Criação e Evolução (Parte 16)
December 10, 2022Andamos falando da Doutrina da Criação e, em especial, da controvérsia da criação e evolução. Da última vez, defendemos que, ainda que o cientista natural tenha de operar dentro dos limites do naturalismo metodológico, tal limitação não rege o trabalho do teólogo sistemático. Portanto, o teólogo sistemático é livre para seguir hipóteses teológicas, bem como naturalísticas, na busca por entender a origem da vida e da complexidade biológica. Como cristãos, queremos ter uma teologia, uma cosmovisão, que leve em conta e integre tanto os dados bíblicos quanto as provas científicas na cosmovisão mais plausível possível. E não há nenhuma razão por que devamos limitar-nos ao naturalismo na elaboração de tal cosmovisão.
Origem da vida
Queremos voltar-nos, agora, ao assunto da origem da vida. O que as provas científicas indicam sobre o modo em que a vida se originou neste planeta? Anteriormente, ao discutirmos o ajuste fino do universo, vimos que, a fim de que a vida exista em algum lugar no universo, é preciso haver essas constantes e quantidades fina e primorosamente ajustadas, presentes no Big Bang, como condições iniciais. Tais condições iniciais são necessárias para a existência e evolução da vida em qualquer lugar no cosmo. Na ausência do ajuste fino dessas condições iniciais, não haveria sequer galáxias, não haveria estrelas, não haveria planetas nos quais a vida pudesse evoluir e existir! Porém, mesmo dadas tais condições iniciais ajustadas fina e primorosamente, não há nenhuma garantia de que a vida vá evoluir em algum lugar no cosmo. Tais condições são necessárias para originar-se a vida, mas não são suficientes. São condições necessárias, mas não suficientes para a existência e evolução da vida. A fim de originar-se a vida em algum lugar no universo, outras condições têm de estar em funcionamento, e elas também vêm a ser astronomicamente improváveis.
Se vocês são como eu, provavelmente aprenderam no colegial ou no ginásio que a maneira em que a vida se originou na terra foi por meio de interações químicas na chamada “sopa primordial”. Reações químicas fortuitas, nos oceanos antigos, talvez impulsionadas por descargas de raios, deram origem a organismos vivos. Lá pela década de 1950, um aluno de pós-graduação chamado Stanley Miller conseguiu sintetizar aminoácidos no laboratório, ao fazer passar centelhas elétricas através de gás metano, em um dos seus aparatos experimentais no laboratório. Ele conseguiu obter aminoácidos com descargas elétricas a atravessar o gás metano. Ora, aminoácidos não estão vivos, mas as proteínas se constituem de aminoácidos, sendo as proteínas encontradas em seres vivos, de modo que a esperança era que, de algum modo, a origem da vida fosse explicada a partir dessas reações químicas. Você deve estar se dizendo que parece uma enorme extrapolação: ele conseguiu obter aminoácidos, aminoácidos constituem proteínas, proteínas se encontram em seres vivos; logo, seres vivos podem ser explicados mediante a evolução química. Eu concordo com você; acho uma enorme extrapolação, e é algo que vai bem além das provas, virando non sequitur. No entanto, é isto que a maioria de nós aprendeu, não é mesmo? Na sopa primordial que cobria a terra, os oceanos aquecidos ou, então, talvez em poças isoladas, por meio de descargas de raios e reações químicas, de alguma maneira, a vida primitiva nasceu e formou-se.[1]
O que vocês talvez não saibam é que todos esses velhos cenários da origem química da vida desmoronaram, sendo agora amplamente rejeitados pela comunidade científica. Isto foi documentado muito bem anos atrás, num livro intitulado The Mystery of Life’s Origin [O mistério da origem da vida], de Charles Thaxton, Walter Bradley e Roger Olsen.[2] Eles apontam que, provavelmente, jamais houve sequer essa tal de sopa primordial, pois os processos naturais de destruição e diluição que ocorreriam nos oceanos teriam impedido as reações químicas que, supostamente, levaram à vida. Veja bem: os experimentos de Miller foram realizados num ambiente laboratorial muito controlado, num ambiente artificial fechado de um pequeno recipiente de vidro, em que os processos naturais de destruição e diluição poderiam ser excluídos e, por isso, não teriam efeito. Mas, obviamente, nos oceanos primordiais da terra, esse tipo de processo destruidor não seria excluído, além de ter impedido as reações químicas que, supostamente, teriam levado à formação da vida.
