrito:
Deus, porém, revelou-as a nós pelo seu Espírito. Pois o Espírito examina todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. Pois quem conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus.
Trata-se de versículo notável, em que Paulo diz que o Espírito sonda até às profundezas de Deus e que o próprio Espírito compreende, envolve, absorve, entende os pensamentos de Deus. Isto indica que estamos lidando, no caso, com alguém que é onisciente.
4. A santidade é atributo do Espírito. Isto fica óbvio já no próprio nome: o Espírito Santo. Porém, temos uma referência específica, por exemplo, em Romanos 1.4. Fala-se do modo em que Cristo é “declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos”. Aqui, refere-se ao Espírito Santo como o Espírito de santidade.
5. Ao Espírito Santo se confere o atributo do amor, em Romanos 5.5. Paulo diz: “A esperança não causa decepção, visto que o amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Assim, o Espírito Santo não é, simplesmente, a fonte de poder ou orientação ou força; ele é também a fonte do amor. É mediante o Espírito Santo que o amor de Deus é derramado em nossos corações.
Creio que conseguem ver que os atributos de divindade são conferidos ao Espírito Santo: atributos como eternidade, onipresença, onisciência, santidade e amor, sublinhando, portanto, a divindade do Espírito Santo.
O que faremos, da próxima vez, é começar a investigar a relação da terceira pessoa da Trindade (o Espírito Santo) com a segunda pessoa da Trindade (Cristo) e, então, examinar a obra do Espírito Santo. Se você não percorreu este material antes, acho que vai ficar bastante surpreso ao ver como é vital o envolvimento da pessoa do Espírito Santo nas nossas vidas cristãs que vivemos hoje.[5]