Criação e Evolução (Parte 19)
January 2, 2023Nas nossas lições, andamos pensando sobre o paradigma evolutivo contemporâneo. Vimos que um aspecto deste paradigma é a afirmação da tese de ascendência comum. Da última vez, disse que, na minha avaliação, parecia-me que as provas relacionadas à tese da descendência comum eram mistas. Enquanto as provas genéticas pareciam dar amparo à ideia da descendência comum, as provas fósseis ainda pareciam ir de encontro a ela.
Discussão
Pergunta: Posso ter perdido algo, mas... toda esta discussão genética parecia-me o melhor argumento para um projetista comum... Com tudo que se observa no mundo, é possível dizer, de maneira geral (caso seja minimamente importante), que há um projetista. Uma vez que se conhece a obra do projetista, pode-se ver, de maneira geral, as características da obra do projetista, numa longa corrente de artifícios ou projetos. Por exemplo, um arquiteto talvez tenha o hábito de incluir este pequeno espaço ou esta característica específica em toda casa ou edifício que projeta. Isto me parece o que todas as provas que o senhor deu amparam: um único projetista.
Resposta: Certo. Como disse da última vez, uma forma de responder a esta semelhança genética entre todos os seres viventes é que ela mostra, como você falou, uma característica no projetista de projetar as coisas de determinada maneira. Penso, porém, honestamente, que a resposta é menos persuasiva quando se trata do que partilhei sobre esses pseudogenes, genes quebrados que sofreram mutação de tal modo que se tornaram inoperantes, não tendo mais a sua função original. E eles se reproduzem em organismos que, segundo se pensa, descenderam dos anteriores. E, como disse, seria difícil ver por que, por exemplo, um projetista automotivo reproduziria, digamos, um macaco quebrado de um modelo de carro que, na verdade, não vai levantar o carro, de modo que não se consiga trocar o pneu. Por que reproduzir o macaco quebrado em outro modelo? Quando se trata de algo assim, parece (pelo menos, na minha opinião) indicar que poderia ser o resultado de algum tipo de relação genética entre os dois, que um descendeu do anterior e, assim, essas características quebradas se repetem. Por isso, embora eu pense ser uma resposta possível à semelhança genética que observamos, parece-me menos persuasivo em relação a esses pseudogenes.
Pergunta: Parece que avançamos muito na genética, mas parece que ainda temos muito a avançar. E dizer que saber o que um gene faz e não faz, necessariamente, parece prematuro. Basta ver todo o domínio de codificação e comunicação: parece poder haver múltiplos níveis disso dentro da estrutura do DNA. Assim, dizer, absolutamente, que se trata de gene quebrado pode ser presunçoso.
Resposta: Concordo. Boa observação. Sem dúvida, a descoberta de que o DNA descartado tenha, de fato, uma função talvez seja uma lição a dizer que devemos ter cautela. Há ainda esses genes mestres que foram descobertos e, simplesmente, ligam e desligam os demais; antes, pensava-se que eram afuncionais.[1] Isso deveria servir de alerta. Acho que você está certo.
Pergunta: … Acho que temos de concordar que a limitação do nosso conhecimento diz que a semelhança não prova a descendência. Não podemos dizer: “Aha! Veja só! São semelhanças, o que prova, portanto, a descendência”. Penso que o argumento do outro lado é, no mínimo, tão forte ou até mais de que a única semelhança é o projetista semelhante. É o mesmo projetista.
Resposta: OK. É, basicamente, parecido com o argumento anterior.
Pergunta: Porém, será que não há nada mais à genética, além de apenas a semelhança dos genes, tal qual o acréscimo de informação genética que seria necessário para que uma espécie evoluísse para outra? Igualmente, no que diz respeito à genética, será que o naturalista não deveria conseguir provar que as mutações são uma força para a mudança positiva dentro do organismo, ao passo que parece ao leigo que a maioria das mutações é nociva?
Resposta: Tudo bem, agora, permita-me dizer algumas coisas em resposta. Não se trata de debate entre naturalistas e teístas. Não penso que queremos formular a questão assim. Estamos olhando a questão da perspectiva teísta e perguntando: “Como será que Deus fez surgir a complexidade biológica?”. Será que ele empregou organismos anteriores como ancestrais daqueles que se desenvolveram posteriormente, ou será que os organismos são criados do princípio, de novo?[2] Assim, não se trata de debate entre naturalismo e teísmo, na minha opinião. Porém, a outra coisa que queria dizer é que, segundo penso, as observações que você faz sobre o efeito deletério da maioria das mutações são, realmente, relevantes para o terceiro ponto que quero discutir a seguir: os mecanismos explanatórios por trás da mudança evolutiva. Você está sugerindo que esses mecanismos não servem de explanação adequada por causa do que você mencionou: o efeito sobrepujante e debilitante das mutações. Penso que a sua observação está, realmente, abordando aquilo que vamos discutir, e não a tese da ascendência comum, que seria apenas que as coisas que observamos hoje descenderam de organismos vivos anteriores.
