Criação e Evolução (Parte 14)
December 10, 2022Na nossa lição, andamos vendo o debate de criação e evolução. Gastamos muitas aulas vendo Gênesis 1, com o objetivo principal de entender o que o autor original de Gênesis 1 queria dizer com esta passagem. Passamos em revista inúmeras interpretações diferentes e oferecemos críticas a cada uma delas. No fim, eu me mantive indeciso. Não tomei uma posição quanto ao que pensei ser a melhor. Ainda tenho a mente aberta e ainda as estou investigando. Vimos, porém, que há uma gama de opções disponíveis atualmente para o cristão crente na Bíblia. Não precisamos nos colocar numa caixinha e pensar que só há uma interpretação das Escrituras em relação às origens, a ser imposta aos cristãos fiéis, crentes na Bíblia.
Agora, passamos para a discussão da concórdia do ensinamento bíblico com a biologia evolutiva. Como introdução, disse que, com exceção da interpretação literal de Gênesis 1 (quer dizer, o criacionismo dos seis dias consecutivos de 24 horas), Gênesis 1 é compatível com teorias biológicas evolutivas. Isto não quer dizer que tais teorias sejam verdadeiras. Só quer dizer que seria possível manter-se cristão crente na Bíblia e também crer na teoria da evolução biológica aceita hoje. De fato, uma vez que se afaste da interpretação literal, é notável que Gênesis não diz como Deus criou a vida na terra. De fato, em duas passagens, o texto diz que Deus declarou: “produza a terra” vegetação e árvores frutíferas ou animais terrestres, sugerindo que pode ter havido, realmente, causas naturais envolvidas na produção destas coisas.[1] Assim, acho que esta conclusão, a esta altura, não deveria ser nem um pouco controversa. Já passamos em revista tais interpretações e vimos que algumas delas foram motivadas pela tentativa de encontrar uma interpretação compatível com a teoria evolutiva. Lembrem que chamamos isto de concordismo, em que se busca ler a narrativa à luz da ciência moderna, com o intuito de mostrar a concórdia entre a ciência moderna e esta passagem bíblica. Não é de se surpreender, portanto, que muitas dessas interpretações não-literalistas seriam compatíveis com a teoria evolutiva. É para isto que foram elaboradas, em alguns casos. Nós as criticamos por esta razão, uma vez que pensamos precisarmos que a narrativa seja lida à luz do seu próprio autor e público, e não que a ciência moderna seja imposta nela.
Discussão
Pergunta: Por favor, faça distinção quando o senhor fala de evolução: a diferença entre a definição de evolução, seja ela macro, micro, essas coisas. Quando utiliza a palavra “evolução”, o que quer dizer com ela?
Resposta: Falarei mais a este respeito em um minuto, mas aqui me refiro ao que seria a teoria evolutiva neodarwiniana convencional. Obviamente, caso se adote a visão literal de que o mundo foi criado em seis dias de 24 horas, ocorre uma incompatibilidade. Mais uma vez, não estou dizendo nada acerca da verdade de tal teoria. Só estou dizendo que, caso não se tenha a interpretação literal — caso se adote, por exemplo, a visão da estrutura literária de Blocher,[2] ou a visão do mito hebraico segundo Miller e Soden[3] —, obviamente elas não são incompatíveis com a teoria evolutiva. É o que esses autores estavam pensando ao elaborarem tais interpretações. No entanto, vamos definir a teoria mais detidamente a seguir.
Pergunta: Uma incoerência básica, mesmo que se mantenham os dias da terra antiga ou se descartem os seis dias literais, é que ocorrem problemas com as espécies dos pares, os pares reprodutores e a complexidade irredutível nos sistemas.[4]
Resposta: Pois bem, agora acho que você está tratando da verdade da teoria evolutiva. Falaremos disto, mas tudo que estou falando aqui tem a ver com a compatibilidade. Só estou dizendo que, se alguém crê, por exemplo, na visão da estrutura literária de Henri Blocher, seria ela compatível com a posição darwinista em biologia? Pois bem, parece-me que sim, porque, segundo a visão de Blocher, a intenção não era ser um relato cronológico; trata-se de estrutura literária, sem dizer como as coisas foram, de fato, trazidas à existência. Não quer dizer que a teoria evolutiva seja verdadeira; só quer dizer que a teoria evolutiva não refutaria a visão de Blocher. É possível manter as duas, caso se queira.
