Criação e Evolução (Parte 18)

January 2, 2023

Andamos discutindo como integrar o nosso entendimento bíblico da criação e do mundo com o paradigma evolutivo científico contemporâneo. Vocês vão se lembrar que, da última vez, vimos que há três características principais do paradigma evolutivo contemporâneo. A primeira é a descendência com modificação: os organismos vivos descendem de organismos anteriores com modificações. A segunda seria a reconstrução da árvore evolutiva, mostrando como todos os organismos vivos se relacionam uns com os outros como ramos de ramos de ramos, até que se retorne a um único ancestral primordial. Por fim, temos os mecanismos explanatórios da mutação aleatória e da seleção natural como a explicação para o desenvolvimento evolutivo. O que queremos analisar em mais detalhe agora é a tese da ascendência comum: que todos os organismos vivos descendem de algum ancestral primordial. Deixaremos de lado, por ora, o terceiro ponto: a questão dos mecanismos. Aqui, queremos, simplesmente, atentar para o primeiro ponto: será verdade que as provas amparam a ideia de que todos os organismos partilham de uma descendência comum?

Ascendência comum

No caso, parece-me, como busquei analisar do modo mais objetivo possível, que as provas parecem mistas. As provas mais fortes a favor da tese da ascendência comum derivam da semelhança genética de praticamente todos os seres vivos. Quase todos os organismos vivos partilham do mesmo código genético ou DNA. De fato, é notável como os organismos são semelhantes uns aos outros no seu DNA. Além disso, a semelhança genética entre organismos corresponde às suas posições na árvore evolutiva da vida. Organismos que são do mesmo ramo da árvore são muito mais semelhantes uns aos outros, geneticamente, do que organismos em ramo diferente da árvore. Por exemplo, um morcego e uma baleia são muito mais semelhantes, geneticamente, do que um morcego e um lagarto, ou um morcego e uma esponja.

O criacionista especial poderia responder a isto dizendo que Deus, simplesmente, empregou o mesmo plano de projeto repetidas vezes, ao criar as formas biológicas de vida. A semelhança genética de organismos diversos não implica que um evoluiu do outro. Para dar uma analogia: a Ford e a GM empregam o mesmo tipo de plano de projeto para manufaturar os seus automóveis, mas isto não implica que um Chevrolet evoluiu de um Ford. Simplesmente, têm planos de projeto semelhantes. Talvez se possa dizer que Deus usou, repetidas vezes, o mesmo plano básico de projeto, a saber: o mesmo tipo de estrutura genética para os diferentes organismos distintos que ele criou. Não havia nenhum motivo para reinventar a roda a cada vez que ele criou novos organismos.

Penso que seja uma possibilidade. Porém, parece mais plausível dizer que a semelhança genética de todos os seres vivos se deve à correlação de uns com os outros. Por exemplo, em artigo recente pelo geneticista populacional Dennis Venema, da Trinity Western University,[1] ele especifica três fenômenos genéticos que são difíceis para o criacionista especial explicar. Permitam-me compartilhar esses três fenômenos que ele identifica.

Primeiramente, diz ele, a profunda semelhança genética entre organismos é muito mais excessiva do que o que se exige para que o DNA produza aminoácidos e proteínas semelhantes que regessem os tipos de organismos produzidos.[2] O código genético permite 64 diferentes combinações dos seus elementos. Pode-se combinar os diferentes elementos do código genético em 64 diferentes combinações. Porém, essas diferentes combinações produzem apenas 20 aminoácidos. Assim, há uma espécie de redundância aqui: o mesmo aminoácido pode ser produzido por diversas combinações diferentes do código genético. Existem 64 diferentes combinações, mas apenas 20 aminoácidos resultantes. Por isso, o mesmo aminoácido pode ser produzido por diferentes combinações dos elementos do código. Assim, para que dois organismos partilhem de segmentos semelhantes de aminoácidos, sendo, pois, geneticamente semelhantes, eles não precisam ter essa profunda semelhança estrutural no nível do código genético. Ainda assim, reiteradamente, vemos que os organismos que, segundo se pensa, são correlatos, compartilham não apenas sequências semelhantes de aminoácidos, mas semelhança mais profunda de combinações do código genético. Esta desnecessária semelhança mais profunda seria explicável, caso os organismos partilhassem de ascendência comum e, portanto, de código genético comum. Ela seria, porém, sem motivo, caso cada um fosse criação especial.