Pergunta: Voltando à questão dos pseudogenes, quando Fuz Rana esteve aqui,[3] perguntei-lhe a respeito dos pseudogenes. O seu comentário foi que, sim, sem dúvida, parece descendência comum, mas é preciso ter em mente que se trata de inferência e baseia-se em certos pressupostos. Um pressuposto é que esses genes, realmente, não têm função, mas talvez eles a tenham (repetindo o que alguém disse antes). A outra coisa que ele indicou, que me pareceu interessante, foi que, caso se olhe esses pseudogenes, eles têm a mesma mutação que os quebra. Parece que isto advém de ancestral comum e que a cadeia quebrada é herdada. Fuz estava sugerindo que, talvez, em alguns desses pseudogenes, eles tenham certos pontos cruciais que os tornam mais suscetíveis a mutações, e talvez seja mera coincidência que duas espécies diferentes tenham a mesma mutação, o que talvez nem fosse tão improvável assim.
Resposta: OK. Bem, seria uma afirmação ousada excluí-la como mera coincidência.
Extrapolação científica
Quais, então, são as provas a favor do darwinismo que, vocês vão lembrar, definimos como a afirmação ou a tese de que a seleção natural a operar segundo mutações aleatórias explica a grandiosa mudança evolutiva? Antes de atentarmos especificamente para as provas, acho que vale a pena enfatizar qual extrapolação extraordinária o darwinismo envolve. Muitos de nós, provavelmente, pensamos que, se a mutação aleatória e a seleção natural pudessem explicar, por exemplo, a evolução do cavalo a partir de um pequeno animal polidáctilo até chegar ao belo animal com casco único que nós vemos hoje, isto realmente seria forte prova da eficácia desses mecanismos darwinianos.[4] Porém, na realidade, dentro de uma única espécie como esta, isto não é nada comparado à vasta amplitude de vida. Bem, talvez se pense que, caso pudéssemos mostrar que a mutação aleatória e a seleção natural explicassem, por exemplo, como um morcego e uma baleia puderam evoluir de um ancestral comum, sem dúvida, seria mostrado o poder desses mecanismos evolutivos. Pois bem, quero convidá-los a pensar de novo. Aqui, quero mostrar nosso primeiro slide de PowerPoint [ver Figura 1]:

Figura 1 – Filogenia metazoária
Neste slide, é possível ver os diversos filos ou grupos principais do reino animal. Ora, observe o grupo superior, com o morcego e a baleia sendo mamíferos. É só uma das subcategorias dos cordatos. Então, ao lado de répteis e aves, estão esses mamíferos que pertencem a esse único filo dos cordatos. Por isso, mesmo a evolução de um morcego e de uma baleia a partir de um ancestral comum se constitui total trivialidade, em comparação com a vasta amplitude do reino animal. Nada faria para explicar, por exemplo, como um morcego e um ouriço-do-mar (que, como veem, pertence a outro filo) poderiam evoluir a partir de um ancestral comum, sem falar do morcego e da esponja (que está em filo ainda mais distante). Portanto, a extrapolação desses mecanismos explanatórios a partir da nossa experiência limitada para o tipo de grandiosa história evolutiva se trata de extrapolação em proporções colossais. Se tal extrapolação lhes é de tirar o fôlego, vejam só o próximo slide [ver Figura 2]:

Figura 2 – Árvore universal da vida[5] [5]
Todo o slide anterior que acabamos de ver, mostrando os diferentes filos do reino animal, todo ele está contido no pequeno galho do ramo à direita, sob Eukarya, onde se diz “Animais”. Animais! Amo a modéstia desse rótulo: o reino animal inteiro, todos os filos que vimos anteriormente, toda aquela diversidade, estão contidos naquele pequeno ramo chamado “Animais”. Observe um pouco à direita desse galho que há outro galho rotulado de “Plantas”. Plantas! A totalidade do reino das plantas está contida nesse pequeno galho. E esses são apenas dois galhos no ramo dos eucariotas, animais que possuem células com um núcleo interno. Há ainda outros dois domínios das bactérias e das Arqueias a serem levados em conta. A extrapolação da eficácia desses mecanismos darwinianos a partir de experimentos em mariposas pintadas, bicos de tentilhões verdadeiros e mosquitos de fruta para a produção de toda criatura viva se constitui extrapolação de tirar o fôlego, extrapolação esta de proporções colossais, abismais.