Pergunta: Da última vez, falamos de Adão e Eva, e eles são claramente definidos em Gênesis. Como é que Adão e Eva, a histórias deles, o jardim do Éden e tudo mais são compatíveis com a evolução?
Resposta: Certo, acho que esta questão merece ser mais discutida depois, pois alguns dos evolucionistas teístas contemporâneos defendem que a teoria biológica da evolução é incompatível com um casal original de Adão e Eva. Ainda assim, as Escrituras parecem pensar em Adão e Eva como indivíduos históricos literais. Estão conectados pelas genealogias a outras pessoas que são, indisputavelmente, históricas, e não há nenhuma sugestão de que ocorra alguma espécie de ruptura, no caso. Por mais figurada ou metafórica que seja a criação de Adão e Eva em Gênesis, eles parecem ser pessoas históricas. Assim, seria preciso lidar com esta objeção de que a teoria evolutiva é incompatível com Adão e Eva históricos. Preciso investigar a questão um pouco mais, pois não me é claro que, se a pessoa pensa que Adão e Eva foram criados por meio do processo de evolução (digamos, Deus causou mutações que fizeram uma forma hominídea evoluir a uma capacidade cerebral e física que poderia, agora, ser a sede da alma humana e, então, Deus concedeu a esse corpo uma alma humana que, então, tornou-se um ser humano genuíno), não me é claro por que não poderia haver um Adão e Eva original desse tipo. É esta, essencialmente, a visão católica.[5] Mesmo que os nossos corpos humanos sejam resultado de evolução biológica, não se tem um ser humano real até que haja uma alma unida ao corpo, e trata-se de uma criação especial de Deus que ocorre em momento específico no passado e, portanto, têm-se Adão e Eva históricos. Não me é claro por que esses evolucionistas teístas pensam ser isto impossível. Penso que os argumentos deles visam alguém que pensa ter havido Adão e Eva originais que foram criações especiais por Deus ex nihilo. Penso estarem dizendo que isto seja incompatível com os indícios genéticos. Mas não vejo como seria contrário à visão católica, por exemplo. Então, isto preciso ser investigado mais a fundo.
Mutações aleatórias
Alguns cristãos discordarão do que eu disse sobre a compatibilidade da teoria evolutiva com o relato bíblico. Fico meio surpreso que ninguém tenha levantado esta objeção, mas eu mesmo vou fazê-lo. Isto porque, de acordo com a teoria convencional da evolução, as mutações que servem para levar adiante o processo evolutivo são aleatórias e, por serem aleatórias, segundo o argumento, elas não podem ser projetadas. Dado que as mutações que impulsionam a evolução ocorrem aleatoriamente, isto é incompatível com a afirmação de que a evolução ocorra com um propósito ou seja projetada por Deus ou ocorra com algum fim.
No entanto, esta alegação, na minha opinião, envolve um mal-entendido fundamental e importantíssimo do que biólogos evolutivos querem dizer com a palavra “aleatório”. Quando eles dizem que as mutações responsáveis pela mudança evolutiva ocorrem aleatoriamente, não querem dizer “por acaso” ou “despropositadamente”.[6] Se eles quisessem dizer isto, a teoria evolutiva seria enormemente presunçosa, pois a ciência, simplesmente, não está na posição de dizer, com nenhum tipo de justificação, que as mutações que ocorrem na história da vida ocorrem sem nenhum propósito, que são “involuntárias”, ou que não há nenhuma direção ou alvo pretendidos por Deus para o processo evolutivo. Como é que alguém poderia dizer, com base nas provas científicas, que todo o esquema não foi elaborado por um Deus providente para que se chegasse, em algum momento, ao homo sapiens no planeta Terra? Como um cientista poderia saber que Deus não interveio, periodicamente, no processo de evolução, para causar mutações cruciais a importantes transições evolutivas? Por exemplo, a transição de répteis para aves: como é que o biólogo evolutivo sabe que tal mutação não foi causada por Deus, tendo em vista o avanço do processo?