Thaxton, Bradley e Olsen também indicam que a termodinâmica postula um problema insuperável para esses cenários da origem química da vida, pois simplesmente não há nenhuma maneira de potencializar a energia bruta de raios ou do sol a fim de levar adiante a evolução química. Simplesmente, não há nenhum mecanismo que tomaria esta energia bruta e a transformaria e potencializaria de tal maneira que levasse adiante a evolução química para a vida. Além disso, eles indicam que não há nenhum modo, na natureza, de preservar quaisquer dos produtos da evolução química para o suposto próximo passo no processo. Um cientista como Stanley Miller pode, artificialmente, isolar os produtos do primeiro desenvolvimento químico: ele pode isolar esses pequenos aminoácidos que foram formados no seu recipiente e, então, submetê-los a um segundo passo. Porém, nos mares primordiais, não havia nenhuma maneira de coletar, isolar e preservar nenhum dos produtos da evolução química para o suposto próximo passo. Assim, os mesmos processos que formaram essas substâncias, logo no início, quase imediatamente as destruiriam novamente.
Por fim, o último argumento que fazem é que, originalmente, cria-se que, literalmente, bilhões de anos estavam disponíveis para originar-se a vida por meio desses processos químicos. Dados bilhões de anos, haveria nos oceanos bilhões e bilhões de chances para originar-se a vida na sopa primordial. O problema é que, agora, temos provas fósseis de vida que remontam a 3,8 bilhões de anos. A vida já existia neste planeta 3,8 bilhões de anos atrás. Ora, quando se pensa que a idade da terra é de aproximadamente 5 a 6 bilhões de anos, isto significa que a janela de oportunidade entre o tempo em que a terra se esfriou o suficiente, os mares formaram-se e a primeira vida apareceu, progressivamente se fecha. A janela de oportunidade para originar-se a vida vai ficando cada vez mais estreita. É preciso que a terra se esfrie, os oceanos se formem e, então, haverá esta janela de oportunidade cada vez mais diminuta, antes que já tenhamos a vida na terra.[3] De fato, Thaxton, Bradley e Olsen estimam que esta janela de oportunidade é, provavelmente, de apenas aproximadamente 25 milhões de anos de duração, durante a qual a vida tinha de originar-se por meio da evolução química. É um tempo curto demais para que tais cenários naturalistas ocorram por acaso. Precisaria haver algum tipo de intervenção milagrosa para que a vida se originasse em tempo tão diminuto, relativamente falando.
Assim, por todas estas e outras razões, esses velhos cenários de origem química da vida desmoronaram. Antes, atualmente, há uma infinidade de teorias especulativas alternativas, sem nenhuma perspectiva de consenso. Não vou passá-las em revista, mas, se vocês tiverem interesse em ver um panorama muito bom, deem uma olhada no artigo da Wikipédia sobre a origem da vida,[4] e ele descreverá muitos desses diferentes cenários especulativos sobre como a vida se originou neste planeta, nenhum dos quais se mostrou sustentável. Steven Meyer, no seu recente livro Signature in the Cell [Assinatura na célula],[5] diz que a chance de se obter uma única molécula funcional de proteína, por acaso (lembrem-se, não é nem viva! Não estamos falando aqui de uma célula, estamos falando de uma única molécula proteica funcional), a chance de isto acontecer é de uma em 10164. O número é, simplesmente, inconcebível. Ele diz que é um trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de vezes menos do que a chance de encontrar uma única partícula especificada entre todas as partículas possíveis no universo. Pegue todas as particular no universo e selecione uma: qual é a chance de pegar exatamente aquela? Pois bem, a chance é 1084 maior do que a chance para uma única molécula de proteína. Isto está na página 212 de Signature in the Cell, caso estejam interessados.[6] Ele diz o seguinte:
A função proteica depende de centenas de aminoácidos especificamente sequenciados, e a chance de uma única proteína funcional surgir por acaso é inviavelmente baixa, dados os recursos probabilísticos do universo inteiro.[7]
Assim, dados não apenas os recursos probabilísticos dos oceanos primordiais da terra, mas também os recursos probabilísticos do universo inteiro, a chance de se obter uma única molécula funcional de proteína é inviavelmente pequena. Portanto, alguns teóricos hoje se perguntam se vamos sequer conseguir, de fato, descobrir a resposta para o modo em que a vida se originou neste planeta. Em artigo na revista Cell Biology International, Trevor e Abel dizem: “Demandam-se novas abordagens para investigar a origem do código genético. As limitações da ciência histórica são tais que a origem da vida talvez não seja jamais compreendida”.[8] Talvez nunca saibamos a resposta.,
A origem da vida na terra continua, pois, inexplicável, na atual situação da ciência. Francis Crick, o codescobridor do DNA, disse certa vez que a origem da vida na terra é “quase um milagre”.[9] Deveras, Crick foi levado à posição de que a origem da vida na terra é tão improvável que ela, provavelmente, não se originou aqui. Ele pensa que foi, provavelmente, semeada de outro planeta, em outro lugar no universo onde se originou a vida, e, então, a vida veio aqui já formada. Assim, a vida não evoluiu neste planeta por meio da evolução química; ela veio plenamente formada de outro planeta, em outro lugar no universo.[10] Obviamente, porém, isto só empurra a questão um pouco mais para trás e nos faz perguntar de onde veio essa vida extraterrestre! Ë claro que se trata de hipótese infalsificável: não temos como verificá-la ou prová-la falsa.