E sabemos que, na ciência, tais extrapolações costumam falhar. Para dar uma ilustração de um campo que conheço bem: depois que desenvolveu a sua Teoria Especial da Relatividade, em que buscou eliminar o movimento absoluto e uniforme em favor do movimento simplesmente relativo, Albert Einstein tentou enunciar um princípio geral de relatividade que, também, relativizaria a rotação e a aceleração absolutas, de modo que todo o movimento — não apenas o movimento uniforme, mas até mesmo o movimento rotacional e acelerado — também seria relativizado a quadros de referência. Contudo, de fato, esta extrapolação fracassou. Ele não conseguiu enunciar com sucesso um princípio geral de relatividade que eliminaria a rotação e a aceleração absolutas.[6] Antes, o que ele descobriu foi uma nova teoria radical da gravidade, o que foi a sua maior façanha. A Teoria Geral de Relatividade não é bem uma teoria relativista, no sentido de eliminar a aceleração e a rotação absolutas. Trata-se de teoria gravitacional que enuncia uma nova teoria da gravidade a substituir a teoria de Newton. Assim, na realidade, embora Einstein tenha obtido sucesso limitado na Teoria Especial, eliminando o movimento uniforme absoluto, calhou que o princípio não pôde ser extrapolado para relativizar todo o movimento. Igualmente, somos compelidos a perguntar, na minha opinião, no caso desses mecanismos de mutação aleatória e seleção natural: “Quais são as provas favoráveis a esta extrapolação extraordinária a partir do desenvolvimento limitado que vemos através da mutação e da seleção natural para o grandioso cenário evolutivo?”.
Mecanismos da evolução biológica
Típicas das provas propostas a favor desses mecanismos darwinianos são coisas como a experiência de criadores ao reproduzirem novos tipos de rosas, por exemplo, ou de cavalos. Os experimentos com mariposas pintadas, na Inglaterra, nos quais as mariposas claras e escuras variavam a sua respectiva proporção da população de mariposas com base na quantidade de poluição industrial que escurecia as árvores naquele país. E, então, o desenvolvimento, por parte de bactérias, em relação a drogas: as mutações que fazem com que as bactérias se tornem resistentes a drogas, de modo que temos de desenvolver novas drogas para combatê-las, já que mutaram de tal maneira que ficaram resistentes às drogas existentes.
Permitam-me tocar de leve em cada um desses pontos. O destacado biólogo evolutivo Francisco Ayala, que citei anteriormente, apela para a experiência dos criadores ao produzir novas variedades de cães e rosas, por exemplo, como prova da eficácia desses mecanismos de mutação aleatória e seleção natural. Penso, porém, que se pode ver com clareza que tal experiência nada faz para justificar a extrapolação desses mecanismos para a produção da grandiosa história evolutiva da vida. De fato, muito pelo contrário: a experiência de criadores tende a mostrar os limites desses mecanismos, na medida em que os criadores topam com limites além dos quais não podem produzir a variedade desejada. Por exemplo, apesar de décadas de esforços, criadores jamais conseguiram fazer com que galinhas botem mais do que um ovo por dia. Assim, a prática de criação mostra, na realidade, os limites do que a seleção natural e a mutação aleatória conseguem realizar.
Ayala também apela para os famosos experimentos das mariposas pintadas. Porém, tudo que aconteceu neste caso foi que a proporção de mariposas de cor clara na população diminuiu, e a proporção de mariposas de cor escura aumentou. Entretanto, as mariposas de cor clara jamais evoluíram para mariposas de cor escura. Por isso, considerando isto tudo como prova do poder da seleção natural e da mutação aleatória para produzir grandiosa mudança evolutiva — honestamente, chamar de irrisória a tal prova seria elogiá-la além do que merece.
