Criação e Evolução (Parte 15)
December 10, 2022Da última vez, falamos da compatibilidade da teoria evolutiva com o teísmo cristão. Defendi que, de fato, os teóricos evolutivos, quando pressionados para dizer qual teoria sustentam, não mantêm que a vida ou a complexidade biológica neste planeta tenham a sua origem por acaso. Antes, aleatoriedade, na teoria, simplesmente significa que as mutações ocorrem sem ter em vista o benefício do organismo em que acontecem. Assim, a teoria é completamente compatível com Deus a ter propósito ou direção ou, até mesmo, influência causal no processo evolutivo.
Naturalismo metodológico
Isto suscita uma questão parecida. Muitos cientistas e filósofos defendem que a ciência, por sua própria natureza, compromete-se com uma espécie de naturalismo metodológico. Não se trata de naturalismo metafísico, de acordo com o qual entidades sobrenaturais não existem, mas, simplesmente, de uma forma metodológica de naturalismo. Quer dizer que a ciência busca apenas causas naturais dos fenômenos no mundo. Faz parte da metodologia da ciência simplesmente buscar causas naturais dos fenômenos que investiga. Portanto, explicações sobrenaturais dos fenômenos seriam, simplesmente, excluídas metodologicamente do conjunto de opções explanatórias ativas. Assim, se tivermos um corpo de dados empíricos a serem explicados, o cientista natural reunirá um conjunto de opções explanatórias ativas para escolher dentre elas e, metodologicamente, incluirá neste conjunto de opções explanatórias ativas apenas hipóteses que apelem a causas puramente naturais. Isto não quer dizer que não existam entidades não-naturais ou sobrenaturais que deem outros tipos de explicações, mas, simplesmente, que elas, do ponto de vista metodológico, não entram no projeto da ciência. O projeto da ciência é encontrar a melhor explicação natural dos fenômenos que busca explicar. Assim, essas hipóteses sobrenaturais nem sequer seriam consideradas; elas nem mesmo estão no conjunto de opções explanatórias ativas. Isto se aplicaria também ao cientista cristão. Ele deve restringir-se, metodologicamente, a explicações naturalistas.
O notável no naturalismo metodológico é que se constitui um ponto de vista filosófico, e não científico. Não trata de qual prova científica é relevante. Antes, diz respeito à filosofia da ciência. Tem a ver com os limites da ciência e a natureza do projeto da ciência, bem como as suas restrições. Assim, não é algo suscetível a prova ou refutação científica. Trata-se de questão filosófica sobre a natureza da ciência como tal. Enquanto questão filosófica, é extremamente difícil justificar o naturalismo metodológico. Conforme indicou William Dembski, adotar o naturalismo científico impediria que se inferisse o projeto do universo, mesmo que cada átomo no universo fosse gravado com o rótulo “Feito por Deus”, uma rejeição absurda. Mais seriamente, suponha que a vida e a complexidade biológica fossem, de fato, decorrentes de intervenções milagrosas criativas em diversos pontos no passado. Suponha que, de fato, vivamos num universo assim, em que Deus interveio milagrosamente no processo evolutivo, a fim de trazer à tona formas de vida que não teriam evoluído de outro modo.[1] Seria uma tragédia — não é mesmo? — se fôssemos impedidos de descobrir a verdade sobre a realidade, simplesmente por causa de limitação metodológica que adotamos. Seria, na minha opinião, uma tragédia, não apenas pessoal, mas também científica. Seríamos impedidos de conhecer, realmente, a verdade sobre como a vida e a complexidade biológica surgiram, simplesmente por causa dessa limitação metodológica que adotamos. A metodologia deveria ser um auxílio para ajudar a descobrir a verdade sobre a realidade, e não um impedimento a afastá-lo da descoberta da verdade sobre a realidade.
