Criação e Evolução (Parte 20)

January 2, 2023

Pelos últimos tantos meses, fizemos um desvio para investigar a relação entre criação e evolução. Da última vez, defendi que os mecanismos explanatórios propostos para o darwinismo parecem-me inadequados para explicar a grandiosa história evolutiva da vida. Não se demonstrou que os mecanismos da mutação genética e da seleção natural tenham o tipo de poder para produzir a grandiosa mudança evolutiva que a teoria contempla. Portanto, tendo a ser cético quanto à teoria neodarwiniana com relação aos mecanismos. Suspeito que haja mais em ação aqui e que a história plena da origem da complexidade biológica não foi contada.

Discussão

Pergunta: Nos mecanismos do darwinismo, vemos ao nosso redor adaptação em todo tempo. A população geral diz: “Sim, vemos a mariposa pintada” e tudo mais. Quando o ambiente muda, certos aspectos desses animais levam vantagem e, portanto, parece que se adaptam. Mas nada disso está acrescentando informações. Elas já estão presentes. Nunca ouvi dizerem que, na evolução, informações são acrescentadas. É muito aparente que as informações no DNA já estavam presentes; os animais têm muito DNA do qual se adaptam, e a adaptação é a perda de informações, e não o seu acréscimo.

Resposta: Obrigado pelo comentário. Não sendo teórico da informação, não tenho nada de relevante a acrescentar. A questão, suponho eu, seria se as mutações poderiam ou não produzir informações adicionais que não estavam presentes originalmente.

Continuação: (fora do microfone) Não há nem uma mutação identificada que tenha acrescentado informações. Foi o que ouvi.

Resposta: Certo.

Pergunta: Onde acho que o darwinismo é fraco é que, quando se fala do aparecimento da vida, também é preciso haver o primeiro replicador: a capacidade de reproduzir. Igualmente, a explosão cambriana é algo que não acho que o senhor mencionou, mas é difícil explicá-la pelo darwinismo.

Resposta: Tratamos separadamente da questão da origem da vida e da evolução da complexidade biológica. O comentário que você fez sobre o mistério do primeiro replicador, nas suas palavras — a origem da própria vida —, é algo que permanece totalmente inexplicado pela biologia ou química contemporâneas. Simplesmente, não há nenhuma teoria viável da origem da vida à disposição hoje. Houve várias sugestões, mas nenhuma delas conseguiu explicar. Ora, a explosão cambriana me pareceria ser relevante à tese da ascendência comum. Não a mencionei quando falamos do assunto. Nas rochas cambrianas, aparecem todos os filos contemporâneos ou os principais grupos de animais. De fato, e tocando em comentário anterior, não apenas todos os filos existentes aparecem nos fósseis cambrianos, mas houve filos adicionais que já entraram em extinção. Assim, não é que, no decorrer do tempo, filos adicionais evoluíram, com grupos adicionais de animais. Quando muito, houve uma peneiração.[1] Todos os filos do reino animal aparecem no período cambriano e, então, acontece uma peneiração, à medida que alguns deles entram em extinção. Nas rochas pré-cambrianas, há pouquíssimos fósseis. Não há nada, a título antecipatório, como as trilobitas, que são animais incrivelmente complicados. Alguém disse, certa vez, que, caso se encontrasse um coelho, por exemplo, no período cambriano, isto seria refutação da evolução. Porém, um animal como uma trilobita é de complexidade comparável e, ainda assim, aparece no período cambriano. A resposta que se costuma dar é que os animais que existiam no período pré-cambriano eram de corpo mole e, portanto, não deixaram muitos fósseis. Porém, muitas pessoas acharão esta resposta implausível. Coisas como trilobitas e esse tipo de animal devem ter tido algum tipo de ancestral, caso não tenham sido criações especiais. Não poderiam, simplesmente, ter surgido imediatamente de criaturas de corpo mole. Assim, a chamada explosão cambriana seria um desafio à tese da ascendência comum de que todos os organismos vivos descenderam de algum ancestral primordial original. O que o criacionista talvez diga ser mais plausível é que Deus criou uma multiplicidade de origens da vida e que elas, então, evoluíram, de modo que se obteria uma espécie de floresta cheia de árvores, em vez de um único tipo de árvore evolutiva. Você está certo: acho que isso seria relevante, não tanto ao darwinismo quanto à tese da ascendência comum, que distingui do darwinismo.