Ayala também apela para os bicos dos tentilhões de diferentes tamanhos que Darwin observou na sua visita às ilhas Galápagos. Mais uma vez, porém, assim como as mariposas pintadas, no caso, nada jamais evoluiu de verdade. Só acontece que a proporção de tentilhões com os bicos grandes aumentou durante a estiagem ou período seco — conseguiram sobreviver melhor — e a proporção com bicos pequenos diminuiu, pois eram menos aptos a sobreviver no clima seco. Entretanto, uma vez que as chuvas voltaram, as proporções normais de bicos na população de tentilhões retornaram, à medida que aumentava a população.
Ayala também menciona a especiação que ocorre mosquitos de fruta no Havaí.[7] Trata-se de caso interessantíssimo. As ilhas havaianas são extremamente isoladas e, por isso, tendem a estar seladas de influências externas. É por isso que não há, por exemplo, mamíferos indígenas no Havaí. Ainda assim, aproximadamente quinhentas espécies de mosquitos de fruta existem nas ilhas havaianas. Um quarto de todas as espécies de mosquitos de fruta a existirem no mundo — são cerca de 2 mil no mundo inteiro — estão nesta área minúscula nas ilhas havaianas. As provas apontam para a ascendência e evolução comuns delas, à medida que mutaram e evoluíram para uma diversidade de espécies. Creio que podemos concordar que estas provas, com toda plausibilidade, apontam para a ascendência e evolução comuns delas, além de concordar que isto se situa bem dentro dos limites do que esses mecanismos darwinianos conseguem realizar. Porém, mais uma vez, dificilmente conseguem justificar a enorme extrapolação do poder desses mecanismos para produzirem o grandioso cenário evolutivo. Tudo que temos, no caso, é apenas a especiação de mosquitos de fruta nas ilhas.
Por último, Ayala apela para a capacidade dos organismos de desenvolverem resistência a drogas e resistência a venenos mediante mutação e seleção aleatória. Ele indica como uma dupla mutação de improbabilidade inaceitável — em que a mutação precisaria ocorrer simultaneamente em dois lugares na estrutura genética — pode ocorrer, um passo de cada vez. Assim, embora seja de improbabilidade inaceitável dizer que é possível obter dupla mutação, simultaneamente, ela pode ser alcançada passo a passo para produzir mudança cumulativa, tal qual a produção de bactérias resistentes a drogas. Daí, ele extrapola este processo para explicar a mudança macroevolutiva. Obviamente, porém, a pergunta que estamos fazendo aqui é a seguinte: “Será que os mecanismos podem ter sucesso ao serem extrapolados deste modo?”. Na sua obra mais recente, The Edge of Evolution [O limiar da evolução],[8] Michael Behe defende que as próprias provas do desenvolvimento de resistência a drogas por parte de organismos são forte indicação dos limites daquilo que a mutação aleatória e a seleção natural podem alcançar em relação à mudança evolutiva. Por exemplo, Behe explica que a malária e o sistema imunológico humano travam guerra um contra o outro há mais de dez mil anos. Desde o advento da ciência moderna, os seres humanos têm desenvolvido drogas antimaláricas para tentar destruir o organismo malárico. Infelizmente para nós, a população malárica é enorme. A pessoa comum infectada com malária tem mais de um trilhão de células de malária no próprio corpo. Portanto, a malária sofre mutação com extrema rapidez. Consequentemente, tem conseguido desenvolver resistência a toda droga que jogamos contra ela. Mutações simples, em ponto único, são suficientes para tornar a malária resistente a drogas. Por exemplo, Behe diz que uma mutação em um aminoácido no ponto 108 no genoma humano basta para tornar a malária resistente à droga da pirimetamina.[9] Por outro lado, há enorme pressão seletiva sobre o sistema imunológico humano para desenvolver algum tipo de defesa contra a malária, mas ele não o fez. O sistema imunológico humano não conseguiu desenvolver uma defesa contra a malária. Antes, o que aconteceu, diz Behe, foi que uma mutação se deu no sistema respiratório humano, e não no sistema imunológico. Houve uma mutação no nosso sistema respiratório que torna algumas pessoas imunes à malária — a saber, a hemoglobina falciforme.[10] Infelizmente, o lado negativo é que isto também produz a anemia falciforme, que é, enfim, mortal.
É aí que a história fica bastante interessante. Apesar da sua incrível taxa de mutação que possibilitou à malária superar toda droga que jogamos contra ela, a malária jamais, em todos esses milhares de anos e trilhões de mutações, conseguiu superar a hemoglobina falciforme. A biologia molecular explicar o porquê. A resistência a uma droga pode decorrer de uma simples mutação em ponto único. Porém, superar a hemoglobina falciforme demandaria múltiplas mutações simultâneas ou, então, uma sequência de mutações a ocorrerem cegamente, que são muito improváveis de ocorrer. Consequentemente, a hemoglobina falciforme não foi jamais superada pela malária. As mutações exigidas são, simplesmente, improváveis demais.