Como disse antes, a Bíblia não conta como a vida se originou. Simplesmente, diz: “E disse Deus: produza a terra seres vivos” e “Produzam as águas cardumes de seres vivos”.[11] A Bíblia não é um livro de ciência. Ela não nos diz quais meios Deus usou para criar a vida ou se ele sequer usou quaisquer meios, em vez de intervenção milagrosa. Penso, porém, que podemos, sem dúvida, dizer com segurança que a origem da vida, neste planeta, é compatível, nas palavras de Crick, com um “milagre”. Ou seja, é um evento realizado por Deus, sobrenaturalmente. De fato, quando muito, penso que a ciência é até mais clara que a origem da vida se deva a alguma espécie de arquiteto sobrenatural ou intervenção milagrosa do que a Bíblia o é. Assim, com base na ciência moderna, pode-se muito bem concluir que a origem da vida demanda alguma espécie de inteligência e criador a projetá-la de modo sobrenatural.
Da próxima vez, vamos começar a investigar a origem da complexidade biológica. Como é que um primeiro organismo unicelular simples evoluiu para a complexa e rica diversidade das formas de vida que vemos hoje?[12]
[1] 5:20
[2] Charles B. Thaxton, Walter L. Bradley e Roger L. Olsen, The Mystery of Life’s Origin: Reassessing Current Theories (Dallas, Texas: Lewis and Stanley, 1984). É possível baixar uma versão gratuita deste livro em PDF, em http://themysteryoflifesorigin.org/ (acesso em 10 de fevereiro de 2013).
[3] 10:01
[4] Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Origin_of_life (acesso em 10 de fevereiro de 2013).
[5] Stephen C. Meyer, Signature in the Cell: DNA and the Evidence for Intelligent Design (Nova Iorque: HarperCollins, 2009).
[6] “Fazer este cálculo (multiplicar as probabilidades separadas ao adicionar aos seus expoentes 1045+45+74) dá uma resposta dramática. A chance de se conseguir sequer uma proteína funcional de extensão modesta (150 aminoácidos), por acaso, a partir de uma sopa prebiótica, não é maior do que 1 em 10164... considere que há apenas 1080 prótons, nêutrons e elétrons no universo. Assim, se a chance de encontrar uma proteína funcional, por acaso, na minha tentativa, fosse 1 em 1080, poderíamos dizer que seria como encontrar uma partícula marcada – próton, nêutron ou elétron (uma agulha muito menor) – entre todas as partículas no universo (um palheiro muito maior). Infelizmente, o problema é muito pior do que isso. Com a chance real de 1 em 10164 para encontrar uma proteína funcional... a probabilidade está a 84 ordens de grandeza (ou potências de dez) menor do que a probabilidade de encontrar a partícula marcada no universo inteiro. Outra forma de dizer isto é que a probabilidade de encontrar uma proteína funcional, somente por acaso, é um trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de trilhão de vezes menor do que a chance de encontrar uma única partícula especificada entre todas as partículas no universo” – Meyer, Signature in the Cell, p. 212.
[7] Ibid., p. 273.
[8] J. T. Trevors e D. L. Abel, “Chance and necessity do not explain the origin of life”, Cell Biology International (Volume 28, Edição 11, novembro de 2004), pp. 729-739.
[9] “Um homem honesto, munido de todo conhecimento a nós disponível hoje, só poderia afirmar que, em algum sentido, a origem da vida parece ser, no momento, um milagre, tantas são as condições que teriam de ser satisfeitas para que ela se iniciasse” – Francis Crick, Life Itself: Its Origin and Nature (Simon & Schuster, 1981), p. 88.
[10] 14:57
[11] Cf. Gênesis 1.24 e Gênesis 1.20.
[12] Duração total: 17:09 (Copyright © 2013 William Lane Craig)