Pergunta: Só quero fazer um breve comentário sobre as criaturas de corpo mole. Algumas das criaturas na explosão cambriana são, sim, de corpo mole. Um exemplo seriam os embriões de esponjas, que são as máximas criaturas de corpo mole e, ainda assim, só um pouco abaixo da era cambriana. Assim, se houve essas criaturas de corpo mole antes do período cambriano, por que é que, de algum modo, preservamos todos esses embriões de esponjas, mas não parece que preservamos todas as outras criaturas de corpo mole?

Resposta: Certo, e elas deixam fósseis, não é isso?

Continuação: Isso.

Resposta: OK!

Pergunta: Esperava que esclarecesse o seu argumento sobre as mutações bacterianas. Era muito complexo e pareceu bem interessante, mas eu só queria ter certeza de que todos entendemos o que queria transmitir. O meu entendimento era que o senhor estava dizendo que, embora haja milhões de mutações nas bactérias, jamais vimos uma transição que salta para bactérias diferentes. Será que eu estava completamente errado?

Resposta: Acho que essa afirmação é um pouco exagerada. Não penso que precisaríamos esperar ver esse tipo de mudança radical no nosso tempo de vida. Antes, o argumento de Michael Behe era que, quando se observa o organismo malárico — não é uma bactéria, é um organismo de célula única — e se observam as taxas nas quais ele se reproduz, caso a seleção natural e a mutação aleatória conseguissem atingir avanço significativo, o organismo malárico teria superado a hemoglobina da célula falciforme no corpo humano, que é em si mutação no sistema respiratório, e não no sistema imunológico humano. O sistema imunológico humano não conseguiu neutralizar a malária, e a malária não conseguiu vencer a hemoglobina falciforme. Por quê? Bem, Behe diz que é porque ou múltiplas mutações ocorreriam ao mesmo tempo ou uma sequência de mutações ocorreria em sucessão, sendo as duas coisas tão fantasticamente improváveis que não aconteceriam. Ele, então, compara isso com o vírus do HIV, que se multiplica ainda mais rapidamente do que a malária, e diz que o vírus do HIV, ao longo dos últimos 50 anos, replicou-se mais do que todas as células na história da vida neste planeta. Testaram todas as combinações de mutações de até seis pontos e, ainda assim, ele diz que não há mudanças ou avanços bioquímicos significativos no vírus. Assim, não é que o vírus mudou para algo diferente, mas não houve absolutamente nenhuma evolução bioquímica significativa. Igualmente, em relação aos experimentos de Lenski com bactérias, que é ainda um terceiro tipo de organismo que se replica muito rapidamente, o que Lenski descobriu foi que, embora haja dezenas de milhares de gerações deles, há acho que apenas umas vinte mutações benéficas (segundo me lembro), e todas elas envolveram a perda de informações genéticas, ou seja, uma degradação do genoma.[2] Assim, o argumento dele é que, contra Ayala e outros, que afirmam que a capacidade de vírus e bactérias de desenvolverem resistência a drogas por meio da mutação, não se trata de bom argumento, segundo o qual a mutação genética e a seleção natural podem explicar a grandiosa mudança evolutiva. Ele só mostra a capacidade de ter evolução limitada por meio de mutações simples que tornam esses organismos resistentes a drogas, mas extrapolar essas provas para o tipo de cenário evolutivo grandioso e dizer que um morcego e uma esponja evoluíram pelos mesmos mecanismos a partir de alguns ancestrais primordiais seria extrapolação para a qual não há absolutamente nenhuma prova. Era este o argumento de Behe, penso eu.

Síntese teológica

Chegamos agora, finalmente, após tantos meses, a algumas conclusões. No meu esboço, denomino esta parte de Síntese teológica. Tenho, no caso, dois subpontos.