Mas deixemos de lado esta questão. O argumento mais importante que quero fazer é que agora, neste contexto, não estamos interessados no que um cientista, enquanto tal, infira ser a melhor explicação da complexidade biológica. Não é a questão que estamos abordando nesta aula: o que um cientista, enquanto tal, tem a liberdade de inferir acerca da melhor explicação da complexidade biológica. Antes, a pergunta que estamos investigando é a seguinte: “Como é que, do ponto de vista teológico, devemos integrar o que a Bíblia ensina com o que a melhor informação científica indica?”. Não estamos tentando justificar uma inferência ao projeto. Antes, estamos tomando uma posição teológica — começando com o que a Bíblia ensina — e estamos tentando integrar a nossa teologia com os dados empíricos. Assim, mesmo que seja verdade que o cientista só possa trabalhar dentro das limitações do naturalismo metodológico, isto em nada afeta o teólogo sistemático. Este tem bastante liberdade para adotar visões não-naturalistas do mundo, caso elas ajudem a integrar a teologia e a ciência de modo mais harmonioso.
Parece-me que o teólogo sistemático que aborda a questão poderia admitir livremente que, por exemplo, a teoria neodarwiniana da evolução é, de fato, a melhor hipótese naturalista para explicar a complexidade biológica. Ele poderia dizer que, das opções naturalistas disponíveis, a teoria neodarwiniana é, de longe, a melhor teoria naturalista que temos. Se, em decorrência do naturalismo metodológico, ficamos limitados a considerar apenas hipóteses naturalistas, ao menos até recentemente, parece que a teoria neodarwiniana da evolução biológica, que explica o desenvolvimento evolutivo a partir da mutação aleatória e da seleção natural é, de fato, a melhor teoria naturalista. Realmente, como dissemos antes, é mesmo a única saída. As hipóteses naturalistas rivais não podem igualar a força explanatória, o escopo explanatório e a plausibilidade da hipótese neodarwiniana. Assim, pode-se concordar que a melhor explicação naturalista é a teoria neodarwiniana. Não importa quão improvável ela pareça em relação às provas, não importa quão enormemente os seus mecanismos explanatórios precisem ser extrapolados, para além das provas sujeitas a testes, e não importa a falta de provas para muitos dos seus mais importantes princípios, ela, ainda assim, é a melhor explicação naturalista, em comparação com as suas rivais, pois não há nenhuma outra explicação naturalista que chegue perto da teoria convencional quanto às suas virtudes explanatórias.
Philip Johnson,[2] por exemplo, costuma dizer que ele não teria absolutamente nenhuma objeção aos teóricos evolutivos dizendo que a teoria evolutiva neodarwiniana é a melhor explicação naturalista que temos da complexidade biológica.[3] Ele não tem absolutamente nenhuma objeção à afirmação de que, no conjunto de opções explanatórias naturalistas, a teoria neodarwiniana é a melhor. Porém, Johnson opõe-se a dizer que a teoria evolutiva neodarwiniana seja a melhor explicação, e ponto final. Quando se consideram as explicações não-naturalistas, Johnson argumentaria que, se fosse para incluí-las no conjunto de opções explanatórias ativas, não seria mais óbvio que a melhor opção explanatória seja a teoria neodarwiniana. Ele, então, diria que algumas dessas hipóteses sobrenaturalistas podem muito bem ser melhores.
O que vamos fazer neste curso é abordar a questão a partir do ponto de vista teológico. Vamos perguntar: dados os dados bíblicos e as provas científicas, como é que devemos entender, da melhor forma possível, a origem da vida e a origem da complexidade biológica? Ao tratarmos destas questões, quero enfatizar que não sou biólogo de profissão. Antes, sou teólogo com interesse leigo nestas questões científicas. Por isso, não falo como especialista nestas questões biológicas, mas, como vocês, tenho interesse leigo nelas e quero fazer o melhor trabalho na síntese da minha teologia com aquilo que as melhores provas científicas indicam atualmente.
