Criação e Evolução (Parte 17)
December 10, 2022Da última vez, falávamos da probabilidade de aminoácidos se unirem para formar uma única molécula proteica funcional. Disse que Steve Meyer, no seu livro Signature in the Cell [Assinatura na célula], estimou que é uma chance em 1064 — um número absurdamente pequeno para se obter, não uma célula viva, mas sequer uma única molécula funcional de proteína. O rapaz que transcreve os podcasts do curso Defenders procurou a referência e disse: “Bill, você deu o número errado e deixou algo fora. O número real é de uma chance em 10164!”. Assim, eu errei por cem ordens de grandeza! Isto enfatiza ainda mais o quão incrivelmente improvável é a origem da vida com base somente no acaso.
Evolução da complexidade biológica
Da última vez, falamos como a vida veio a originar-se, e eu disse que não haveria nada cientificamente impróprio em aceitar a declaração de Francis Crick de que a origem da vida, neste planeta, era um milagre, ou seja, que ela, de fato, representava uma intervenção por parte de Deus na ordem natural das coisas para trazer à existência a vida biológica. Obviamente, porém, a existência da vida em si é apenas o começo do processo. O que queremos indagar, agora, é a evolução da complexidade biológica. Vivemos numa biosfera fantasticamente complexa de animais, plantas e outros organismos, e o que queremos perguntar é como nós, como cristãos, devemos considerar a evolução da complexidade biológica no nosso planeta.
Distinguir os diferentes sentidos de “evolução”
Parte da dificuldade na avaliação da teoria evolutiva contemporânea é que a palavra “evolução” é como um acordeão. Ou seja, o seu sentido pode ser expandido ou contraído, dependendo do contexto, podendo, assim, significar diferentes coisas em diferentes contextos.
No seu livro Darwin’s Gift to Science and Religion [O presente de Darwin para a ciência e a religião],[1] o preeminente biólogo evolutivo Francisco Ayala distingue três aspectos do paradigma evolutivo contemporâneo. O primeiro é o que ele denomina de “evolução”. O que é a evolução de acordo com esta primeira definição? Ele diz que se trata do processo de mudança e diversificação dos seres vivos ao longo do tempo; ou, basicamente, a ideia de que os organismos vivos descenderam de organismos anteriormente vivos, com modificações — descendência com modificação. É o que os biólogos querem dizer, afirma Ayala, quando falam que a evolução é um fato. Diz ele que, quando os biólogos afirmam ser a evolução um fato, eles se referem, simplesmente, ao processo de mudança e diversificação de seres vivos, ao longo do tempo. Como entender este ponto? Esta definição de evoluçã0 é tão ampla que se torna inócua. Obviamente, seres vivos mudam e diversificam-se ao longo do tempo. Se isto é tudo que os biólogos querem dizer, quando afirmam que a evolução é um fato, ninguém se importará em questioná-los. Até mesmo os mais conservadores dos criacionistas da terra jovem afirmarão a evolução neste sentido: as coisas mudam e diversificam-se ao longo do tempo. Mas acho que Ayala, provavelmente, pretende dizer mais com esta definição de evolução do que, simplesmente, a mudança e diversificação dos seres vivos, ao longo do tempo. Penso que ele, provavelmente, considera que implica o que podemos chamar de a “tese da ascendência comum” ou, abreviadamente, TAC.[2] Esta seria a perspectiva de que todos os seres vivos descendem de um único ancestral primordial. Assim, quaisquer organismos, além dos primeiríssimos, descenderam de organismos anteriores com mudanças. Esta afirmação é muito mais significativa. Implicaria que existe uma espécie de árvore evolutiva da vida, por assim dizer, a descrever como as coisas vieram a ser e diversificar-se. E esta única árvore evolutiva da vida remonta a um único ancestral primordial. Assim, a tese da ascendência comum negaria que há uma multiplicidade de tais árvores com a multiplicidade de ancestrais primordiais. A tese da ascendência comum diria que há, simplesmente, uma única árvore evolutiva da vida e que todos os seres vivos descenderam de alguns ancestrais primordiais. Esta tese, na minha opinião, demandaria significativamente mais provas do que a afirmação inócua de que as coisas mudam e diversificam-se ao longo do tempo.