De fato, caso se tenha um Deus com conhecimento médio divino (e lembrem-se que, quando falamos da onisciência, o conhecimento médio é o conhecimento de Deus do que iria acontecer de modo contingente, sob quaisquer circunstâncias), a fim de estabelecer o processo evolutivo com os seres humanos como o alvo, não lhe seria sequer exigido intervir sobrenaturalmente ao longo do caminho, pois Deus teria sabido: “se eu fosse estabelecer essas condições iniciais regidas pelas leis da natureza, o homo sapiens evoluiria como consequência, dadas estas condições e leis, mediante a mutação aleatória e a seleção natural”. E, assim, Deus implementou apenas essas leis e apenas essas condições iniciais. Espero que seja óbvio que a ciência absolutamente não está na posição de dizer, justificadamente, que o processo evolutivo não estava sob a direção providencial de um Deus dotado de conhecimento médio. Isto sequer exigiria intervenções milagrosas.
Penso que, se os biólogos evolutivos estivessem usando a palavra “aleatório” para significar “involuntário” ou “despropositado”, a biologia evolutiva não seria ciência, seria filosofia. Isto porque é cientificamente impossível dizer que tal processo é “involuntário” ou despropositado. Porém, o biólogo evolutivo não usa, na realidade, a palavra “aleatório” neste sentido. Este fato é ignorado tanto por críticos criacionistas da evolução teísta quanto por apologistas seculares da evolução naturalista. Porém, isto se tornou muito claro para mim, nas minhas preparações para o meu debate com o destacado biólogo evolutivo Francisco Ayala sobre a viabilidade do projeto inteligente na biologia.[7] De acordo com Ayala, quando os biólogos evolutivos dizem que as mutações são aleatórias, eles não querem dizer que acontecem por acaso. O que querem dizer, pelo contrário, é que ocorrem independentemente do benefício que trazem ao organismo hospedeiro. O sentido em que as mutações são aleatórias é que ocorrem independentemente do benefício que trazem ao organismo em que se dão. Em outras palavras, as mutações não se dão de tal modo que sejam para o benefício do organismo em que acontecem: algumas são boas, mas a maioria é deletéria (a maioria é desastrosa) para o organismo em que ocorrem. Assim, as mutações são aleatórias simplesmente no sentido de que ocorrem independentemente da sua utilidade ao organismo.
Pois bem, a importância disto é incrível. Espero que vejam a seriedade disto. O cientista, a despeito da impressão contrária dada pelos dois lados do debate, não está fazendo a presunçosa afirmação filosófica de que as mutações biológicas ocorram por acaso e que, portanto, o processo evolutivo seja sem direção ou propósito.[8] Antes, tudo que ele quer dizer é que as mutações não ocorrem com o benefício do seu organismo hospedeiro em vista, por assim dizer. Caso se entenda que “aleatório” significa apenas que é independente do benefício ao organismo hospedeiro, a aleatoriedade não é incompatível com propósito, projeto ou direção. Alvin Plantinga apresentou exatamente o mesmo argumento no seu último livro Ciência, religião e naturalismo: onde está o conflito?.[9] Plantinga acredita que não há nem sequer um conflito superficial entre a biologia evolutiva e o teísmo. Ele censura os cientistas que, irresponsavelmente, afirmam que, de acordo com a biologia evolutiva, o processo evolutivo é sem direção ou propósito. Sem dúvida, tais afirmações acontecem aos montes. Ele diz, porém, que tais afirmações não são bem parte da teoria biológica em si. Antes, são o que ele denomina de apêndice filosófico, uma afirmação extracientífica a refletir a filosofia pessoal do cientista.[10] Em apoio a isto, Plantinga cita o destacado biólogo evolutivo Ernst Mayer, que escreveu: “Quando se diz que uma mutação ou variação é aleatória, a declaração simplesmente significa que não há nenhuma correlação entre a produção de novos genótipos e as necessidades adaptativas de um organismo, em dado ambiente”.[11] Em outras palavras, esta é exatamente a mesma definição de “aleatório” que Ayala deu, a saber: as mutações ocorrem independentemente das necessidades do organismo hospedeiro e do benefício que trazem ou não a tal organismo.