O HIV fornece outro estudo de caso. O vírus do HIV sofre mutação dez mil vezes mais rapidamente do que a malária, para se ter ideia. Só nos últimos cinquenta anos, o vírus da AIDS sofreu mutações tanto quanto todas as células que jamais existiram na terra. Conseguem imaginar? Tentou todas as combinações possíveis de até seis mutações pontuais simultâneas, tornando-se resistente a toda droga que desenvolvemos. Behe, porém, diz: “Ainda assim, apesar de tudo isto, não houve absolutamente nenhuma mudança bioquímica básica significativa no vírus... Ao nível bioquímico funcional, o vírus está como que completamente cravado na terra”.[11] Behe conclui: “Os estudos de malária e HIV proporcionam, de longe, as melhores provas diretas do que a evolução pode fazer”.[12] Diz ele:
… Temos, no caso, estudos genéticos por milhares e milhares de gerações, de trilhões de trilhões de organismos, e pouquíssima relevância bioquímica para mostrar... A nossa experiência com o HIV dá bom motivo para pensar que o darwinismo não faz muita coisa, mesmo com bilhões de anos e todas as células no mundo ao seu dispor.[13]
Por fim, estudos recentes sobre a bactéria E. coli produziram resultados semelhantes. Richard Lenski e os seus colegas liberaram, recentemente, seus dados sobre estudos de E. coli nos quais pesquisaram 40 mil gerações de E. coli crescidas no laboratório. Descobriram que, embora houvesse certo número de mutações benéficas (e isto remete a uma questão anterior) que ocorreram nessas bactérias E. coli, tais mutações foram de natureza degradadora ou degenerativa. Ou seja, elas envolveram a perda de informação genética ou a perda de função proteica. Foram benéficas, mas resultaram na perda de informação genética. Assim, não há nenhuma indicação de que essas bactérias estivessem rumo a construir novos sistemas complexos. A obra de Lenski alinha-se muita bem com os resultados das descobertas da malária e do HIV. Em enormes números de tentativas, veem-se mudanças mínimas, em sua maior parte degradadoras, mas não se desenvolve nenhum novo sistema complexo.
Ora, a malária, o HIV e a E. coli representam três formas de vida fundamentalmente distintas. O organismo malárico é eucariota, isto é, trata-se de organismo que possui núcleo.[14] O HIV é um vírus. E. coli é bactéria, um procariota, que não possui núcleo. Assim, temos, no caso, três formas de vida fundamentalmente distintas: um eucariota, um vírus e um procariota. E, em cada exemplo, as provas para a eficácia dos mecanismos darwinianos são as mesmas: simplesmente, não fazem nada demais. Cito a seguir o blogue de Michael Behe:
Em vez de imaginar o que o poder da mutação aleatória e da seleção consiga fazer, podemos olhar exemplos do que fez. E, quando vemos os exemplos melhores e mais claros, os resultados são, para dizer o mínimo, deveras modestos. Reiteradas vezes, vemos que as mutações aleatórias são incoerentes, tendendo muito mais a degradar um genoma do que a acrescentar-lhe — e estas são as mutações aleatórias “benéficas”, selecionadas positivamente.[15]
Diz ele: “Não há nenhuma prova de que os processos darwinianos possam dar os múltiplos passos coerentes e necessários para o novo maquinário molecular... que preencha a célula”.[16] Assim, o argumento a partir da capacidade dos organismos de desenvolverem resistência a drogas parece sair pela culatra, pura e simplesmente. Longe de oferecer provas do poder dos mecanismos darwinianos para produzir grandiosa mudança evolutiva, a experiência de cientistas com a resistência a drogas em bactérias e vírus, bem como na malária, revela os limites severos de tais mecanismos.
Assim, pergunto novamente: onde estão as provas para a extraordinária extrapolação que o darwinismo implica? Behe diz que as provas para a descendência comum parecem convincentes. Ele afirma a tese da descendência comum que discutimos. “... as provas para a descendência comum parecem convincentes… porém, com exceção da periferia da vida, as provas para o papel central das mutações aleatórias são terríveis”.[17] Se Behe está errado neste ponto, simplesmente quero saber: quais são as provas? Estou genuinamente aberto, mas onde estão elas? Quais são as provas que justificariam esta grandiosa extrapolação evolutiva?