Discussão
Pergunta: Basicamente, o senhor está falando de provas e tem usado este termo, mas não será possível haver um viés na coleta de provas e na apresentação delas? Nós, enquanto filósofos a observar a questão, temos uma espécie de pressuposto de que as provas aceitas são provas verdadeiras, apresentadas adequadamente. Não estou dizendo que não o são —não sabemos qual porcentagem —, mas este alerta deve ser compreendido desde o princípio: nem todas as provas são, de fato, provas. Sofrem o viés daquele que as coleta.
Resposta: Acho que o comentário é justo, e é verdade que, às vezes, dissidentes científicos são excluídos da discussão corrente por discordarem e observarem dados anômalos que não se encaixam. Porém, devo dizer, com toda honestidade, que, na minha opinião, uma das maravilhas da ciência é a sua natureza autocorretora. É verdade que essas coisas acontecem, mas o que ocorre, na minha opinião, é que, após mais ou menos uma geração, as anomalias sobem à superfície, e cientistas subsequentes passam a ver os vieses e preconceitos que cegaram pensadores anteriores, de modo que as provas precisam ser tratadas com um novo olhar. Assim, acho que essas anomalias não podem ser suprimidas para sempre. A ciência tem, realmente, uma maravilhosa espécie de característica autocorretora, o que dificulta às provas serem perpetuamente distorcidas de modo que não possam ser vistas do modo correto. Mas, sem dúvida, quem vai contra, por exemplo, uma visão corrente precisará exibir coragem e tenacidade ao exigir que os seus dados sejam analisados e que o paradigma científico, a visão corrente, atentem honestamente para esses dados anômalos que são apresentados. Acho que isto é verdade.
Pergunta: Fico curioso em saber como o senhor responderia a uma das defesas mais comuns do naturalismo científico, que é que ele parece funcionar. Costuma-se ouvir quem comente que a física e a química se mostraram tão bem-sucedidas na descrição do mundo ao nosso redor que o naturalismo científico deve ser o caminho certo, por ter tido tanto sucesso.[4]
Resposta: Esta é exatamente a defesa que Alex Rosenberg, com quem vou debater na Universidade Purdue,[5] adota na justificativa do que ele denomina de cientismo ou, como você o expressa, naturalismo científico.[6] O que quero dizer sobre o assunto é que o termo engloba uma diversidade de pontos de vista que precisam ser distintos com cuidado, para não sermos confundidos. Primeiramente, há o que podemos denominar de naturalismo epistemológico. O que seria? Bem, o naturalismo epistemológico diz que só devemos crer no que pode ser provado cientificamente; a ciência é a nossa única fonte de conhecimento e verdade. É o naturalismo epistemológico. O naturalismo metafísico, por outro lado, é a visão de que apenas coisas físicas existem. Não há realidades sobrenaturais, como espíritos, almas, Deus e assim por diante. Assim, temos o naturalismo epistemológico, que diz ser a ciência a única fonte de conhecimento e verdade, e o naturalismo metafísico, que diz existirem apenas as coisas físicas e não haver entidades sobrenaturais.
Em relação ao naturalismo epistemológico, a justificativa seria o sucesso da ciência natural em dar-nos verdade sobre o mundo. Tem tido enorme sucesso em contar-nos como é o mundo físico. O que eu diria é que isto em nada avança a demonstração de que a ciência é o melhor modo de descobrir a verdade sobre o mundo físico. É o que nos dará conhecimento do mundo físico. Dizer, porém, que, por esta razão, não há verdades éticas, não há verdades estéticas, não há verdades matemáticas ou lógicas, nem verdades metafísicas (como o passado ter existido mais do que 5 minutos ou o mundo externo ser real), seria, na minha opinião, teoria exageradamente restrita da verdade e do conhecimento. Podemos conhecer as coisas, mesmo que não possam ser cientificamente provadas. E, de fato, este tipo de naturalismo epistemológico solaparia a própria ciência, pois a ciência em si é permeada de pressupostos que não podem ser cientificamente provados. Assim, caso se adote esta visão, solapa-se, de fato, o próprio projeto da ciência.
