Criação e Evolução (Parte 21)

January 2, 2023

O resumo de tudo

Nesta aula, encerramos o nosso apêndice à criação e evolução em que nos encontramos já há muitas lições. Da última vez, sugeri um modelo possível de integração entre o ensinamento bíblico sobre a origem da vida e da complexidade biológica e o que as provas científicas nos dizem hoje. Referi-me a este modelo como a visão criacionista progressiva: Deus, ao longo do tempo, intervém milagrosamente de formas que fazem avançar o processo evolutivo, que não teria ocorrido na ausência de tais intervenções divinas. Defendi que parece encaixar-se com as provas científicas ao nosso dispor, atualmente.

Por último, voltei-me a objeções teológicas a tal perspectiva criacionista progressiva. Vocês vão se lembrar que consideramos duas objeções a este modelo. Primeiro, houve a objeção com base nas chamadas falhas de projeto na natureza. Sugeri que elas, na verdade, não são tão problemáticas assim. O teólogo cristão poderia responder, primeiro, afirmando que algumas dessas supostas falhas não são bem falhas; a localização do nervo óptico no olho humano, por exemplo, não é bem uma falha, mas uma necessidade para o suprimento de oxigênio de que necessitam animais de sangue quente. Ou poderíamos afirmar, de modo alternativo, que esses projetos imperfeitos, como alguns os descreveriam, não são coisas projetadas por Deus, mas, sim, derivados do processo evolutivo. Mesmo o criacionista especial não pensa que Deus criou todo organismo ex nihilo, mas que, por exemplo, Deus criou um urso primordial, por exemplo, e, então, o urso evoluiu para diversas diferentes espécies, uma das quais é o panda, que desenvolveu um polegar para remover as folhas do bambu, o chamado polegar do panda. Por isso, acho que essas falhas de projeto não são lá uma objeção teológica muito significativa à visão criacionista progressiva.

Em seguida, passamos ao problema das crueldades na natureza. A natureza é, como dizem, rubra nos dentes e nas garras. Todo o processo evolutivo se constrói na predação animal: os animais comem uns aos outros, matam-se uns aos outros para sobreviver. De fato, nós somos predadores: nós, seres humanos, somos carnívoros! Todo o processo evolutivo se constrói nesta história de predação, morte e sofrimento, e muitos defendem que isto é incompatível com a existência de um Deus todo-poderoso e todo-amoroso. É, então, uma versão do problema do mal. É uma versão do problema do mal que apela para o mal natural, e não moral. Quem crê na evolução enxergaria aí um argumento contra a existência de Deus. Por outro lado, alguns criacionistas especiais veriam aí um bom argumento para não crer na evolução, por ser ela incompatível com um Deus todo-poderoso e todo-amoroso. Mais uma vez, defendi que boa parte do comportamento animal que nos parece cruel poderia ser decorrente da seleção natural em operação a partir da mutação aleatória. Dei o exemplo de bactérias patogênicas ou produtoras de doenças que se tornam parasitas. Elas eram, na verdade, originalmente, ao que parece, organismos independentes que, mediante a mutação e a perda de informação genética, tornaram-se essas criaturas parasíticas terríveis. Assim, seria possível apelar à seleção natural, em operação a partir da mutação aleatória, para explicar alguns dos comportamentos cruéis exibidos por diversos animais.

Isto não vai aliviar o problema geral do sofrimento animal, obviamente. Como disse, todo o processo evolutivo constrói-se na realidade da predação animal: alguns animais são predadores e sobrevivem matando e devorando os outros. Assim, ainda precisamos falar do porquê ter Deus permitido um mundo repleto de sofrimento animal.[1] Isto nos exige dizer algo sobre a natureza do sofrimento animal. Da última vez, comecei a recorrer ao excelente livro de Michael Murray, Nature Red in Tooth and Claw [Natureza rubra nos dentes e nas garras], publicado pela Imprensa da Universidade de Oxford,[2] em que o autor discerne uma hierarquia de dor em três níveis diferentes.