O segundo fenômeno que Venema indica é que a organização dos genes de organismos correlatos[3] sugere uma ascendência comum. A organização dos genes deles, na sua opinião, ampara a ascendência comum. As duas espécies que, segundo se pensa, divergiram recentemente de um ancestral comum não têm só muitos dos mesmos genes, mas também a mesma ordem ou sequência desses genes. Esta semelhança de ordenamento não é necessária para que os organismos tenham planos ou funções corpóreos semelhantes. Podem ter os mesmos genes e, portanto, planos e funções corpóreos semelhantes, mas não precisam ter a mesma ordem. Ainda assim, eles a têm! A criação especial parece deixar esta semelhança sem motivo, ao passo que a ascendência comum a deixaria inteligível. Partilham da mesma ordem dos genes, por descenderem um do outro.

Por fim, o terceiro fenômeno é que a presença dos chamados pseudogenes partilhados em organismos correlatos sugere descendência comum. Um pseudogene é sequência genética caduca que foi desativada por meio da mutação. Foi, outrora, uma sequência genética funcional, mas uma mutação ocorreu e a desativou, de modo que, agora, é caduca. Organismos que, segundo se pensa, são bastante correlatos parecem ter os mesmos pseudogenes afuncionais, até na mesma ordem, embora esses genes caducos não façam nada em nenhum dos organismos. Tal semelhança faria sentido, dada a ascendência comum, mas é difícil explicar por que Deus reproduziria em um organismo as partes quebradas do outro organismo. Para tomar emprestado a analogia automotiva mais uma vez, é difícil ver por que o projetista reproduziria, em um modelo automotivo, uma maçaneta afuncional de outro modelo.

Estes argumentos estão longe de serem convincentes, ficando aquém de demonstrar algo tão avassalador quanto a tese da ascendência comum: que todos os organismos vivos descendem de um único ancestral primordial. Mesmo assim, penso que tornam a criação especial deveras ad hoc ou forçada, à luz das provas. Assim, as provas genéticas são, na minha opinião, uma das melhores provas a favor da tese da ascendência comum.[4]

Discussão

Pergunta: No livro de Denton, Evolution: A Theory in Crisis [Evolução: uma teoria em crise],[5] (ele está neste campo também como médico, bem como microbiólogo de formação), ele argumenta que, ao subir e descer a complexidade dentro de uma família, o espaçamento genético permanece o mesmo, até para organismos radicalmente diferentes em morfologia, período gestacional e taxa de mutação, de modo que isto depõe contra ser este fenômeno acidental, em vez de criação especial, porque o sequenciamento não muda.

Resposta: Não é a mesma coisa que o segundo argumento feito por Venema, conforme citei? O ordenamento desses genes parece sugerir ascendência comum.

Continuação: Talvez, por um lado, mas, por outro lado, era de se esperar que, como os períodos gestacionais eram diferentes, a morfologia era diferente e as taxas de mutação eram tão enormemente diferentes, fosse possível ver algum movimento, contração ou algo assim, desde o organismo original. Ë o lado negativo, em oposição a isto. É uma espada de dois gumes; então, por que isto não muda, se esses organismos são tão enormemente diferentes nessas áreas?

Resposta: OK, esse é o livro de Michael Denton, Evolution: A Theory in Crisis, certo?

Continuação: Sim, estou tirando tudo da minha memória, porque faz muito tempo que o li.

Resposta: Sim, eu também.