O que penso querermos dizer é que o incrível e maravilhoso histórico da ciência empírica simplesmente mostra que ela é a melhor ferramenta para o conhecimento e a verdade sobre o universo físico, mas isto não implica que não haja outros tipos de verdade. O filósofo Ed Feser faz uma analogia maravilhosa.[7] Ele diz o seguinte: imagine você com um detector de metais tão calibrado que detectará qualquer metal; ele é tão infalível que é o melhor detector de metais que se pode encontrar. Ele pergunta: “Será que isto prova não haver objetos não-metálicos? Que as únicas coisas existentes são coisas metálicas?”. Bem, obviamente que não. E é exatamente o mesmo erro que o naturalista epistemológico comete. Por ser o seu detector de metais, por assim dizer, tão bom e eficaz em descobrir a verdade física empírica, ele conclui que não há nenhum outro tipo de verdade e que não há outra fonte de conhecimento. Isto é tão tolo quanto a pessoa que pensa que o detector de metais mostraria não haver objetos não-metálicos. Seria naturalismo epistemológico.
Eu também diria que o naturalismo epistemológico é contraditório, pois a afirmação de que “a ciência é a única fonte de conhecimento” é algo que não pode ser cientificamente provado. Trata-se de afirmação filosófica. Caso se creia apenas no que a ciência possa provar, não será possível crer nessa afirmação. Portanto, o naturalismo epistemológico é, realmente, contraditório.
O que quero dizer, além disso, em relação ao naturalismo metafísico, é que, mesmo que você fosse naturalista epistemológico, isto não implicaria o naturalismo metafísico, pois é possível apresentar argumentos que apelem para a ciência moderna a fim de postular realidades não-físicas.[8] Um exemplo paradigmático disto foi W. V. O. Quine, filósofo de Harvard, o mais famoso naturalista epistemológico do século XX. Quine disse que só deveríamos acreditar no que as ciências naturais descobrissem e nos ensinassem. Não obstante, Quine se mostrou notável e louvavelmente aberto à existência de entidades imateriais e não-físicas. Ele disse que, se fosse possível mostrar-lhe o benefício explanatório indireto da alma, de um criador, ele lhes concederia de bom grado condição científica ao lado de quarks e buracos negros.[9] Como vocês sabem, muitos dos argumentos que emprego para a existência de Deus, como os argumentos para a origem do universo e o ajuste fino do universo, seguem, precisamente, a prescrição de Quine. Eles buscam mostrar o benefício explanatório do teísmo quanto a fatos cientificamente estabelecidos, como a origem e o ajuste fino do universo. De fato, o próprio Quine cria, sim, na existência de entidades imateriais e não-físicas. Em particular, ele pensava que a ciência moderna nos exigia crer na existência de objetos matemáticos, como conjuntos, e que eles também deveriam fazer parte da nossa visão do que realmente existe. Assim, o próprio Quine não era naturalista metafísico, neste sentido. Ele cria que, além de entidades físicas, há entidades matemáticas não-físicas, como conjuntos. É assim que eu responderia à pessoa que tenta mostrar, com base no cientismo, que a crença em Deus não é razoável.
Pergunta: Tocamos neste assunto, mas estas duas formas de naturalismo não são contraditórias? Se você for totalmente naturalista, qualquer forma de conhecimento que disser compilar a partir do mundo natural será ilusória; não se terá nenhuma garantia de que o que aconteceu anos atrás ou hoje acontecerá nos próximos 30 segundos.