No nível mais baixo estariam, simplesmente, os estados neurais portadores de informação dentro de sistemas neurais ou sistemas nervosos. São produzidos por estímulos nocivos e resultam em comportamento aversivo. O exemplo que dei foi que cutucar uma ameba com uma agulha a faria retrair-se; ou, em certos organismos primitivos, eles exibiriam comportamento aversivo ao receber estímulos nocivos nos seus sistemas neurais. Mas não há nenhuma senciência, no caso. Não há nenhuma experiência de dor. Não há nenhuma consciência nesses animais. Seriam animais como aranhas e insetos. Muitos dos comportamentos cruéis aos quais antiteístas recorrem ao forçarem o problema natural do mal será o comportamento de insetos e outras criaturas de nível inferior. Mas, na realidade, são só como maquininhas. São como robozinhos: eles não têm nenhum tipo de senciência ou experiência de dor; eles não sofrem quando experimentam tais estados neurais.

O segundo nível de consciência de dor seria uma experiência subjetiva de dor em primeira ordem. Quando se chega ao nível dos vertebrados, tem-se a senciência, tem-se a consciência. Assim, tem-se a experiência subjetiva da dor. Assim, quando uma zebra é atacada por um leão e despedaçada, ela experimenta este segundo nível de dor, porque tem comportamento senciente. Porém, embora certos animais experimentem a dor (eles têm esta consciência subjetiva da dor em primeira ordem), não há provas de que animais — além dos seres humanos — tenham o nível um, que seria a consciência em segunda ordem de que se está experimentando o nível dois. É algo sutil que requer reflexão. Podemos ter uma experiência no nível dois, mas animais não a têm, até onde sabemos, esta consciência em segunda ordem no nível superior de que estão em estado de experimentar o nível dois. É algo que os filósofos reconhecem há tempos. Como disse, Immanuel Kant comentou que os animais, além dos seres humanos, não podem prefixar os seus estados de consciência com as palavras “Penso que...” porque não têm nenhuma consciência ou perspectiva de primeira pessoa.

Assim, embora os animais experimentem a dor, eles aparentemente (ou, ao menos, não temos provas) não têm consciência de que estão em estado de dor. A título de analogia, Michael Murray apela para um fenômeno incrível denominado “visão cega”. Há certas pessoas que, para todos os efeitos, são cegas. Não têm nenhuma experiência visual de nada. Ainda assim, podem, na verdade, veem. Uma pessoa com visão cega pegaria uma bola se você lhe lançasse, porque ela a vê e conseguiria pegá-la. Se você a chamasse para o outro lado da sala, ela não toparia com as cadeiras e mesas, mas as contornaria, porque, na verdade, as está vendo. Ela não tem nenhuma experiência visual de vê-las. Embora esteja numa espécie de experiência visual em primeira ordem — neste sentido de primeira ordem, ela vê as coisas —, não tem esta consciência de segunda ordem de que pode vê-las. Ela é cega, para todos os efeitos! Assim, conforme indica Michael Murray, seria uma empreitada sem sentido gastar uma tarde na galeria de arte com uma pessoa de visão cega, levando-a pelo museu para ver as pinturas.[3] Sim, ela poderia ver as pinturas, mas não teria nenhuma experiência visual delas. Isto é muito parecido com o que estamos falando aqui. Um animal pode ter uma experiência subjetiva de dor em primeira ordem, sem ter a consciência em segunda ordem de que está experimentando essa dor de primeira ordem.

Como disse da última vez, isto serve de grande consolo àqueles que temos animais de estimação. Lembro muito bem quando nossos gatinhos Puff e Muff, que tivemos por uns 14 anos, morreram uns anos atrás. Foi tão horrível ver Muff a vomitar sangue e, visivelmente, em horrendo estado de desconforto. Derramamos muitas lágrimas ao levar Muff e Puff para sacrificá-los no veterinário. Ainda assim, é um grande consolo saber que, embora Muff estivesse sofrendo, ela não tinha ciência de que estava sofrendo. Ela não tinha esta consciência em primeira ordem: “Estou em estado de dor; estou sofrendo”. Assim, o que isto quer dizer é que animais, até onde sabemos, não têm o mesmo tipo de experiência de sofrimento que nós, seres humanos, temos. Deus nos criou de tal maneira que experimentamos este terrível sofrimento porque temos ciência de que estamos passando por ele, mas isto quer dizer que os animais não experimentam o sofrimento da mesma forma que nós.