A segunda parte do paradigma evolutivo contemporâneo que Ayala identifica é o que ele denomina de “história evolutiva”. Trata-se da reconstrução da árvore universal da vida, mostrando como as diversas linhagens ramificaram-se umas das outras ao longo do tempo. Observe que esta segunda afirmação, da história evolutiva, pressupõe a tese da ascendência comum. Pressupõe que existe uma árvore universal da vida, em vez de múltiplas árvores evolutivas. Ayala explica que a evolução, neste segundo sentido, é uma questão de grande incerteza. Diz ele:
Infelizmente, ainda há muito, mas muito mesmo, a ser descoberto. Para reconstruir a história evolutiva, temos de saber como os mecanismos operam em detalhe, e temos apenas a ideia mais vaga do modo em que operam no nível genético, do modo em que a mudança genética se relaciona com o desenvolvimento e a função... A minha implicação é que aquilo que seria descoberto seriam não apenas detalhes, mas alguns princípios significativos.[3]
Como Ayala crê na tese da ascendência comum, ele aceita que há uma árvore evolutiva universal, mas reconhece que os cientistas não conseguiram reconstruí-la. Uma das razões que ele dá para o nosso fracasso em construir a história evolutiva é a nossa incapacidade de entender a evolução no terceiro sentido, a saber: os mecanismos que impulsionam a mudança evolutiva. Voltemo-nos para este terceiro aspecto do paradigma evolutivo contemporâneo, que são os mecanismos da mudança evolutiva.
Segundo o professor Ayala, nem a descendência com modificação (número 1) nem a história evolutiva (a tese da descendência comum) representam a contribuição singular de Charles Darwin à teoria evolutiva. Contrariamente à impressão popular, as teorias evolutivas da vida e a tese da ascendência comum foram propostas amplamente, antes de Darwin, sendo bem conhecidas antes da teoria de Darwin. Antes, a contribuição de Darwin, diz ele, está na sugestão de alguns mecanismos explanatórios para o processo evolutivo, a saber: a seleção natural em operação nas variações aleatórias nos seres vivos. É este mecanismo que Darwin propôs para explicar a adaptabilidade dos organismos ao seu ambiente, sem a necessidade de uma inteligência a projetá-los. Ayala escreve:
A maior proeza de Darwin foi mostrar que a complexa organização e funcionalidade de seres vivos podem ser explicadas em decorrência de processo natural — a seleção natural —, sem qualquer recurso a um Criador ou outros agentes externos.[4]
Com o desenvolvimento da genética moderna, as mutações genéticas vieram a suplementar o mecanismo proposto por Darwin da seleção natural, oferecendo um meio de atingir a variação entre os seres vivos.[5] Mediante mutações em organismos vivos, surge a variedade a partir da qual a seleção natural pode, então, operar. Assim, pudemos chamar este terceiro ponto de “neodarwinismo”. O neodarwinismo será a proposta de que os mecanismos a impulsionar o desenvolvimento evolutivo são a seleção natural e a mutação genética. Apesar da sua profunda admiração por Charles Darwin, fica evidente a partir do que já disse que Ayala pensa termos apenas o entendimento mais vago dos mecanismos a impulsionar a mudança evolutiva. Escreve ele:
Os mecanismos a explicar estas mudanças ainda estão sendo investigados...[6] A evolução de organismos é aceita universalmente por cientistas biológicos, enquanto os mecanismos da evolução estão ainda sob investigação ativa, sendo assunto de debate entre cientistas.[7]
Acho que vocês conseguem, portanto, ver como é equivocado quando escritores populares afirmam ser a evolução um fato comprovado, aceito universalmente entre os biólogos. Só é verdade no sentido de número 1: descendência com modificação ou, no máximo, a tese da ascendência comum. Porém, a evolução nos sentidos segundo e terceiro da palavra não é fato aceito. Segundo Ayala,
O segundo e o terceiro problema — a busca por determinar a teoria evolutiva e explicar como e por que se dá a evolução — são questões de investigação científica ativa. Algumas conclusões são bem estabelecidas... Muitas questões são menos certas, outras são conjecturais e outras ainda... continuam amplamente desconhecidas.[8]
Por isso, quando avaliamos o paradigma evolutivo contemporâneo e indagamos se ele é verdadeiro ou não, precisamos, na minha opinião, ter bem claro em nossas mentes qual aspecto do paradigma estamos a discutir. Do contrário, é possível confundir facilmente as pessoas, ao comutar os sentidos da palavra “evolução”’; neste caso, está-se simplesmente cometendo equívoco, e não se falando da mesma coisa. Quando avaliamos este paradigma evolutivo, asseguremos que temos certeza de qual aspecto dele estamos discutindo. Do contrário, estamos fadados a levar à confusão e mal-entendido.
Discussão
Pergunta: Só queria perguntar se o progresso era inerente a este tipo de evolução.
