Criação e Evolução (Parte 12)

November 6, 2022

Hoje chegamos ao fim da nossa consideração de diversas interpretações de Gênesis, capítulo 1. Andamos vendo, ultimamente, o que denomino interpretação do mito hebraico (ou judaico) de Gênesis 1, conforme proposta por Johnny Miller e John Soden, no seu livro In the Beginning … We Misunderstood [No princípio… um mal-entendido nosso].[1] Vocês vão se lembrar que expliquei haver uma ambiguidade fundamental nesta interpretação, conforme eles a apresentam. Não fica claro se pensam que esses mitos antigos eram compreendidos literalmente pelas pessoas que criam neles, de modo que o que Deus fez, em Gênesis 1, foi adotar uma espécie de cosmovisão obsoleta e antiquada, não como um meio de endossar tal cosmovisão, mas simplesmente como um veículo para comunicar importantes verdades teológicas sobre a natureza de Deus e a natureza do mundo ao nosso redor. Será que é isto que está acontecendo em Gênesis 1? Ou será, por outro lado, que esses povos antigos, ao propor esses mitos sobre a criação do mundo e os seus habitantes, não os levaram tão literalmente assim e, portanto, seria injusto indiciá-los como se tivessem visão do mundo primitiva e cientificamente obsoleta? Antes, tratava-se de histórias figuradas com a intenção de serem entendidas como se representassem, simbolicamente, realidades metafísicas e espirituais. Neste caso, Gênesis 1 não está a adotar alguma espécie de cosmovisão científica ultrapassada e obsoleta para comunicar verdades teológicas; antes, ela é, em si, uma história ou relato figurado das origens do mundo que tem, no centro, o ensino de certas verdades teológicas sobre Deus, o que resumimos na lição anterior.

Conforme disse, Miller e Soden não deixam claro qual interpretação endossam. Na última semana, atentamos para inúmeras passagens do livro que sugere adotarem a primeira interpretação: a de que esses povos antigos criam, de fato, nesses mitos, literalmente, e que Gênesis adota esse modo de falar sem, necessariamente, endossá-lo. Pessoalmente, tenho muitas dúvidas de que esses povos antigos deveras cressem nesses mitos, literalmente. Acho que não pensavam ser o mundo realmente conforme o descrevem esses mitos. Por exemplo, considere os mitos egípcios sobre a criação do mundo a partir do oceano primevo. De acordo com Miller e Soden,

Para o Egito, o evento da criação era reencenado nas suas experiências dia após dia. O tempo entre a noite e a manhã era uma luta, enquanto o sol combatia as trevas e o caos, mas, em última instância, “o deus-sol emerg[ia] cada manhã do oceano primevo Nun e, com esse jornada diária, assegura[va] a ordem no cosmo”.[2]

Ora, será que devemos pensar mesmo que esses egípcios antigos, realmente, criam que, quando iam dormir à noite, eles e tudo mais retornavam ao oceano primevo e que, quando acordavam de manhã, tudo estava recriado? Não consigo pensar que era nisso que os egípcios antigos realmente criam. Sem dúvida, alguns deles, pelo menos, deviam ficar acordados vez ou outra a noite inteira para ver o que realmente acontecia. Com certeza, os soldados em vigília no palácio sabiam que o palácio, o faraó e eles mesmos não retornavam ao oceano primevo todas as noites e reemergiam. Antes, penso que fica claro ser esta apenas descrição simbólica ou figurada da criação, e eles não pensavam que era reencenada de modo literal noite após noite, quando iam para a cama.