Na minha opinião, isto tem enormes implicações para este argumento contra o criacionismo progressivo com base nas chamadas crueldades da natureza e no sofrimento animal. Quem propõe este argumento parece culpado da falácia do antropopatismo, do grego “anthropos”, que quer dizer homem ou humano, e “pathos”, que quer dizer sofrimento. Quando atribuímos a animais o tipo de experiência de dor e consciência que nós temos, somos culpados de antropopatismo: atribuímos-lhes emoções e sentimentos humanos. Penso que seja quase uma segunda natureza nossa. Parte disto resulta da nossa longa experiência cultural com filmes como Bambi, em que pensamos em pequenos animais e criaturas nas florestas como se fossem como o Bambi: são agentes humanos, com corpos de animal, mas muito autoconscientes. Lembro-me de ver um cartaz de protesto sobre direitos dos animais, e ele dizia: “Animais também são gente!”. Isto cai na falácia do antropopatismo. Além disso, nós, seres humanos, parecemos ter a tendência inveterada de atribuir agência e autoconsciência até mesmo a objetos inanimados. Falamos com os nossos computadores, gritamos com o nosso carro quando ele não funciona direito, falamos às vezes com as plantas. Lembro-me até de Richard Dawkins refletindo certa feita sobre a vez em que se pegou xingando a própria bicicleta quando não funcionava. A pessoa diz: “Coisa burra! Qual é o problema com essa correia idiota?”, como se ela tivesse algum tipo de agência a ser culpada pelo modo em que está operando. Quando fazemos isto, somos culpados de antropopatismo, e penso que seja justamente, como disse, quase como uma segunda natureza nossa, enquanto seres humanos. Vi um vídeo em resposta ao livro de Michael Murray no YouTube em que isto ficou exemplificado. A fim de refutar Murray, parte do que fizeram foi mostrar filmes de uma baleia que ajudara a resgatar um sujeito da água. Como a baleia exibiu este tipo de comportamento gentil e ajudou este ser humano, eles estavam prontos para atribuir à baleia consciência de primeira pessoa e agência. Repito: isto é simplesmente falacioso. Exibir este tipo de comportamento não é prova de uma perspectiva de primeira pessoa do tipo “Penso que...”.

Isto diminui ou mitiga o problema o problema do sofrimento animal, na minha opinião; porém, dito isto, permanece a seguinte questão: por que Deus escolheu criar um mundo a exibir um prelúdio evolutivo à aparição de seres humanos em cena?[4] Por que ele escolheria criar um mundo em que há este processo evolutivo de morte e predação que leva à aparição do homem em cena? Bem, talvez um mundo com evolução seja um mundo mais rico e maravilhoso de criaturas do que outro tipo de mundo. Falando sério, vocês não se alegram que Deus tenha criado os dinossauros? Eu me alegro! Desde que era menino, fico encantado e fascinado com essas incríveis criaturas bizarras e coloridas da era dos dinossauros e da era do gelo. Alegro-me que Deus tenha criado um mundo com esse tipo de animais. Por que Deus não deveria, igualmente, deleitar-se em todas as criaturas, pequenas e grandes, que ele fez? Talvez tal mundo seja mais maravilhoso e rico do que um mundo em que eles não existem.

Em última análise, porém, suspeito que a resposta a esta pergunta terá a ver, mais fundamentalmente, com o plano divino mais amplo para a humanidade. Tem relação com o seu desejo de criar um ecossistema em que agentes humanos autônomos podem florescer e tomar uma decisão sem coerção de aceitar ou rejeitar a oferta divina da graça salvadora. Deus não criou um mundo em que a sua existência é tão evidente e óbvia que não temos a liberdade de rejeitá-lo e ignorá-lo. Ele nos criou a um palmo de distância, por assim dizer, o que permite escopo para a autonomia, desenvolvimento e crescimento humanos e, enfim, a recepção ou rejeição da sua graça salvadora.

Qualquer ecossistema viável vai envolver a predação animal e a morte para a saúde do ecossistema como um todo. Vi isto ilustrado com maestria alguns anos atrás, num documentário da PBS que descrevia como o governo canadense estava reintroduzindo lobos no deserto canadense por causa dos caribus que lhes serviam de presa. Ora, se parece paradoxal, a situação com que o governo canadense se confrontou foi que, na ausência desses predadores, não havia nada para capturar os caribus doentes e idosos, de modo que a população estava a explodir e, consequentemente, os rebanhos praticavam o sobrepastoreio e, assim, morriam de fome. Por isso, pelo bem dos próprios caribus, eles tiveram de reintroduzir esses predadores naturais naquele ecossistema, o que resultaria em caribus mais saudáveis, além de rebanhos a prosperaram, paradoxalmente.