Resposta: Não. Pense na primeira definição. Ela diz, simplesmente, mudança e diversificação. Não implicaria, necessariamente, progresso. Não implicaria, necessariamente, o aumento de complexidade. Seria possível haver um tipo de involução. De fato, quando se pensa a este respeito, é possível vê-la em alguns animais. Por exemplo, as salamandras que vivem em cavernas que agora perderam a visão e são cegas porque ela não é mais necessária para sobreviver em tal ambiente. Assim, acho que o progresso não é inerente. Entretanto, de novo, é aí que, na cultura popular, a evolução costuma ser entendida como se envolvesse a ideia inerente de que as coisas estão melhorando cada vez mais, a todo tempo, em vez de simplesmente mudando a todo tempo. Penso que, no caso, estão-se introduzindo valores — juízos de valor — sobre diferentes estados, e isto demanda algo mais do que apenas o processo evolutivo. É preciso haver algum tipo de fundamento transcendente de juízo e avaliação.[9]
Continuação: “Adaptabilidade” seria, então, uma palavra melhor?
Resposta: Parece-me que a adaptabilidade se relacionaria mais de perto com a seleção natural sob os mecanismos. Os organismos que passam por mutações a fazê-los menos adaptáveis ao seu ambiente tenderão a ser selecionados para a exclusão. Tampouco tenderão a sobreviver, ao passo que a mutação que ajuda um organismo a adaptar-se melhor às suas condições tenderia a ser selecionado positivamente para a sobrevivência.
Pergunta: Às vezes, ouvimos de microevolução e macroevolução: evolução dentro da espécie e espécie em evolução. Como é que isto se relaciona ao que o senhor está discutindo?
Resposta: Como a terminologia de macro e microevolução se relacionam? Eu usava esta terminologia no passado para descrever a mudança evolutiva limitada, como se vê, por exemplo, na produção de rosas e na procriação de cães. Vê-se este tipo de diversificação e mudança a ocorrer dentro de limites. Eu a contrastava com a evolução como uma espécie de cenário grandioso a descrever a história evolutiva. O meu entendimento, contudo, é que se trata, na verdade, de um uso errado dos termos, e que não deveríamos fazer isto. Microevolução refere-se à evolução dentro da espécie, e tudo acima da evolução da espécie seria macroevolução. Embora seja necessário um termo para diferenciar as duas coisas, parece que macro e micro não são a terminologia correta. Podemos falar, porém, de coisas como a tese da ascendência comum como se indicasse o que queremos dizer, por exemplo, com a mudança macroevolutiva, ou algo assim.
Pergunta: Quero voltar ao passo um. Ele é aceito? Nós o aceitamos porque uns descenderam dos outros? Existe sequer alguma prova de que haja uma árvore da vida, em que um descendeu do outro? Lembro-me da gafe de Berra, em que ele disse que os Corvettes descendiam de outros veículos. Um projetista comum teria dado semelhança, mas não descendência.
Resposta: Bem, você está adiantando o assunto. Falaremos da tese da ascendência comum em breve. Você está se referindo ao caso bem famoso de um sujeito chamado Berra (não Yogi, mas outra pessoa); nos círculos do projeto inteligente ou criacionistas, a gafe de Berra refere-se à tentativa, por parte deste teórico, de defender a evolução indicando algo como a evolução do Ford Mustang ao longo dos anos.[10] Lembram como o Mustang, quando começou, era esse carrinho e, então, foi ficando cada vez mais sofisticado ao longo dos anos, e ele disse que isto ilustra a evolução. Mas é óbvio que isto não ilustra nem um pouco a evolução! Esses modelos posteriores não evoluíram dos modelos anteriores; eles foram construídos a partir de projetos semelhantes, e os projetistas automotivos posteriores, em vez de projetar o novo modelo do Mustang do zero, utilizaram um modelo semelhante de projeto. Por isso, não havia nenhuma ascendência comum; pelo contrário, o que a ilustração da evolução do Ford Mustang mostrou foi exatamente o oposto, a saber: é possível existir semelhança sem ascendência. Dito isto, porém, sem dúvida, acho que temos provas, em esferas limitadas, deste tipo de mudança e diversificação que se dá ao longo do tempo. Mencionei, por exemplo, o sucesso que criadores têm em reproduzir rosas híbridas ou cães e cavalos de diferentes tipos. Assim, a ideia de que organismos mudam e diversificam-se ao longo do tempo, na minha opinião, é algo aceito amplamente, podendo ser, de fato, observado e produzido por nós. Se, como eu disse, isto quer dizer que a tese da ascendência comum é verdadeira, trata-se de tese muito mais abrangente que demandaria muitíssimo mais provas. Vamos discuti-la mais adiante.