Esta definição de aleatório é totalmente incompatível com Deus a causar a ocorrência de mutações com um propósito ou determinado fim em vista. Por exemplo, suponha que Deus, na sua providência, cause a ocorrência de uma mutação em certo animal, não para o benefício de tal animal, mas para produzir presa fácil para os seus predadores, pois deseja que eles prosperem. Pois bem, no caso, a mutação é aleatória — ela não ocorre para o benefício do organismo hospedeiro —, mas não é sem propósito, sem direção ou por acaso. Deus a fez produzir um organismo mal adaptado que produziria presa fácil para os seus predadores. Ou pense até nisto aqui. Suponha que Deus, no seu conhecimento médio, tenha causado uma adaptação, pois sabia que ela produziria um fóssil que eu, em algum momento, descobriria, inspirando-me, portanto, a entrar na carreira de paleontologia, à qual Deus me chamara e na qual ele queria que eu entrasse. Claramente, neste caso, a mutação seria tanto proposital quanto ainda, neste sentido técnico, aleatória.
Assim, a menos que se adote uma interpretação literal de Gênesis 1, que, segundo disse, na minha opinião, não somos obrigados a fazer, não há simplesmente nenhum conflito entre a Bíblia e a biologia evolutiva convencional. O que isto quer dizer é que o cristão está aberto a seguir as provas aonde quer que elas levem. O cristão pode ter a mente aberta neste quesito e seguir as provas aonde elas levarem. Neste sentido, o cristão tem uma vantagem tremenda sobre o ateu. Conforme indica Alvin Plantinga, para o ateu, a evolução é a única saída! Assim, independentemente de quais sejam as provas, independentemente da improbabilidade das chances, ele tem de crer nela, pois é tudo que existe. Assim, o ateu não pode ter a mente aberta para seguir as provas aonde elas levarem. O biólogo naturalista Richard Lewontin disse o seguinte.[12] Ouça com atenção esta citação de Lewontin; ele é naturalista. “Tomamos o lado da ciência, apesar do patente absurdo de algumas das suas concepções, apesar da tolerância da comunidade científica para histórias infundadas, bem desse jeito”. O que é uma história “bem desse jeito”? A expressão advém de Rudyard Kipling, que contava contos de fada e, então, concluía-os dizendo: “e aconteceu bem desse jeito”. Biólogos evolutivos mostraram-se extremamente criativos e cheios de imaginação ao inventar o que são as chamadas histórias bem desse jeito para explicar como alguma adaptação biológica surgiu, embora não haja absolutamente nenhuma prova de que foi assim que, realmente, aconteceu. O que Lewontin disse foi o seguinte:
Tomamos o lado da ciência, apesar do patente absurdo de algumas das suas concepções, apesar da tolerância da comunidade científica para histórias infundadas, bem desse jeito, pois temos um compromisso prévio, um compromisso com o materialismo. Não é que os métodos e instituições da ciência, de algum modo, compelem-nos a aceitar uma explicação material do mundo fenomenal, mas que, pelo contrário, somos forçados por nossa aderência a priori a causas materiais a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzem explicações materiais, independentemente de quão contraintuitivas, independentemente de quão desconcertantes elas sejam aos leigos.[13]
Assim, o que Lewontin está dizendo é que, por causa das suas pressuposições materialistas, fisicalistas e naturalistas, são levados às suas concepções evolutivas, independentemente do que dizem as provas. Neste quesito, o cristão não é tão restrito. O cristão pode ter, genuinamente, a mente aberta, diferentemente do naturalista, como Lewontin, e, portanto, pode seguir as provas aonde elas levarem.