Considerações científicas

O subponto 1 sob síntese teológica é considerações científicas. Como é que se pode integrar as provas científicas que examinamos com a narrativa de Gênesis? Parece-me que o chamado criacionismo progressivo forneceria um bom modelo a encaixar-se tanto com as provas científicas quanto com os dados bíblicos. O criacionismo progressivo sugere que Deus intervém periodicamente para fazer surgir, milagrosamente, novas formas de vida e, então, permite a ocorrência de mudança evolutiva em relação àquelas formas de vida. Quanto à grandiosa mudança evolutiva, ela não ocorreria com os mecanismos da mutação genética e seleção natural, caso não fosse dirigida por Deus. Antes, precisaríamos de atos criacionistas milagrosos da parte de Deus, intervindo no processo de evolução biológica para efetuar a grandiosa mudança evolutiva. Assim, precisaríamos ter uma espécie de criacionismo progressivo em que Deus cria a complexidade biológica ao longo do tempo.

Como é que se compatibilizaria tal visão com as provas a favor da tese da ascendência comum? Acho que esta doutrina poderia afirmar ou negar a tese da ascendência comum. Dependeria de se considerar ou não que esses atos de intervenção, da parte de Deus, seriam atos de criar algo ex nihilo — simplesmente a partir do nada, novo em folha. Por exemplo, haveria um lago sem nada e, de repente, alguns patos apareceriam do nada na superfície dele, milagrosamente criados por Deus. Tenho de confessar que, para mim, parece meio mágico para ser atraente. Percebi que, quando Deus cria na narrativa de Gênesis, ele usa a natureza. Ele diz: “Produza a terra os vegetais: plantas que deem semente e árvores frutíferas” e “Produza a terra seres vivos”.[3] Quando cria o homem, ele o cria do pó da terra.[4] Deus usa meios. Assim, pode muito bem ser verdade que Deus emprega formas de vida pré-existentes como a matéria-prima a partir da qual ele age por intervenção. Por exemplo, suponha que Deus quisesse criar aves. Bem, para criar aves, Deus poderia fazer surgir uma macromutação sistêmica, de modo que uma ave botaria um ovo réptil; ou, então, ele poderia produzir uma sequência de mutações em sucessão muito rápida para fazer surgir uma ave a partir de um réptil.[5] Algo assim jamais ocorreria segundo os mecanismos normais da mutação aleatória e da seleção natural. Seria também fantasticamente improvável que tais “monstros auspiciosos”,[6] como são chamados, aparecessem por acidente. Mas Deus poderia produzir um tipo de macromutação sistêmica num organismo que causaria grandiosa mudança evolutiva a ocorrer, consequentemente, ao longo do tempo. Isto explicaria as provas para um código genético comum em todos os seres vivos, bem como os traços de ascendência genética em coisas das quais falamos, quando vimos a tese da ascendência comum. Porém, igualmente explicaria por que não encontramos formas intermediárias no registro fóssil. Por haver essas intervenções criacionistas progressivas, a grandiosa mudança evolutiva não deixaria nenhum traço fóssil de formas intermediárias. Antes, o que esperaríamos encontrar seria a descontinuidade no registro fóssil.

Assim, algum tipo de visão criacionista progressiva, na minha opinião, explicaria as provas bastante bem. Permitiria afirmar ou negar, se assim preferir, a tese da ascendência comum, além de suplementar os mecanismos de mutação genética e seleção natural com a intervenção divina. Penso que algum tipo de criacionismo progressivo seja visão atraente.

Mais uma vez, quero reiterar que, nesta questão, eu sou como muitos de vocês: um leigo na ciência. Sou alguém com interesse nesses assuntos, quero aprendê-los, estudá-los com mais afinco e investigá-los mais a fundo. Assim, essas opiniões são mantidas de modo provisório e desprendido, estando sujeitas a revisão.

Discussão

Pergunta: Como isto difere do equilíbrio pontuado de Stephen Gould?