Como nos ensinam os proponentes da hipótese de gaia, não basta considerar apenas o organismo individual isolado, desconectado do seu ambiente. Antes, é preciso considerar o todo. De acordo com a hipótese de gaia, toda a terra — o ecossistema inteiro da terra — é uma espécie de organismo vivo, equilibrado internamente com predadores e herbívoros, sistemas de eliminação, outros sistemas que, então, devolvem o CO2 à atmosfera. A coisa toda é um tipo de ecossistema equilibrado, como um todo, que funciona bem como um organismo vivo. A própria terra é como algo vivo. Sem querer inserir nisto nenhum significado religioso, de forma alguma, penso que isto ilustra o argumento que estou fazendo, a saber: não se pode considerar um único organismo em isolamento do ecossistema em que ele vive.[5] Pode muito bem acontecer que, para o bem do ecossistema inteiro, deva haver predação animal e morte.

Obviamente, o plano último de Deus neste planeta é trazer homens e mulheres livremente para o seu Reino. O Reino de Deus é a chave da história humana. A história evolutiva da terá é a cenoplastia ecológica para o advento dos seres humanos e o desdobramento dos propósitos de Deus entre eles. Mediante este prelúdio evolutivo à aparição do homem, Deus prepara o palco, por assim dizer, para o drama humano que se desdobrará. As florestas primevas desses ecossistemas pré-históricos lançaram os depósitos para os combustíveis fósseis que possibilitaram a civilização moderna e o avanço humano. Não teríamos a civilização, na ausência destes depósitos de carvão, óleo e gás natural. Portanto, será que Deus deveria ter só criado a terra com a ilusão de idade? Campos de carvão que jamais tivessem florestas sobre elas? Eras ilusórias? Bem, por que pensar que isto teria alcançado melhor os propósitos de Deus para a humanidade? Como é que se sabe que os propósitos de Deus para a raça humana não são cumpridos ou alcançados de modo melhor tendo-se uma história ecológica genuína da terra, em vez de uma história ilusória, ou criando-se um mundo sem absolutamente nenhuma história aparente? Como é que sabemos quantas pessoas ou qual porcentagem da raça humana viria a conhecer a Deus e a sua salvação num mundo com tal passado ilusório e sem absolutamente nenhuma aparência de idade? O que melhor serviria para fazer avançar o Reino de Deus neste planeta é a consideração predominante em relação ao que Deus permite ou não neste planeta. Contudo, em linhas gerais, não sabemos o que isto acarreta. Não estamos em posição de especular sobre tais questões. Não temos nenhum jeito de especular sobre o sucesso do estabelecimento do Reino de Deus num mundo que envolvesse um passado ilusório, em contraste com o mundo em que vivemos. Simplesmente, não estamos em posição de especular sobre isto, mas também não estamos em posição de especular se a evolução não foi meio viável de Deus criar a vida neste planeta.

Por isso, penso que o problema do mal natural, no fim das contas, fracassa. Envolveria um ônus da prova que é, simplesmente, pesado demais para o não-teísta ou o criacionista antiprogressivo carregar.

Discussão

Pergunta: Então, o senhor está dizendo que, se a evolução for verdade, ela vai melhorar a posição de Deus?

Resposta: Com “posição de Deus”, você quer dizer para alcançar os objetivos dele?

Continuação: Sim, melhoraria a probabilidade da existência de Deus. Mas é apenas o problema inerente com o mecanismo por causa da complexidade irredutível. Portanto, se pudessem resolver este problema, melhor conciliaria um longo passado de criação com uma história verdadeira e, provavelmente, daria entendimento do plano de Deus.