Discussão
Pergunta: Parece que é como uma nova definição da palavra “aleatório”. Não é a definição normal em que, normalmente, pensaríamos no cotidiano. Talvez tenha sido influenciado pelo pensamento secular, mas a minha suspeita seria que, se você sondasse, digamos, os 25 maiores biólogos evolutivos no país, a maioria deles não subscreveria a isto, e talvez Ayala é só mais ilustrado, filosoficamente falando. O senhor está dizendo que uma maioria de biólogos evolutivos subscreveriam a esta definição de “aleatório”?
Resposta: Penso que, se você os pressionasse nesta questão, eles rapidamente abandonariam essas afirmações filosóficas descuidadas sobre aleatoriedade no sentido de acaso ou sem direção, além de adotarem as definições que tanto Ernst Mayer quanto Ayala deram. São dois dos biólogos evolutivos mais admirados no século XX. É notável que os dois, de maneira independente, explicaram que é isto que querem dizer com “aleatório”. Sei por experiência como cientistas, especialmente nos livros de nível popular e em programas televisivos, fazem afirmações descuidadas que não são cientificamente corretas. Assim, suspeito que haja uma grande desconexão entre o que se dá no consumo público da ciência e o que essas pessoas diriam, de fato, em encontro científico ou em revista com revisão de pares, se pressionados a precisão científica estrita. Do contrário, a teoria se torna filosofia. Seria impossível que o cientista provasse que as mutações sejam aleatórias no sentido de que ocorrem sem nenhum propósito ou de que não têm nenhuma direção. Isto seria filosofia. Penso que estes cientistas têm mais bom senso quando estão a trabalhar com cuidado e, de fato, as definições de Mayr e Ayala parecem sugerir algo neste sentido.
Continuação: Se a evolução biológica fosse puramente aleatória ou sem direção, seria incompatível com a teologia ou filosofia cristã, não é?[14]
Resposta: Sim.
Continuação: Isto porque cremos que Deus dirige as coisas.
Resposta: Certo. Cremos que Deus criou as coisas com um propósito. A providência de Deus supervisiona o mundo. Portanto, dizer que essas coisas ocorreram despropositadamente ou sem nenhum telos ou alvo em mente, na minha opinião, seria incompatível com o pensamento cristão.
Pergunta: Se a evolução fosse correta, como você está dizendo, haveria pessoas ou animais que precederam a Adão e Eva. Assim, a morte existiria no mundo anterior a Adão e Eva. Porém, na Bíblia, é dito é que, se Adão e Eva não tivessem comido da maçã, eles viveriam para sempre.
Resposta: OK. No caso, estamos entrando em outros assuntos. A questão é se a morte mencionada em Gênesis 2 e Romanos 5 é a morte biológica ou não.[15] Não vejo nenhuma razão para pensar que seja assim. Adão e Eva não caem mortos após comerem o fruto da árvore, mas são expulsos do Jardim, para que não comam da Árvore da Vida e vivam para sempre. Em Romanos 5, penso como certo que tudo de que Paulo fala diz respeito à morte espiritual. A morte espiritual entrou no mundo mediante Adão. Porém, não penso que haja nenhuma sugestão de que Adão não pudesse ter esses tipos de predecessores pré-humanos que eram mortais. Por isso, não acho que o cristão fiel à Bíblia esteja forçado a dizer que não havia nenhuma morte no mundo anterior à queda. Não quero repetir todas as diferentes interpretações que percorremos de Gênesis 1, mas apenas enfatizar, mais uma vez, que, entre cristãos crentes na Bíblia que lecionam nos nossos institutos bíblicos e seminários mais conservadores, há uma ampla gama de opiniões sobre o modo de interpretar estas passagens que não são criacionistas de seis dias de 24 horas.
Pergunta: O senhor mencionou antes a possibilidade de que a evolução poderia ter sido um processo pelo qual Deus formou certas formas hominídeas pré-humanas e, então, incutiu a imagem de Deus nelas. Eu ia dar suporte a isto. No seu livro O problema do sofrimento, C. S. Lewis faz o mesmíssimo argumento no capítulo sobre a queda do homem.[16] Ele disse que uma possibilidade é que Deus usou o processo evolutivo para criar o tipo de ser que queria e, então, incutiu nele a imagem de Deus; disse ainda que isto é perfeitamente compatível com a teologia cristã, não sendo algo que, de algum modo, refuta aquilo em que cremos.