Resposta: Bem, ele não contempla intervenções divinas, mas seria semelhante no sentido de que não se esperaria encontrar as formas intermediárias, não é? Na visão dele, essas formas intermediárias seriam perdidas, porque ocorreriam em populações diminutas, de modo que haveria saltos no registro fóssil. Porém, segundo esta visão, haveria igualmente saltos no registro fóssil em decorrência dessas intervenções por parte de Deus. Assim, acho que explicaria as provas paleontológicas tão bem quanto a teoria dele, mas, obviamente, a explicação dele é naturalista e, portanto, ainda precisa depender desses mesmos mecanismos de mutação aleatória e seleção natural.

Pergunta: O senhor admitiria, então, que a sua teoria com descendência comum universal talvez, na verdade, demande mais intervenção divina do que, por exemplo, a criação direta sem a descendência comum universal? Por exemplo, temos as trilobitas: se elas têm de evoluir sobrenaturalmente a partir de uma criatura de célula única, em vez de ser criada diretamente, é preciso um monte dessas mutações direcionadas e, portanto, mais intervenção sobrenatural.

Resposta: Realmente, acho que está correto. Penso que o criacionista progressivo talvez seja mais intervencionista por pensar que, ao longo de todo o processo, Deus talvez estivesse fazendo essas coisas.

Continuação: Por exemplo, algo como o modelo de Behe, que tem essa descendência comum universal, mas mutações dirigidas por Deus — acho que é o que o senhor está sugerindo aqui —, em contraste com o modelo de Hugh Ross, que tem a criação direta de formas como a trilobita, sem ascendência.

Resposta: Certo. Vamos diferenciar esta visão do entendimento de Behe e também da visão de gente como Francis Collins. A visão que eles costumam de chamar de “evolução teísta” é, agora, denominada de “criacionismo evolutivo”. Entendo que a diferença entre criacionismo progressivo e criacionismo evolutivo é que o criacionismo evolutivo não acha que haja nenhuma intervenção. Ele não postula a ação divina milagrosa no processo causal ou na sequência de causas secundárias.[7] Os mecanismos explanatórios que operam na teoria convencional foram, simplesmente, os mecanismos escolhidos por Deus para trazer à tona a complexidade biológica. Assim, criacionismo progressivo não é a mesma coisa que evolução teísta, que, segundo entendo, é mais a visão de Behe. Acho que Behe não acredita haver essas intervenções milagrosas progressivas. Ele dirá, às vezes, que talvez a evolução tenha sido pré-carregada (é assim que ele expressa): ela foi toda inserida no começo e, então, desdobrou-se com o passar do tempo.

Continuação: Eu diferiria com base no livro The Edge of Evolution [O limiar da evolução]. Neste livro, Behe diz: “Creio na adição de um mecanismo à seleção natural e à mutação sem direção que eu denominaria de mutação direta”. Em certos pontos na história, Deus diretamente criou um monte de mutações em certas formas de vida que não poderiam ter sido produzidas por processos naturais.[8]

Resposta: Ok, isto representaria uma mudança do seu ponto de vista anterior. Não lembrava disto no livro The Edge of Evolution. De todo modo, seria mais como criacionismo progressivo.

Pergunta: Quando eu estava na aula de ciências na sétima série, aprendi a verdade da evolução e abandonei toda a minha fé completamente, porque ela explicava tudo que havia a explicar. Aprendi sobre o homem de Nebrasca, o homem de Piltdown e os embriões de Haeckel e todas essas coisas que eram verdades da ciência. E, com o passar do tempo, aprendi que essas coisas não eram verdades da ciência, e mesmo os cientistas aprenderam que aquilo em que criam cinquenta anos atrás não é o que creem hoje. Em que ponto se diz que aquilo que sabemos hoje é verdade? Ou será que o senhor tem dúvidas de que, em algum momento daqui a cinquenta anos, o que cremos ser verdade hoje não será verdade, mas a Bíblia é que é verdadeira?