Tenho de dizer que quando eu, enquanto observador objetivo, olho as provas, parece-me que ainda não nos foi mostrada nenhuma boa razão para pensar que esses mecanismos darwinianos bastam para explicar a extraordinária diversidade de vida que vemos neste planeta, durante a quantidade de tempo disponível.
No seu livro The Anthropic Cosmological Principle [O princípio cosmológico antrópico], os físicos John Barrow e Frank Tipler elencam dez passos, no decorrer da evolução humana, tal como o desenvolvimento da fotossíntese, o desenvolvimento do endoesqueleto e assim por diante.[18] Dez passos no decorrer da evolução humana, cada um deles tão improvável que, antes de que pudesse ocorrer, o sol cessaria de ser uma estrela sequencial importante e incineraria a terra. Incluídas nesses passos estão coisas como o desenvolvimento de um código genético baseado no DNA, a evolução da respiração aeróbica, a evolução da fermentação da glicose em ácido pirúvico, o desenvolvimento do endoesqueleto e assim por diante. Dez passos no decorrer da evolução humana, cada um deles tão improvável que, antes de ocorrerem, o sol teria percorrido todo o curso da sua evolução estelar, incinerando a terra. Consequentemente, eles relatam que “se desenvolveu um consenso geral entre os evolucionistas de que a evolução da vida inteligente, comparável na capacidade de processamento de informações à do homo sapiens, é tão improvável que não poderia ter ocorrido em nenhum outro planeta no universo visível inteiro”.[19] Assim, de acordo com Barrow e Tipler, o consenso dos próprios biólogos evolutivos é de que a evolução de vida inteligente é tão improvável que não pode ter ocorrido em nenhum outro lugar no universo visível inteiro. Isto, porém, leva à pergunta óbvia: por que pensar que ela evoluiu neste planeta, seguindo esses mecanismos darwinianos?[20] De fato, será que as provas não sugerem exatamente o oposto? De fato, o próprio Tipler agora acredita que o processo de evolução deve ter sido guiado por algum tipo de inteligência.
Assim, como resumir tudo isto? Bem, sou bastante cético quanto a esses mecanismos da teoria darwiniana da evolução biológica. Penso que a história toda ainda não foi bem contada. Por isso, mesmo que a tese da ascendência comum seja verdadeira, esses mecanismos que, até então, foram sugeridos parecem inadequados para explicar a complexidade biológica que temos hoje. Há algo mais acontecendo aqui que vai além da mera mutação aleatória e da seleção natural.[21]
[1] 5:03
[2] “De novo” é expressão latina para “renovado” ou “do princípio”. No campo da genética, “de novo” pode referir-se a uma mutação genética que nenhum genitor possuía nem transmitiu ao organismo-filho.
[3] O Dr. Fazale “Fuz” Rana é membro da organização “Reasons To Believe” [Razões para crer] (http://www.reasons.org) e, recentemente, foi à igreja do Dr. Craig para apresentar as suas ideias sobre criacionismo e evolução. Este questionador refere-se a tal visita do Dr. Rana..
[4] 10:20
[5] Este diagrama da “árvore universal da vida” vem de Francisco J. Ayala, Darwin and Intelligent Design (Mineápolis, MN: Fortress Press, 2006), p. 42. A raiz da árvore rotulada de “LUCA” corresponde a “Last Universal Common Ancestor” [Último Ancestral Universal Comum].
[6] 15:03
[7] 20:02
[8] Michael J. Behe, The Edge of Evolution: The Search for the Limits of Darwinism, (New York, NY: Free Press, 2007).
[9] Ibid., p. 75.
[10] 25:05
[11] Ibid., p. 139.
[12] Ibid., p. 140.
[13] Ibid., pp. 140, 154-155.
[14] 30:03
[15] Michael Behe, “Response to Kenneth R. Miller”, 11 de julho de 2007, postagem de blogue em http://behe.uncommondescent.com/2007/07/response-to-kenneth-r-miller/ (acesso em 16 de abril de 2013).
[16] Behe, The Edge of Evolution, p. 162.
[17] Ibid., pp. 3-4.
[18] John Barrow e Frank Tipler, The Anthropic Cosmological Principle (Oxford: Clarendon Press, 1986), pp. 561-565.
[19] Ibid., p. 133.
[20] 35:07
[21] Duração total: 36:16 (Copyright © 2013 William Lane Craig)