Resposta: Penso que é bem fácil para quem é dualista da alma e corpo. Caso se pense que seres humanos não são plenamente humanos, a menos que sejam alma e corpo, é muito fácil ver como o corpo poderia assemelhar-se a outros primatas e ter o mesmo DNA, e assim por diante, mas não é humano até que Deus coloque nele uma alma que seja, distintamente, como você disse, à imagem de Deus e, portanto, plenamente humana.
Pergunta: Se a doutrina cristã da criação pode ser satisfeita com Deus a polvilhar mutações aleatórias na natureza, resultando no nível atual de complexidade biológica, será que isto solapa o argumento do projeto?
Resposta: Primeiro, permita-me repetir que, no momento, não estamos fazendo apologética. Não estamos tentando elaborar um argumento do projeto. Estamos fazendo teologia sistemática. Estamos perguntando: “Como o teólogo cristão deve enxergar a questão das origens à luz da Bíblia e das provas científicas?”. Assim, mesmo que você esteja correto, isto não é pertinente ao que estamos dizendo agora. Porém, será que solaparia o argumento do projeto? Acho que não necessariamente e, no caso, estou pensando em gente como William Dembski e outros, que se mostram bastante dispostos a adotar a doutrina da descendência comum — que todas as formas de vida hoje descendem de um ancestral primordial — e, ainda assim, defendem tenazmente que este exato processo exige projeto inteligente.[17] Costumam dizer que, mesmo que não haja nenhuma intervenção milagrosa, pode-se chegar a uma inferência de projeto. Caso se atente para a obra de autores como William Dembski, Michael Behe e outros no movimento do projeto inteligente, eles são muito enfáticos de que não fazem uma defesa do criacionismo. Pois bem, alguns deles são criacionistas e alguns pensam, sim, que Deus interveio milagrosa e sobrenaturalmente para polvilhar essas mutações especiais, como você colocou, mas muitos deles não pensam deste jeito e, ainda assim, é possível ter um bom argumento de projeto.
Pergunta: Não sou especialista no processo de mutação, mas meu entendimento é que ocorre dano por radiação ou algum tipo de evento de erro de cópia, em que um dos seus códigos muda de A para T, ou algo assim, obtendo-se a informação errada, e penso que os cientistas acham ser o processo, na verdade, ao acaso. Por isso, fico perplexo que qualquer biólogo desista da afirmação de que eles queiram dizer ser tudo por acaso.
Resposta: Bem, eu os citei — alguns deles bem destacados. Se estão fazendo essas afirmações mais radicais, acho que estão fazendo filosofia, e não ciência, e precisam que chamemos a atenção deles por isso.
Pergunta: Não quero ser briguento nem desrespeitoso...
Resposta: Isso que é introdução! [risos]
Continuação: Na minha humilde opinião, acho que o senhor e o Dr. Plantinga estão, simplesmente, sendo seletivos na escolha de uma definição que se encaixe no seu argumento específico. Se olharem as afirmações, por exemplo, feitas por esses dois indivíduos, em outras circunstâncias, eles disseram exatamente o oposto, que esse processo se dá por acaso.
Resposta: Permita-me responder assim. Há algumas outras declarações de Ayala em que ele diz: “Acho que essas mutações não foram causadas por Deus com o intuito de trazer à tona tais coisas”. Porém, o motivo por que ele o diz (se você ler a obra dele, como eu fiz) não é que elas são aleatórias; tem a ver com o problema do mal. Quando ele observa o mundo, em especial o mundo dos insetos, que é tão grotesco, com tantas criaturas macabras comendo-se umas às outras (ele dá o exemplo do louva-a-deus, cuja fêmea, após copular com o macho, come a cabeça dele), ele diz: como é que um Deus amoroso e bondoso poderia ter projetado esses tipos de criaturas tão nojentas e macabras? Ele diz que só podem ser o resultado do acaso. Assim, ele vê Darwin como alguém que permite ao teísta escapar do problema do mal natural.[18] Assim, a motivação é bem diferente, no caso. Por isso, seria preciso encarar essas declarações com mais cuidado para ver o contexto. Porém, vou só reiterar o que disse antes. Sei que há uma legião de afirmações de que é tudo por acaso, mas suspeito que sejam algo popular e desajeitado, voltado à imprensa e ao público comum, algo que seria desdito depressa caso houvesse pressão por parte dos colegas em busca de precisão científica.