Resposta: Não tenho certeza de que entendi a pergunta, mas eu diria que, na minha opinião, não é nem um pouco improvável — não é minimamente improvável — que apenas num mundo inundado de mal natural, incluindo sofrimento animal, a proporção ideal de pessoas viesse a conhecer a Deus e encontrar a vida eterna. Penso que não é nem um pouco implausível que, num mundo em que não houvesse nenhum sofrimento natural, nenhum mal natural, as pessoas se esquecessem de Deus e dissessem: “Quem precisa dele?”. O resultado talvez fossem mais pessoas perdidas, sem chegar à salvação. Assim, não acho nem um pouco implausível que o mal natural, como você disse, seja mesmo parte do meio pelo qual Deus alcança os seus propósitos.

Continuação: E Deus nos teria dado verdadeira liberdade libertária?

Resposta: Sim, estou falando de um mundo em que temos liberdade libertária. Por isso mencionei agentes humanos autônomos.[6]

Pergunta: Só sobre o comentário acerca do antropopatismo, não é a Disney apenas. Tolkien fez as árvores vivas e C. S. Lewis faz o mesmo em As crônicas de Nárnia. Não podemos implicar só com a Disney. Tenho outra pergunta sobre a hierarquia da dor. Esta é a impressão que tive na semana passada; é um pequeno desvio, mas queria ouvir sua opinião sobre o que andei pensando. Este tipo de hierarquia da dor: ouvi este tipo de argumento, mas mais vindo de pessoas pró-aborto, em que tentam colocar os seres humanos nessas categorias. Por isso, a minha pergunta é: como abordar a questão da dor em relação ao valor da vida humana? Até mesmo mais adiante na vida, como em quem tem Alzheimer, será que as pessoas têm aquele primeiro nível, ou será que degeneram? Será que perdem aquilo?

Resposta: Este é um comentário excelente para ilustração. Pode muito bem ser verdade que um feto tenha essa experiência subjetiva de dor em primeira ordem. Se o abortista vai e o queima vivo com produtos químicos e o corta em pedaços ou o aspira para fora, talvez ele tenha experiência de dor em primeira ordem. Mas talvez não tenha ainda se desenvolvido para ter esta experiência de dor em primeira ordem de que “Eu estou” nesta experiência de dor. Assim, como você disse, alguém talvez abuse disto dizendo que, portanto, não há problema abortar. O problema, no caso, ao que me parece, é que a pessoa está raciocinando eticamente no sentido de que o certo e o errado são determinados pela dor. Trata-se de pressuposto naturalista que nós, teístas, devemos rejeitar. Do contrário, seria possível entrar num hospital e matar alguém em coma, porque não sentiria nada, nem teria nenhuma dor. Por isso, acho que esta história de apelar para a dor é a tentativa desesperada do ateu de encontrar algum fundamento objetivo para a ética na ausência de Deus. Mas o que nós, como teístas, temos são os mandamentos divinos de que “Não matarás”; portanto, não devemos tirar uma vida humana inocente feita à imagem de Deus. Por isso, se um feto em desenvolvimento é um ser humano, ele tem o direto à vida, e não devemos matá-lo. Por isso, vejo uma base bem diferente para a ética do que a consciência da dor. Ora, isto também se relaciona à chamada questão dos direitos dos animais. Também implicaria, na minha opinião, que não devemos pensar em abusar dos animais ou explorá-los na agricultura animal, ou nessas fazendas nas quais as pessoas têm fábricas em massa e maltratam esses animais. Não devemos pensar que seja ético, simplesmente porque esses animais não têm consciência em primeira ordem de que estão sofrendo. Antes, vejo que o tratamento ético de animais absolutamente não está fundamentado nos direitos morais de animais. Os animais não são agentes e, portanto, não têm proibições ou obrigações morais a cumprirem. Não são agentes morais e, portanto, não têm direitos morais. Antes, o tratamento ético dos animais baseia-se na nossa responsabilidade para com eles, conforme ordenado por Deus. Deus nos deu o mandato da criação para administrar a terra e cuidar dela; portanto, é imoral quando violamos esse mandato da criação ao abusar das suas maravilhosas criaturas neste mundo. Isto incluiria florestas e árvores. Não é que as árvores tenham direitos morais. A árvore não é agente moral. Ela não tem nenhum direito. Mas nós, enquanto seres humanos, temos a responsabilidade moral dada por Deus de cuidar da terra, e isto quer dizer não poluir os mares e não derrubar as florestas tropicais ao bel-prazer.[7] Por isso, eu veria, igualmente, o tratamento ético dos animais como algo que não se fundamenta na consciência da dor ou mesmo nos próprios animais; está fundamentado em nós, seres humanos que receberam de Deus o mandato da criação para administrar a terra. E vejo que este é fundamento muito mais seguro para o tratamento ético dos animais do que essas tentativas naturalistas de interpretar os animais como se, de algum modo, fossem agentes de dor em primeira ordem. Boa pergunta!