Pergunta: Acho que o uso dos genes não é nada diferente da discussão das semelhanças morfológicas. Fomos até os genes e dissemos: “Se eu fosse o projetista, não teria feito isto; portanto, Deus não teria feito isto”. Acho que as explicações aqui são: “Pois então, veja bem, existe aí algo caduco, e não sabemos muito bem o que está fazendo, mas está nas duas coisas; por isso, se Deus fosse projetista perfeito, ele não teria feito isso, porque, se estivesse a projetar, não teria feito isso”. É baita de uma besteira.

Resposta: Acho que a sua observação é boa. A crítica, no caso, parece se basear na visão de que não há nenhuma motivação para que o projetista ou criador tenha feito isto. E isto quer dizer que se está especulando sobre motivações e o que motivaria um projetista a fazer isto. Quando chegamos a este ponto, parece muito conjectural, não é mesmo? Especular sobre quais possíveis motivações o projetista poderia ter, por exemplo, para usar as mesmas combinações de códigos genéticos a fim de produzir esses diferentes aminoácidos. Acho que a sua observação é boa.

Pergunta: Algo que realmente me incomoda: no livro de Francis Collins, ele defende que ratos e humanos evoluíram da mesma ascendência, pois há esse pseudogene em ratos e humanos que parecia funcionar, mas, no meio do caminho, em algum momento, simplesmente foi interrompido, e se encontra na região do DNA descartado, e isto é prova de ascendência comum.[6] Pois bem, suponho que, se você concorda com ele que é, literalmente, um meio-gene interrompido (o que parece ser totalmente especulativo), literalmente na região de descarte que não viria a ser DNA funcional, talvez seja prova, mas eu negaria que seja, literalmente, uma região de descarte.

Resposta: Sim, e Venema argumenta assim: não façam equivalência entre pseudogenes e DNA descartado. Aparentemente, não são exatamente a mesma coisa. E admita-se que a esperança do criacionista especial pode ser de que talvez haja algumas funções encontradas para esses pseudogenes nesses organismos superiores.

Continuação: Só estou dizendo que, quando as provas são expostas assim, há muita forçação da conclusão já na apresentação das provas. Parece haver muita circularidade, no caso.[7]

 

Permitam-me passar para o próximo ponto. Sugeri que as provas genéticas são, provavelmente, as melhores provas a favor da tese da ascendência comum. Por outro lado, as provas fósseis vão de encontro à doutrina da ascendência comum.

Quando Darwin propôs a sua teoria, um dos pontos mais fracos era que não há organismos hoje que se situem entre outros organismos como formas transitórias entre si. Não vemos formas transitórias entre os animais vivos hoje. Elas são mais como as folhas na copa de uma árvore, e não vemos os galhos e ramos que levam a essas folhas: vemos apenas as folhas na copa. Darwin respondeu a esta objeção dizendo que esses animais transitórios existiram todos no passado e, em algum momento, seriam descobertos. No entanto, os paleontólogos escavaram muitos restos fósseis de animais extintos, desde que Darwin publicou A origem de espécies e, de maneira geral, não encontraram essas aguardadas formas transitórias. Pelo contrário, o que encontraram são só animais e plantas mais distintos que se extinguiram; por assim dizer, seriam simplesmente mais folhas na copa da árvore, mas já extintas. Os ramos e galhos comuns a ligá-los não foram encontrados, em geral.

Há, de fato, certas formas transitórias como o arqueoptérix, uma ave que exibe certas características reptilianas, como garras nas asas e dentes no bico. Porém, é importante entender que, quando biólogos evolutivos ou paleontólogos falam de formas transitórias, empregam esta palavra de modo peculiar, assim como vimos a forma em que a palavra “aleatório” foi usada, não querendo dizer “acaso”. “Forma transitória” não quer dizer “forma intermediária entre alguma forma anterior e uma forma posterior observada hoje”. Não é isto que “forma transitória” quer dizer. Forma transitória é, simplesmente, um organismo a exibir características de diferentes tipos de organismos. Por exemplo, o arqueoptérix é chamado de forma transitória por exibir características aviárias e reptilianas. Assim, neste sentido, é transitório. Porém, de fato, não é bem transitório no sentido de ser uma forma intermediária. Abaixo, temos um slide de PowerPoint a ilustrar a evolução das aves. [Ver Figura 1 abaixo.]