Resposta: Sim, concordo com você. Como disse, penso que o naturalismo epistemológico é contraditório da maneira que expliquei. Mas acho também que o naturalismo metafísico é, em última instância, contraditório, pois acho que Rosenberg está correto em que, num mundo de apenas entidades físicas, não haveria o que os filósofos denominam de estados intencionais. O que isto quer dizer? Bem, estados intencionais são estados que têm intencionalidade ou a propriedade de ser sobre algo ou em algo. Significa o direcionamento ao objetivo dos nossos pensamentos. Posso pensar sobre as minhas férias de verão. Ou posso pensar em minha esposa. Assim, os meus estados conscientes, os meus pensamentos, têm essa espécie de intencionalidade. Elas têm esse direcionamento ao objeto. São sobre algo. São pensamentos sobre algo. Ora, pense nisto. Nenhum objeto físico tem intencionalidade. Uma cadeira não é sobre algo. Uma pedra não é sobre algo. Um emaranhado de tecido como o cérebro dentro do seu crânio não é sobre algo. A intencionalidade é característica da consciência, de estados mentais. Assim, num mundo em que existam apenas objetos físicos, não haveria estados intencionais, não haveria nenhum pensamento sobre nada. Neste sentido, acho que Rosenberg está correto. Porém, justamente parece seguir-se claramente disto que o naturalismo metafísico é falso, pois consigo pensar no naturalismo metafísico! Não é mesmo? Tenho pensamentos sobre o naturalismo metafísico, seja ele verdadeiro ou falso. Assim, o próprio fato de que consigo pensar sobre esta teoria mostra que a teoria é falsa! Isto porque, segundo a teoria, não haveria estados intencionais. Por isso, acho que você totalmente correto. As duas formas, em última instância, reduzem-se ao contraditório e ao absurdo.
Pergunta: É “intenção” com “ç”, e não com “s”, correto?[10]
Resposta: Sim, isto mesmo: com “ç”.[11]
Continuação: Queria saber se os naturalistas metafísicos tentaram reduzir a questão da “objetividade” a um estado físico.
Resposta: Acho que alguns diriam que a questão da “objetividade” pode ser explicada, simplesmente, a partir do comportamento ou função; que ter um pensamento sobre algo é comportar-se de algum modo, uma espécie de visão behaviorista. Isto está, obviamente, incorreto, na minha opinião. Quando penso em algo, não tem nada a ver com o meu comportamento; é o direcionamento do objeto dos meus pensamentos.
Continuação: Então, há apoio bem forte de que é irredutível? A intencionalidade, mesmo entre muitos filósofos da mente, é basicamente irredutível?
Resposta: Obviamente, há proponentes de todas as visões. Veja Rosenberg, por exemplo. Ele pensa que você não existe. Tudo é controverso. Mas eu diria que a visão de que estados intencionais não são algo característico de um objeto físico é bastante sólida e que, portanto, eles demandam alguma espécie de estado mental. E a questão seria se o naturalista pode ou não dar espaço a estados mentais, na visão dele. Rosenberg pensa que não e, portanto, diz serem eles ilusórios.
Continuação: Minha impressão é que superveniência é diferente de redutibilidade, certo?
Resposta: Certo.
… Eu não esperava falar destas coisas hoje, mas elas têm ocupado minha mente. Se é que tenho uma mente; acho que sim. [risos]
Pergunta: O senhor diria que o naturalismo metodológico nega totalmente a causação do agente?
Resposta: Prefiro dizer que o naturalismo metafísico negaria a causação do agente, porque não há intencionalidade, se existem apenas estados cerebrais, e não estados mentais. Você disse naturalismo metodológico; não acho que ele tenha de negar essas outras coisas. Ele poderia admitir que há essas entidades, teorias e verdades não-naturais, mas eu, enquanto cientista, simplesmente não posso considerá-las. Então, é preciso entender como o naturalismo metodológico é fraco. Acho que muitíssimos cientistas cristãos concordariam. Diriam, e já os ouvi dizer: “quando entro no laboratório e coloco meu avental, só tenho de considerar o que explica naturalmente aquilo que está acontecendo neste experimento laboratorial”. O projeto da ciência é, simplesmente, encontrar causas naturais. Não quer dizer que não haja causas não-naturais, mas eu, enquanto cientista, simplesmente não estou atentando para elas. Assim, o naturalismo metodológico é, na minha opinião, fraco demais e seria completamente compatível com a afirmação de que há agentes que têm efeitos causais sobre as coisas, mas não seria possível apelar para eles na sua teoria física. Só seria possível falar do cérebro.