Pergunta: (inaudível)

Resposta: Repetirei a pergunta. Ele perguntou: “Será que as crueldades da natureza e a predação animal relacionam-se com a Queda e as consequências da Queda para a criação, das quais a criação algum dia será libertada e, talvez, restaurada a um estado original prístino?”.

Murray, no seu livro Nature Red in Tooth and Claw, também discute esta alternativa.[8] Ele discute inúmeras alternativas para lidar com o problema do sofrimento animal. Penso que esta alternativa esteja aberta ao criacionista da terra jovem que acha que Deus criou um mundo em seis dias consecutivos literais e, então, ele caiu, e houve consequências desastrosas para a natureza. Mas isto não está aberto para mim, porque não sou criacionista da terra jovem. Parece-me que o universo tem cerca de 13,8 bilhões de anos e que a vida está neste planeta há cerca de 3,5 bilhões de anos, e os seres humanos são criação relativamente recente no planeta. Então, parece-me que, certamente, havia predação animal, morte e sofrimento antes da queda humana. É notável que, quando se lê Gênesis 3 sobre a Queda, não há nada a sugerir ali que a morte animal e a predação sejam resultantes da Queda. As maldições sobre o homem e a mulher envolvem o labor e o esforço para viver da terra, com dificuldade e suor, além da dor na geração de filhos, mas não há nada a sugerir ali que a morte animal seja resultante da Queda. E, em Romanos 5, quando Paulo fala como a morte entrou no mundo por meio de Adão, espalhando para todos os homens porque todos pecam,[9] ele está falando claramente sobre seres humanos. Não vejo nenhuma razão para pensar que Adão não tenha esmagado um mosquito no seu braço antes da Queda, por exemplo. Assim, biblicamente falando, acho que não há nenhuma razão para pensar que a predação animal e o sofrimento resultem da Queda, mas esta alternativa está aberta, pelo menos, para o criacionista da terra jovem, o que não estaria aberto para mim.

Pergunta: Do ponto de vista da profecia, há inúmeras passagens no Antigo Testamento, a maioria em Isaías, falando sobre uma futura era de ouro em que o Messias judeu reinará sobre a terra no trono de Davi. Em Apocalipse, fala-se que durará mil anos; no Antigo Testamento, não há nenhuma menção de mil anos. Uma das características disto é a aparente reversão da chamada maldição na natureza, a saber: a criança brincará perto da toca da cobra, e o leão se deitará com o cordeiro.[10] Pois bem, é possível entender que a predação animal será removida e, neste caso, Deus encara isto como uma terra mais gentil e bondosa; se for assim, isto não daria mais crédito ao argumento de que, talvez, a predação não estivesse presente até a Queda? Se ele enxerga isto como uma terra mais gentil e bondosa, por que é que não a viu como uma terra mais gentil e bondosa antes?

Resposta: Certo. Isto poderia ser um argumento empregado a favor desta visão. Ou se poderia dizer que, uma vez que as pessoas tomaram a decisão a favor ou contra Deus, nos novos céus e na nova terra, que operam de acordo com diferentes leis da natureza, e não há mais decisões a serem feitas a favor ou contra Deus, ocorre um novo tipo de sistema de natureza que não envolverá isto e talvez não envolva o mesmo escopo para a autonomia humana que mencionei. Pelo contrário, vamos ter a visão de Deus e ver como ele é. Então, pode muito bem acontecer que a predação animal e o sofrimento serão removidos nos novos céus e na nova terra. Penso que é completamente possível.[11] Devo dizer, porém, que tenho cautela quanto a isto, por mais atraente que ache a proposta. Isto porque, como você disse, os judeus antecipavam este tipo de reino messiânico, e é provável que não antecipassem que significaria o fim do sofrimento animal e predação. Provavelmente, segundo penso, quando falam do leão a deitar-se com o cordeiro, trata-se de simbolismo para a paz que o reino messiânico trará. As nações estarão em paz umas com as outras, e este seria um modo de dizer que o reino do Messias será um reino de paz entre as nações, e a intenção era só ser uma expressão simbólica deste fato.