Resposta: Penso que você está tocando numa questão muito boa. Penso que ninguém hoje negaria, por exemplo, a teoria de Harvey de que o sangue circula, o que foi uma descoberta científica. Assim, chega-se a um ponto em que algo é estabelecido com tanta força científica que é improvável que seja derrubado. Num caso assim, é por isso que quero atentar para as provas e, simplesmente, convidar o biólogo evolutivo a dizer quais são as provas para a eficácia desses mecanismos explanatórios para produzir grandiosa mudança evolutiva. Se ele não conseguir dar-nos nada além do que já vimos, penso que a teoria está a ponto de ser derrubada. Não podemos ter lá muito certeza dela. Assim, será tudo caso a caso. Não há uma regra geral, mas chega-se a um ponto em que algo está estabelecido com tanta força por uma diversidade de campos e muitos tipos de provas confirmatórias que, entretanto, o futuro da ciência pode avançar e, provavelmente, não será derrubado.

Pergunta: O que ia dizer sobre The Edge of Evolution? Será que Behe diz que algo como DNA descartado é, realmente, funcional para pré-carregar o processo?

Resposta: Quando ouvi Behe, inicialmente, ao nos conhecermos em Cambridge, ele dizia ao ser indagado qual seria a sua teoria do projeto inteligente que, talvez, essas informações hajam sido pré-carregadas na célula, no começo, e, então, simplesmente, desdobram-se com o tempo; o DNA descartado, embora ele não o tenha mencionado, talvez seja exemplo disso. Acontece que não é lá tão descartado, afinal, mas desempenha papel importante no genoma. Assim, ao menos àquela época, a sua visão era que não era preciso ter esse tipo de intervenção ao longo do caminho; tudo poderia ter sido pré-carregado, como ele o expressou.

Considerações teológicas

Certo, essas são as considerações científicas relevantes à elaboração de uma teoria que integre o material bíblico com as provas científicas. Agora, porém, quero passar, em segundo lugar, para algumas considerações teológicas. Então, o subponto 2 são as considerações teológicas.

Acho que as considerações teológicas são, nas mentes de muitas pessoas (cristãs ou não), tão importantes ou até mais importantes do que as considerações científicas, na avaliação do modelo criacionista progressivo, como eu o sugeri.[9] Hoje há uma espécie de aliança profana entre criacionistas da terra jovem e biólogos evolutivos naturalistas com o intuito de invalidar qualquer tipo de explicação que integre Deus e a biologia evolutiva. Tanto os criacionistas quanto os naturalistas concordam que o teísmo e a biologia evolutiva são incompatíveis. Os criacionistas concluem que a teoria evolutiva é, portanto, falsa, ao passo que os naturalistas concluem que, portanto, o teísmo é falso.

Assim, quais são os argumentos que convencem os dois lados de que a explicação criacionista progressiva não pode ser verdade? Bem, acontece que são, basicamente, versões do problema filosófico do mal. Não o problema do mal moral, mas o problema do mal natural. Considera-se que dois aspectos da evolução são incompatíveis com a existência de Deus: primeiro, as falhas na natureza e, então, em segundo lugar, a crueldade da natureza. Vamos falar das duas coisas.

Primeiro, permita-me dizer algo sobre falhas de projeto na natureza. No caso, o biólogo evolutivo ou o detrator do projeto mostrará que os chamados projetos na natureza são imperfeitos e falhos de diversos modos. Por exemplo, o polegar do panda não é algo projetado para ser um polegar, mas é uma espécie de dedo ou dígito que evoluiu para funcionar como um polegar. Ou, no olho humano, por causa do nervo óptico a penetrar a retina, os seres humanos têm um ponto cego no nosso campo visual em que não podemos ver, em razão do buraco na retina criado pelo nervo óptico. Há toda sorte de falhas de projeto que costumam ser mostradas pelos teóricos evolutivos naturalistas.