Figura 1 – A evolução das aves

O que vocês verão é que o arqueoptérix, de fato, não evolui para aves modernas! Simplesmente, entra em extinção. Não se trata de uma transição dos répteis para os pássaros modernos. Os pássaros modernos se originam em ramo da árvore bem separado. Além disso, os dinossauros emplumados não estavam em vias, aparentemente, de virar aves. Eram apenas répteis que desenvolveram penas e, em algum momento, entraram em extinção. Assim, nem o arqueoptérix nem os dinossauros emplumados são formas intermediárias das aves modernas. Veja bem: não se sabe realmente de onde vieram as aves modernas neste gráfico. Por isso, são transitórios apenas no sentido de que exibem características de outros tipos de vida. O arqueoptérix tem características tanto reptilianas quanto aviárias. Igualmente, os troodontídeos são dinossauros (répteis), mas têm penas. A alegação, portanto, é que eles têm um ancestral comum que ainda não foi encontrado. Assim, são transitórios em certo sentido, mas não são transitórios no sentido de intermediários no caminho rumo a estas formas de vida modernas.

Ademais, se a tese da ascendência comum estiver correta, não estamos falando de haver algumas formas transitórias, como o arqueoptérix. Antes, conforme diz Michael Denton no seu livro, deveria haver, literalmente, milhões e milhões dessas formas transitórias no registro fóssil.[8] Pensem, por exemplo, em todas as formas intermediárias que teriam de existir para que um morcego e uma baleia descendessem de um ancestral comum. Ainda assim, eles não existem. Além disso, um morcego e uma baleia são, na realidade, bastante correlatos na árvore evolutiva da vida, por serem tanto os morcegos quanto as baleias mamíferos. Ambos são vertebrados. Penso quantas formas transitórias teriam de existir para que um morcego e uma esponja descendessem do mesmo ancestral. Assim, este problema, simplesmente, não pode ser desconsiderado, dizendo-se que não escavamos o suficiente. As formas transitórias não foram encontradas porque não parecem existir. Tal ausência seria compatível com as versões da tese da ascendência comum que apelam para saltos no desenvolvimento evolutivo, de modo que não se encontrariam formas transitórias, mas contraria as versões que são gradualistas no seu desenvolvimento.

Assim, parece-me que os dados concernentes à ascendência comum são mistos. Penso que as provas genéticas dão, sim, amparo à tese da ascendência comum, mas as provas fósseis tendem a depor contra ela. Assim, o nosso veredicto final buscará responder como podemos resumir estas provas, de modo a melhor explicá-las.[9]

 

 

[1] Dennis R. Venema, “Genesis and the Genome: Genomics Evidence for Human-Ape Common Ancestry and Ancestral Hominid Population Sizes”, Perspectives on Science and Christian Faith, Volume 62, no. 3, setembro de 2010, pp. 166-178. A cópia virtual deste artigo pode ser encontrada em: http://www.asa3.org/ASA/PSCF/2010/PSCF9-10Venema.pdf (acesso em 20 de agosto de 2013).

[2] 5:23

[3] Venema emprega o termo “sintenia” para rotular este fenômeno. Ele diz: “Sintenia é termo técnico para a conservação da ordem genética em cromossomos entre parentes” (Ibid., p. 167).

[4] 10:03

[5] Michael Denton, Evolution: A Theory in Crisis (Chevy Chase, MD: Adler & Adler, Publishers, Inc., 1986).

[6] Francis S. Collins, The Language of God: A Scientist Presents Evidence for Belief (Nova Iorque: Free Press, 2006), pp. 135-137.

[7] 15:02

[8] 20:03

[9] Duração total: 22:05 (Copyright © 2013 William Lane Craig)