Continuação: Suponho que isto retorna, como a maior parte das discussões proféticas o fazem, em última análise, ao seu sistema de hermenêutica. Em outras palavras, seria alegoria, ou a intenção era ser entendido literalmente? Tendo a ser histórico-gramatical na minha hermenêutica e, por isso, tendo a entendê-lo literalmente.

Resposta: OK, acho que o método histórico-gramatical não é incompatível com a afirmação de que a Bíblia emprega metáforas.

Continuação: Ah, sim, com toda certeza ela faz [a Bíblia emprega metáforas]. É só uma questão de que algumas pessoas dirão que é metáfora, enquanto outras dirão que não. Onde demarcar o limite? A Bíblia está repleta de símbolos, tipos e metáforas.

Resposta: OK.

Pergunta: Isto não é bem uma pergunta, é só um comentário. Seria uma oportunidade, na discussão com ateus, caso tenham caído na armadilha, por um lado, de tentar dizer que não há valores morais objetivos e, ao mesmo tempo, queiram mencionar o sofrimento animal. Seria uma oportunidade de apontar para a contradição, neste caso.

Resposta: Muito bom! Está correto. A pessoa que insiste no problema do mal natural pressupõe que há algo objetivamente errado nesses comportamentos ou na natureza. Como é que o naturalista diz isto? Segundo o naturalismo, o que quer que seja está correto na natureza. Não se pode dizer que o crocodilo faz algo errado ao agarrar o cervo e arrastá-lo para o rio e comê-lo. É só natural. Assim, acho que fica difícil ao naturalista fornecer qualquer tipo de base objetiva a partir da qual ele possa dizer que seja algo errado. Talvez o melhor que ele pudesse fazer seria dizer: “Não creio em valores morais objetivos, mas você crê, cristão, e, por isso, você tem uma incoerência interna na sua visão. Você afirma que Deus é bom e amoroso e que, portanto, há o certo e o errado objetivos, mas, mesmo assim, você diz que ele faz isto. Por isso, você tem certa incoerência”. Mas, aí, fica bem difícil ao ateu mostrar que Deus não pode ter razão moralmente suficiente para permitir que isto ocorresse, que houvesse esse tipo de prelúdio evolutivo ao advento dos seres humanos.

Pergunta: Só queria responder à questão das interpretações rabínicas de Isaías sobre o lobo deitar-se com o cordeiro. São mistas. Como as interpretações cristãs têm uma ampla gama, assim também a têm as interpretações rabínicas. Sei que Maimônides, provavelmente o comentarista mais famoso, disse: sim, é metáfora. Ele não acredita que a natureza mudará de curso no mundo vindouro.[12]

Resposta: OK, obrigado; interessante.

Pois bem, isto encerra o nosso apêndice sobre criação e evolução. Levou bastante tempo, mas acho que é um estudo que vale a pena, tendo em vista a importância destas questões na cultura contemporânea.

Da próxima vez, passaremos a um novo locus e começaremos a investigá-lo.[13]

 


[1] 5:06

[2] Michael Murray, Nature Red in Tooth and Claw: Theism and the Problem of Animal Suffering (Oxford: Oxford University Press, 2008).

[3] 10:01

[4] 15:06

[5] 20:00

[6] 25:05

[7] 30:08

[8] Ver Murray, Nature Red in Tooth and Claw, capítulo 3: “Animal Suffering and the Fall”.

[9] Cf. Romanos 5.12-14.

[10] Cf. Isaías 11.6-8.

[11] 35:06

[12] “Ninguém pense que, nos dias do Messias, quaisquer leis da natureza serão postas de lado ou qualquer inovação será introduzida na criação. O mundo seguirá seu curso usual. As palavras de Isaías: ‘O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito’ (Is 11.6) devem ser entendidas figuradamente, no sentido de que Israel viverá com segurança entre os perversos dos pagãos...” — Maimônides, Misne Torá, livro 14, “Sefer Shoftim”, Hilchot “Melachim uMilchamot”, capítulo 12.

[13] Duração total: 39:19 (Copyright © 2013 William Lane Craig)