Pois bem, creio haver diversos modos para o teólogo cristão responder. Primeiro, ele pode questionar a suposição de que essas falhas alegadas sejam mesmo falhas. Considere, por exemplo, essa afirmação comum de que a localização do nervo óptico no olho humano é falha. Será que Deus teria, de fato, uma boa razão biológica para projetar o olho assim? Bem, acontece que sim, deveras. Conforme explica Michael Denton, microbiólogo da Nova Zelândia, a diferença na localização do nervo óptico no olho humano, em comparação com o olho cefalópode, que é um olho cameral nas lulas. É muito semelhante ao olho humano, mas não tem o ponto cego visual, pois o nervo óptico não atravessa a retina. A diferença na localização do nervo óptico no olho humano, em comparação com o olho cefalópode, dá-se por causa da necessidade de maior suprimento de oxigênio em animais de sangue quente. Assim, acontece que essa suposta falha não é nenhuma falha. É algo benéfico a animais de sangue quente, como nós. Repetidas vezes, os cientistas descobriram que aquilo que, inicialmente, pensavam ser falhas no projeto da natureza, após entenderem melhor, não vem a ser absolutamente nenhuma falha.

Mas suponhamos que haja falhas que pareçam decorrer da seleção natural. Tudo bem! Não é nenhum problema para o criacionista progressivo. Embora o criacionista especial normalmente mantenha que as diferentes espécies em Gênesis tenham sido criação especial de Deus, na ordem da família ou na ordem biológica, eles concedem que a evolução assumiu o comando dali em diante. Assim, por exemplo, talvez digam que Deus criou o ancestral comum dos Ursidae (a família dos ursos). E, desse ancestral primordial de ursos, as diferentes espécies de ursos se desenvolveram. Hoje há oito diferentes espécies de urso. Não é nenhuma surpresa que uma dessas espécies tenha evoluído com o chamado polegar do panda, que, às vezes, é apregoado como falha de projeto.[10] Quase não é preciso dizer que os teólogos não necessitam adotar o criacionismo especial, mas, caso aceitem a tese da ascendência comum, não se surpreenderiam nem um pouco que os organismos exibissem a marca do projeto dos seus ancestrais.

Por isso, acho que este argumento a partir das falhas de projeto não é objeção teológica muito séria. Muitas dessas chamadas falhas não vêm a ser falhas; mesmo que o sejam, não constituem nenhum problema para o criacionista progressivo ou até para o criacionista especial que imagina ter a evolução ocorrido dentro de certas espécies.

O que, então, podemos falar do segundo problema: comportamentos animais que nos parecem cruéis? Mais uma vez, até os criacionistas que aceitam a evolução dentro de espécies amplas, permitindo mudanças aos organismos, não ficarão surpresos. Por exemplo, bactérias patogênicas ou produtoras de doenças eram antes organismos livres que evoluíram para virar parasitas patogênicos. Mais uma vez, não é que Deus criou esses parasitas, inicialmente; eles eram organismos livres e independentes que, então, evoluíram para tais bactérias patogênicas. O sequenciamento genômico revelou que se trata de uma espécie de involução, resultante de uma enorme perda de genes: a perda de informação genética produziu essas bactérias patogênicas. Assim, a evolução limitada poderia produzir todo tipo de atividades e estruturas dentro da natureza que nos podem parecer cruéis.

Ora, obviamente, este apelo à evolução limitada dentro de diversas espécies não vai aliviar o problema geral do sofrimento animal. No seu livro Nature Red in Tooth and Claw [Natureza rubra nos dentes e nas garras],[11] Michael Murray faz distinção entre três níveis de consciência de dor no mundo animal. O nível 3, que é o mais baixo, são simplesmente os estados neurais portadores de informação que são produzidos por estímulos nocivos levando a comportamento aversivo. Seriam, simplesmente, atividades neurais que levam a comportamento aversivo: cutuca-se uma ameba com uma agulha, e ela se retrai. Porém, a ameba não tem nenhuma experiência de dor; ela apenas reage a estímulos nocivos. Em nível superior, o nível 2, está a consciência de dor que ocorre em animais sencientes. Assim, cavalos, cães e gatos têm a experiência de dor. Seria um tipo de experiência subjetiva de dor em primeira ordem que animais sencientes teriam. Porém, no nível mais alto, estaria um tipo de consciência de ordem superior de que se está experimentando o nível 2, a autoconsciência de estar experimentando dor no nível 2.