Pergunta: Uma objeção que ouço muito de ateus sobre a compatibilidade da evolução e do cristianismo é que nós, cristão, cremos ser Deus perfeito; por isso, por que ele usaria este processo evolutivo supostamente elaborado e desperdiçador, como dizem, para criar as pessoas? Por que um Deus perfeito faria algo tão ineficiente assim?
Resposta: Essas perguntas são filosóficas, certo? São perguntas fora da ciência. A pergunta desta semana no site ReasonableFaith.org é exatamente sobre o assunto.[19] Uma pessoa da Alemanha escreveu e disse: “um ser perfeito escolheria a melhor forma de criar, e a melhor forma de criar não seria a evolução”. Ele usa exatamente este argumento.[20] No entanto, na medida em que o antiteísta apela para o desperdício ou ineficiência da evolução, na minha opinião, a resposta de Thomas Morris, filósofo cristão, acerta na mosca.[21] Ele diz que eficiência é um valor apenas para a criatura que tem tempo limitado, recursos limitados ou as duas coisas, precisando, portanto, administrar os seus recursos e utilizar o seu tempo do modo mais eficiente. Porém, para um ser infinito como Deus, que tem recursos ilimitados e tempo ilimitado, a eficiência, simplesmente, não é um valor. Ela não é importante. Assim, acho que o argumento a partir da eficiência não tem muita relevância. Acho que ele concebe Deus como uma espécie de engenheiro finito, cujo objetivo principal é produzir este processo que funciona na maior eficiência possível, e acho que não é assim que devemos pensar, no padrão de um engenheiro, e muito menos de um engenheiro com tempo e recursos finitos.
Pergunta: Só uma observação científica: Lee Spetner escreve, no seu livro Not By Chance [Não por acaso],[22] que as mudanças nos seres biológicos ocorrem por causa da descompactação que o ambiente faz, de fato, de um pacote genético pré-embalado. As mudanças não ocorrem apenas de modo gradual no DNA — já existe um DNA embalado, como no caso da mariposa penada, quando havia sujeira na atmosfera, e essa versão de mariposa se tornou mais predominante do que a outra. A mariposa penada não evoluiu ou involuiu.
Resposta: As proporções de mariposas claras e escuras na população mudaram. O que você está dizendo, no caso, diz mais respeito à verdade ou provas da evolução. Vamos ver isto depois. Tudo que queria falar até o momento é, simplesmente, a questão da compatibilidade, e não a questão da verdade da teoria evolutiva. O que estou perguntando é o seguinte: “Se a teoria evolutiva fosse provada verdadeira, ou se você pensa que é verdadeira, será que quer dizer que você tem de abandonar o teísmo bíblico?”. A minha afirmação é que isto só aconteceria se você fosse criacionista literal de seis dias. Do contrário, não há nenhuma incompatibilidade.
Na próxima vez, vamos investigar a questão do naturalismo metodológico: até que ponto o cientista precisa comprometer-se com o naturalismo como pressuposto metodológico?[23]
[1] Cf. Gênesis 1.11,24.
[2] Ver Henri Blocher, In the Beginning: The Opening Chapters of Genesis (InterVarsity Press, 1984).
[3] Ver Johnny V. Miller, John M. Soden, In the Beginning… We Misunderstood: Interpreting Genesis 1 in Its Original Context (Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2012).
[4] 5:14
[5] “... o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia” (Papa Pio XII, Encíclica Humani generis, parágrafo 36, dada em agosto de 1950. Ver https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_12081950_humani-generis.html).
