Criação e Evolução (Parte 13)

November 6, 2022

A concórdia com teorias biológicas evolutivas

Andamos tratando ao longo de muitas aulas sobre diversas interpretações de Gênesis 1. Agora, chegamos à segunda seção principal deste anexo que estamos fazendo à Doutrina da Criação e à origem e desenvolvimento da complexidade biológica, atentando para a concórdia da doutrina bíblica com teorias biológicas evolutivas.

Introdução

Como introdução, queremos ver as provas científicas pertinentes à origem da vida e à evolução da complexidade biológica. Ao fazermos, é importantíssimo lembrar que o nosso interesse aqui não é apresentar algum tipo de argumento do projeto para a existência de Deus ou, de fato, um argumento do projeto para qualquer tipo de arquiteto inteligente. Não estamos fazendo teologia natural aqui. Já o fizemos quando percorremos os argumentos a favor da existência de Deus. Antes, aqui estamos fazendo teologia sistemática. Não estamos fazendo teologia natural, estamos fazendo teologia sistemática. Estamos perguntando: “Dada a verdade da revelação divina na Bíblia, como é que as provas científicas relativas à origem e evolução da complexidade biológica podem ser integradas com a nossa teologia?”. Como cristãos pensantes, queremos ter uma visão do mundo e da vida que integra o que nos diz a ciência moderna acerca do mundo com a nossa teologia. Assim, o projeto aqui é, essencialmente, integrador: como devemos entender o mundo a partir do que ensina a nossa teologia e a partir do que ensina a ciência moderna? Como é que devem estar em acordo uma com a outra? Por isso, o nosso interesse aqui não é em nenhum tipo de argumento para a existência de Deus, mas, sim, na exposição de uma perspectiva cristã acerca dessas teorias científicas.

A compatibilidade do teísmo bíblico com a biologia evolutiva

Passemos para o assunto da compatibilidade do teísmo bíblico com a biologia evolutiva. Do que já dissemos, penso ser evidente que, uma vez que nos afastamos da interpretação literal de sete dias consecutivos de Gênesis 1, a passagem não diz bem nada a respeito do modo em que Deus criou a vida na terra. Quando lemos o relato de Gênesis, ele nada diz, de fato, a respeito de quaisquer mecanismos que Deus usou para criar complexidade biológica. Na realidade, em dois lugares na narrativa, o relato diz que Deus declarou: “produza a terra” vegetação ou animais terrestres,[1] o que sugere que eles podem, realmente, ter causas naturais que Deus pode ter usado para trazê-los à existência. Ele não disse simplesmente: “haja” vegetação e animais terrestres, mas “que a terra” gere estas coisas. Por isso, pode haver mecanismos naturais que Deus usou para trazer à existência a complexidade biológica. Assim, parece-me que, a menos que se adote a interpretação literal de Gênesis 1, não há nenhuma incompatibilidade entre Gênesis 1 e as teorias científicas sobre a origem e evolução da vida.

Alguns cristãos vão discordar, pois dirão que, segundo a teoria convencional da evolução hoje — comumente chamada de neodarwinismo —, as mutações que impulsionam a evolução são aleatórias e, portanto, não podem ocorrer com um propósito ou ser projetadas para ocorrer.[2] Segundo a teoria convencional neodarwiniana da evolução, mutações aleatórias ocorrem em organismos que geram variações e, então, a seleção natural eliminará as variações que não levam à reprodução e sobrevivência, de modo que as variações úteis à sobrevivência do animal em que elas ocorrem serão preservadas, e as variações deletérias serão eliminadas. Assim, explica-se a evolução por meio desses mecanismos de mutação aleatória e seleção natural em operação nas variações geradas pelas mutações aleatórias. Trata-se de teoria muito inteligente, na minha opinião, quando se pensa nela. É um jeito muito inteligente de explicar como a mudança evolutiva poderia acontecer ao longo do tempo. Alguns dirão que esta teoria é inerentemente incompatível com o teísmo bíblico, porque se diz que as mutações são aleatórias e, portanto, não podem ser dirigidas por Deus ou ocorrer com um propósito. É esta questão que vou abordar da próxima vez. Não temos tempo para tratá-la agora, mas já preparei o terreno.

Pergunta: Isto incluiria a evolução de homens a partir de não-humanos?

Resposta: Correto. Acho que não se tem em Gênesis, na história da criação do homem, repito, uma espécie de relato literal. Trata-se de relato muito metafórico. Acho que ninguém pense ter Deus literalmente abaixado e respirado no nariz de Adão, quando se diz: “soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida”.[3] Trata-se de relato figurado. Assim, quando se diz que Adão foi criado a partir do pó da terra, se for narrativa figurada, poderia muito bem descrever formas hominídeas pré-humanas — a matéria da qual elas são feitas. Assim, a menos que se entenda a questão de modo muito literal, acho que não fica tão claro assim que até mesmo a evolução humana seja incompatível com o teísmo bíblico.

Continuação: O senhor sugeriria Eva também? Toda a história da costela, que Deus causou sono em Adão e tirou-lhe uma das costelas, fechou-o e criou Eva a partir daí,[4] o que seria? Seria só pura mitologia?

Resposta: Certo, a criação de Eva a partir da costela de Adão seria outro exemplo, na minha opinião, que parece claramente figurado. Não acho que precisamos imaginar ter Adão caído no sono e Deus feito cirurgia nele, tirando uma das suas costelas e a transformando num ser humano. Parece ser linguagem figurada.

Continuação: Creio que foi tudo assim mesmo, mas vou discordar com o senhor neste caso. Só não acho que seja compatível com a inerrância, é isso.

Resposta: Depende do nível de literalidade que você vai levar em conta, e isto tem a ver com a primeira parte do curso, certo? Não é esta parte. Agora, estamos perguntando: “Como é que se explica a concórdia entre teoria evolutiva e Gênesis 1?”.

Pergunta: [longe do microfone] Mas é Gênesis 2, não Gênesis 1.

Resposta: Tudo bem, Gênesis 2 — entre Gênesis e a ciência moderna. A questão se relaciona ao nível de literalidade que se vê no relato. Mas trata-se de questão que já discutimos e está no passado. Caso se adote a interpretação literal destes relatos, claramente eles são incompatíveis com a abordagem evolutiva moderna. Porém, o que defendi é que há boas razões para pensar que não devem ser interpretados literalmente, e o próprio exemplo que você deu da criação do homem e da mulher é, sem dúvida, um dos melhores exemplos de algo que parece figurado demais. Uma vez que Deus não tem corpo, ele não pode soprar no nariz de Adão e dar-lhe vida. É um tipo de relato bastante antropomórfico que parece figurado. Mas isto já ficou para trás. Agora, queremos ver se a ciência moderna diz ou não coisas que seriam incompatíveis com o relato bíblico, se não for entendido literalmente.

Vamos nos deter nestas questões da próxima vez e, então, investigar o que a ciência moderna tem a dizer-nos acerca desses mecanismos de mutação e seleção natural, além da capacidade deles de produzir complexidade biológica.[5]


[1] cf. Gênesis 1.11, 24

[2] 5:00

[3] cf. Gênesis 2.7

[4] Gênesis 2.21-22

[5] Duração total: 10:24 (Copyright © 2013 William Lane Craig)