O que Murray indica é que, embora animais como aranhas, insetos e assim por diante demonstrem o terceiro nível ou o nível mais baixo de consciência de dor ou reação a estímulos, não há nenhuma razão para atribuir qualquer consciência de dor no nível 2 a esses organismos. Este nível de consciência de dor não acontece até se chegar ao nível dos vertebrados no reino animal. No entanto, embora os vertebrados e animais superiores experimentem a dor no nível 2, não há provas de que experimentem o nível 3 — a autoconsciência de sofrer —, pois os animais não são seres autoconscientes. Conforme o expressou muito bem o filósofo alemão Immanuel Kant, eles não conseguem colocar “Penso que...” à frente dos seus estados de consciência do mesmo modo em que o fazemos. O animal não diz: “Penso que esta seja minha tigela de comida” ou “Penso que farei isto ou aquilo”. Os animais não são egos e, portanto, não têm esse tipo de autoconsciência no nível 1.[12]

Por isso, a pessoa contrária ao modelo criacionista progressivo teria de mostrar que os animais são autoconscientes, a fim de atribuir-lhes este nível de consciência em terceiro nível. Porém, simplesmente não há nenhuma prova biológica de que os animais tenham esse tipo de autoconsciência. Biologicamente, a autoconsciência parece estar conectada, de algum modo, com o córtex pré-frontal do cérebro, que está ausente ou subdesenvolvido em todos os outros animais, com exceção dos primatas humanoides: os primatas superiores como gorilas, chimpanzés e assim por diante. Portanto, ainda que os animais experimentem a dor, eles não têm consciência de sofrerem. Deus, na sua misericórdia, aparentemente poupou os animais da consciência de que eles próprios estão sentindo dor.

Ora, isto é tremendo consolo àqueles que temos animais de estimação, pois quer dizer que, mesmo que o seu cão ou gato esteja sofrendo, ele não está consciente de que está sofrendo. Portanto, o seu cão ou gato não sofre da mesma forma que você, quando experimenta a dor, porque você tem esta autoconsciência do primeiro nível de estar em estado de dor, algo que o animal não tem.

Isto tem implicações enormes para o problema do sofrimento animal, na minha opinião, como já podem ver. Falaremos destas implicações quando nos reunirmos da próxima vez. Então, encerraremos toda esta discussão.[13]


[1] 5:10

[2] 10:20

[3] Cf. Gênesis 1.11,24.

[4] Gênesis 2.7.

[5] 15:22

[6] Richard Goldschmidt originalmente cunhou o termo “monstro auspicioso” [hopeful monster], no seu livro The Material Basis for Evolution [A base material da evolução], em 1940. Goldschmidt defendeu que grandes mudanças evolutivas foram causadas por macromutações, ou seja, em vez de mutações graduais a acontecer ao longo de gerações, mudanças macroevolutivas foram causadas por uma mutação complexa de passo único atuante em embrião em desenvolvimento. As suas ideias de “monstro auspicioso” foram controversas na sua época e, para muitos, ainda o são hoje.

[7] 20:12

[8] “Se a mutação aleatória é inadequada, obviamente (uma vez que a descendência comum com modificação parece fortemente ser verdade), a resposta deve ser mutação não-aleatória... Concluo... que os sistemas elegantes, coerentes e funcionais dos quais dependem a vida são o resultado do projeto inteligente deliberado... embora alguns pensadores religiosos contemplem a intervenção continuada ativa na natureza, o projeto inteligente é bastante compatível com a visão de que o universo opera pela lei natural ininterrupta, com o projeto de vida talvez empacotado no seu arranjo inicial” — Michael J. Behe, The Edge of Evolution: The Search for the Limits of Darwinism (Nova Iorque: Free Press, 2007), pp. 165-166.

[9] 25:04

[10] 30:00

[11] Michael Murray, Nature Red in Tooth and Claw: Theism and the Problem of Animal Suffering (Oxford: Oxford University Press, 2008).

[12] 35:02

[13] Duração total: 37:04 (Copyright © 2013 William Lane Craig)