[6] 10:09
[7] Para o vídeo deste debate, ver /media/craig-vs-ayala-indiana-university (acesso em 23 de julho de 2013).
[8] 15:10
[9] Alvin Plantinga, Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism (Nova Iorque: Oxford University Press, 2011) [publicado em português com o título Ciência, religião e naturalismo: onde está o conflito? (São Paulo: Vida Nova, 2018)].
[10] “Não há nenhum conflito real entre a religião teísta e a teoria científica da evolução. O que há, pelo contrário, é o conflito entre a religião teísta e a glosa ou apêndice filosófico à doutrina científica da evolução: a afirmação de que a evolução é sem direção, sem orientação, sem orquestração por parte de Deus (ou de qualquer outro)” (Plantinga, Where the Conflict Really Lies, p. xii.).
[11] Ernst Mayr, Towards a new Philosophy of Biology: Observations of an Evolutionist (Cambridge: Harvard University Press, 1988), p. 98, conforme citado em Plantinga, Where the Conflict Really Lies, p. 11.
[12] 19:49
[13] Richard Lewontin, “Billions and billions of demons”, The New York Review of Books, 09 de Janeiro de 1997 (resenha de Carl Sagan, The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark). Disponível online apenas para assinantes, em http://www.nybooks.com/articles/archives/1997/jan/09/billions-and-billions-of-demons
[14] 25:07
[15] Cf. Gênesis 2.17; Romans 5.12-14, 17.
[16] “Por muitos séculos, Deus aperfeiçoou a forma animal que viria a tornar-se o veículo da humanidade e a imagem de Si mesmo. Ele lhe deu mãos cujo polegar pode tocar em cada um dos dedos, e mandíbulas e dentes e garganta capazes de articulação, e um cérebro suficientemente complexo para executar todas as moções materiais pelas quais o pensamento racional é encarnado. A criatura pode ter existido por eras neste estado, antes de tornar-se homem... Então, na plenitude do tempo, Deus fez com que descesse sobre este organismo, tanto na sua psicologia quanto na sua fisiologia, um novo tipo de consciência que podia dizer ‘eu’ e ‘mim’, que podia olhar para si próprio como objeto, que conhecia a Deus, que podia fazer juízos de verdade, beleza e bondade, e que estava tão acima do tempo que podia perceber o tempo passar. Esta nova consciência dominou e iluminou todo o organismo...” — C. S. Lewis, capítulo 5, “The Fall of Man” [A queda do homem], The Problem of Pain [O problema do sofrimento], 1940.
[17] 30:08
[18] Ver Francisco Ayala, Darwin’s Gift to Science and Religion (Washington, DC: Joseph Henry Press, 2007).
[19] Ver Pergunta da Semana 301, “Um Argumento Evolucionista contra o Teísmo (Cristão)”, em https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/um-argumento-evolucionista-contra-teismo-cristaeo.
[20] 34:59
[21] “… que razão temos para sustentar que a eficiência é sequer propriedade engrandecedora? ... O que é a propriedade de ser eficiente, afinal? Alguém eficiente é uma pessoa que administra a sua energia e tempo, atingindo os seus objetivos com o mínimo de energia e tempo possível. É bom possuir a propriedade da eficiência, caso se tenha poder e tempo limitados, ou os dois. Além destas limitações, porém, não fica nem um pouco claro que a eficiência é o tipo de propriedade que é melhor ter do que não ter. Segundo a concepção anselmiana de Deus, ele é tanto onipotente quanto eterno, não sofrendo limitações nem em relação ao poder nem ao tempo. Assim, parece que não há nenhuma boa razão para pensar que a eficiência é o tipo de propriedade que um ser anselmiano teria de exemplificar” — Thomas V. Morris, The Logic of God Incarnate (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1986), p. 78.
[22] Lee M. Spetner, Not by Chance!: Shattering the Modern Theory of Evolution (Nova Iorque: Judaica Press, 1998).
[23] Duração total: 37:57 (Copyright © 2013 William Lane Craig)