Continuação: Voltamos, então, ao micro e macro: vemos muitíssimas provas de modificação dentro de uma espécie, mas não vemos cavalos virarem chimpanzés. Simplesmente, não vemos.[11]
Resposta: Sim, você está fazendo a mesma pergunta sobre micro versus macro. O que queremos perguntar é quão abrangente seria este tipo de descendência com modificação e, especialmente, se seria universal, como sustenta a tese da ascendência comum. São estas as questões que queremos abordar, e o faremos mais adiante.
Pergunta: Em relação às provas de descendência com modificação ou semelhanças entre as espécies, há o que se chama de genes homólogos. Quando se mapeia o genoma dessas sequências de ácidos nucleicos, é possível encontrar semelhanças, e não apenas semelhanças, mas sequências abrangentes idênticas. Uma vez encontrados esses genes, caso se retire o gene de um rato, por exemplo, e se reinsira material genético (o que chamamos de tipo genético material selvagem que não é modificado) de um humano ou cão naquele rato, será possível resgatar o efeito da retirada daquele gene. Assim, há provas de que acontece a conservação de sequências genéticas entre coisas tão diversas quanto uma ave e um rato.
Resposta: OK. Vamos falar disto com mais detalhes quando chegarmos à tese da ascendência comum, mas acho que você tocou numa questão que seria a prova mais potente a favor da tese da ascendência comum, ou seja, as provas genéticas, o que é extremamente interessante, sendo também o fundamento probatório para afirmar algo como a ascendência comum. Falaremos disto mais adiante.
Pergunta: Sei que estou me antecipando, mas o senhor vai vincular tudo isto à queda?
Resposta: Não ia. Você está perguntando se vou vincular tudo isto à queda do homem, e entendo que isto inclui coisas como o Adão histórico. Eu não ia. Eu ia avaliar estas teses e indagar como nós, enquanto cristãos, podemos ter uma espécie de cosmovisão sinóptica que levasse em conta as descobertas da ciência moderna, mas também levasse a Bíblia a sério. Mas eu não ia dizer nada acerca da queda, embora isto tenha virado um assunto acalorado ultimamente.
Pergunta: Não sei se já tratou do assunto antes, mas vai chegar a falar do afunilamento genético? Sei que há pesquisas que remontam ao passado mais distante, quando parecia haver muitas pessoas e, de repente, parece que aconteceu alguma catástrofe, o que afunilou a um pequeno grupo que, depois, expandiu-se de novo.
Resposta: Isto se relaciona à questão anterior sobre o Adão histórico, porque há afirmações recentes muito debatidas entre geneticistas cristãos e outros biólogos acerca das provas genéticas da evolução humana serem ou não compatíveis com um casal humano original, ou, como você apontou, acerca da população remontar a um afunilamento que leva a não menos do que algumas milhares de pessoas, expandindo-se novamente depois; neste caso, a população humana nunca foi inferior a alguns milhares naquele afunilamento, dezenas de milhares de anos atrás. É algo que gera um debate acalorado atualmente. Não pretendia abordar o assunto neste curso.[12]
[Alguém menciona que um representante do ministério Reasons to Believe (Razões para crer) virá à Igreja de Johnson Ferry.]
Observemos com mais detalhes os diferentes aspectos do paradigma evolutivo contemporâneo. Uma vez que o segundo aspecto — a saber, a teoria evolutiva — é, simplesmente, o desdobramento dos pontos 1 e 3, não vou tratá-lo especificamente. Prefiro concentrar-me nas teses 1 e 3 — em particular, a questão da tese da ascendência comum e, então, as adequações dos mecanismos de seleção natural e mutação aleatória. Da próxima vez, abordaremos a tese da ascendência comum.[13]
[1] Francisco J. Ayala, Darwin’s Gift to Science and Religion (Washington D.C.: Joseph Henry Press, 2007).
[2] 5:00
[3] Conforme citado por Larry A. Witham, Where Darwin Meets the Bible: Creationists and Evolutionists in America (New York, NY: Oxford University Press, 2002), p. 90.
[4] Ayala, Darwin’s Gift, p. 47.
[5] 10:36
[6] Francisco J. Ayala, “The Evolution of Life: An Overview”, in Evolutionary and Molecular Biology: Scientific Perspectives on Divine Action, ed. Russell, Stoeger e Ayala (Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1999), p. 22.
[7] Ibid., p. 21.
[8] Ayala, Darwin’s Gift, pp. 141-142.
[9] 15:13
[10] Ver Tim M. Berra, Evolution and the Myth of Creationism: A Basic Guide to the Facts in the Evolution Debate (Stanford, CA: Stanford University Press, 1990), pp. 117-119. Observação: Berra usa o Corvette, e não o Mustang, para a sua analogia.
[11] 20:29
[12] 24:57
[13] Duração total: 26:53 (Copyright © 2013 William Lane Craig)