Continuação: Isto parece problemático, porque, caso a pessoa só diga que não posso mesmo falar de agentes — embora possa haver agentes, só posso reconhecer, nos meus dados, a causação de eventos —, o cientista não estaria atuando como agente para trazer à tona um conjunto de circunstâncias nas quais um experimento é conduzido, solapando, portanto, totalmente o projeto?
Resposta: Bom, só pense por este lado. O naturalista metodológico não está propondo uma teoria sobre o que ele mesmo está a fazer. Você pode estar correto de que ela implicaria a realidade de agentes, mas ele não está negando este fato, nem oferecendo uma teoria a este respeito. Assim, o neurobiólogo ou o neurocirurgião podem propor teorias sobre o cérebro e por que tais neurônios disparam e assim por diante, mesmo que isto exija um agente autoconsciente para executar esses experimentos biológicos físicos. Acho que isto não é contraditório. Seria só dizer que este neurocientista está a adotar um projeto muito limitado, assim como o homem com o detector de metais está em busca de objetos metálicos, e não de objetos de madeira ou plástico.
Recapitulando: não estou convencido de que o cientista precisa comprometer-se com o naturalismo metodológico. Como disse, isto poderia levar a situações bem estranhas, nas quais ele seria impedido de conhecer a verdade sobre o mundo, simplesmente por causa da nossa metodologia, o que parece nefasto. Porém, em todo caso, não é este o nosso projeto neste curso. O que queremos fazer é analisar as coisas do ponto de vista teológico e perguntar como nós, enquanto teólogos cristãos, melhor integramos a nossa teologia com as melhores provas da ciência contemporânea no que diz respeito à origem da vida e à complexidade biológica. Dito isto, o que faremos da próxima vez é abrir a questão da origem da vida. Como é que a vida surgiu neste planeta, e como isto é compreendido da melhor maneira, do ponto de vista cristão? Esta será a questão que começaremos a investigar da próxima vez.[12]
[1] 5:13
[2] Phillip E. Johnson é mais conhecido como um dos fundadores do movimento do projeto inteligente [intelligent design], sendo ferrenho opositor do darwinismo.
[3] 10:11
[4] Outro exemplo disto pode ser visto na pergunta 205: “O cientificismo é auto-refutável?”, em https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/o-cientificismo-e-auto-refutavel, onde o Dr. Craig aborda a mesma questão/objeção.
[5] Para um vídeo deste debate, ver /media/craig-vs-rosenberg-purdue-university (acesso em 31 de julho de 2013).
[6] 15:16
[7] Dr. Feser utiliza esta analogia como parte da sua refutação ao cientismo de Alex Rosenberg, conforme defendido no livro de Rosenberg The Atheist’s Guide to Reality [O guia do ateu para a realidade]. Ver a postagem do blogue do Dr. Feser em http://edwardfeser.blogspot.com/2011/11/reading-rosenberg-part-ii.html (acesso em 28 de janeiro de 2013).
[8] 20:15
[9] “Se visse benefício explanatório indireto em postular sensibilia, possibilia, espíritos, um Criador, eu também lhes concederia de bom grado condição científica, equivalente a postulados reconhecidamente científicos, como quarks e buracos negros” – W. V. O. Quine, “Naturalism; or, Living within One’s Means”, Dialectica 49 (1995): p. 252.
[10] 25:03
[11] Esta pergunta só está pedindo esclarecimento quanto ao conceito em discussão, se ele está ligado a “intenção”, e não “intensão”.
[12] Duração total: 30:50 (Copyright © 2013 William Lane Craig)