Igualmente, em relação a Israel, não penso que os israelitas antigos entendessem essas histórias e metáforas, necessariamente, de modo literal. Por exemplo, considere o salmo citado por Miller e Soden sobre a maneira em que Deus estabeleceu a terra sobre os pilares da terra.[3] Sem dúvida, os israelitas antigos não pensavam que o mundo repousava, literalmente, em pilares.[4] Miller e Soden dizem: “os povos antigos talvez tenham entendido tais declarações como realidade literal por causa das suas próprias observações”.[5] Isto, porém, está patentemente errado. Ninguém observara os chamados pilares da terra. Ninguém havia ido e visto que a terra repousava sobre pilares literais. Isto parece, muito claramente para mim, pelo menos, uma metáfora para a maneira em que o mundo foi fundado e estabelecido por Deus. Porém, com certeza, ninguém observara essas coisas. Ou, mais uma vez, o que dizer do firmamento? Os israelitas estiveram no topo do monte Carmelo ou monte Hermom, e eles devem ter visto que não havia uma espécie de cobertura ou domo sólido que repousava no topo do monte Carmelo quando se chegava lá em cima. Eles teriam visto que o céu continuava a ser uma extensão acima deles em que as nuvens passavam e as aves voavam. Não há absolutamente nenhuma razão para pensar que criam as montanhas sustentavam esse domo sólido a repousar acima deles. De fato, estou convencido de que, caso se mostrasse a um israelita antigo uma dessas representações artísticas no livro de Miller e Soden do que o mundo supostamente pareceria, de acordo com essas descrições antigas no Antigo Testamento, e se dissesse ao israelita antigo: “O que é isto?”, acho que ele absolutamente não reconheceria que era uma imagem do modo como é o universo ou uma imagem reconhecível do mundo. Por isso, sou tão cético. Gostaria de ver algumas provas sólidas que sugiram os povos antigos, em geral, e os israelitas antigos, em particular, interpretarem essas histórias mitológicas de modo literal, e não figurado.

Por outro lado, há passagens no livro de Miller e Soden onde parecem endossar a interpretação figurada ou simbólica. Parecem não pensar que os antigos concebessem tais mitos literalmente. Por exemplo, nas páginas 48-49, dizem o seguinte:

Cremos que entender Gênesis 1, na sua língua e contexto originais, leva-nos a concluir que, grosso modo, trata-se de apresentação figurada de verdades literais... o texto em si nos leva a uma abordagem mais figurada.[6]

 

Novamente, mais adiante no livro, na página 148, escrevem eles:

Já sugerimos que inúmeros detalhes exegéticos permitem e até mesmo apontam, grosso modo, para a abordagem figurada de Gênesis 1, em vez da abordagem cronológica “literal”.[7]

 

Eles dizem isto, principalmente, em relação aos sete dias da criação: que não são ordenados em ordem cronológica. Penso, porém, que a observação deles poderia ter aplicação mais geral à história como um todo: é de natureza figurada. Mais uma vez, afirmam:

Nem a cosmogonia (como o universo veio a existir) nem a cosmologia (como se compreende o universo, incluindo a relação dos deuses), no mundo antigo, eram entendidas a partir da ciência ou história, mas, sim, como explanações metafísicas e simbólicas ou como meio de “articular o incompreensível e maravilhoso, enquanto se buscava expressar tais fenômenos de maneira racional”.[8]

Prosseguem eles:

Não estamos dizendo que Gênesis 1 é inverdade. Estamos sugerindo que, ao tomar emprestado os eventos da cosmogonia egípcia, situando-os em estrutura de sete dias, o autor estava enfatizando a importância teológica para a nação de Israel. Ele não estava fazendo uma afirmação sobre o que ele considerava ser (ou o que Deus considerava ser) uma linha do tempo histórica, particularmente baseada na precisão que as nossas mentes modernas exigem. Com seu contexto no Egito antigo, Israel não teria exigido ou esperado uma estrita correlação histórica (moderna). Os sete dias de criação devastam, claramente, a teologia do “primeiro tempo” ou do único dia da criação reencenado diariamente, segundo os egípcios.[9]

Segundo esta visão, Gênesis 1 não está adotando uma cosmogonia protocientífica, ultrapassada e cientificamente imprecisa.[10] Antes, trata-se, como os próprios mitos egípcios antigos, de uma espécie de relato figurado ou simbólico da criação, projetado para comunicar verdades teológicas que contradizem acentuadamente os mitos pagãos egípcios com aquilo que era usual a Israel. Vocês vão se lembrar, mais uma vez, o que eram essas verdades teológicas, pela aula anterior sobre Deus ser o único e soberano criador de todas as coisas no universo, e tudo mais ser, simplesmente, criatura feita por Deus. Não são, em si, divindades e, portanto, não devem ser cultuadas ou servidas, nem tampouco controlam o nosso destino.

Assim, isto dá uma perspectiva muito diferente, na minha opinião, à interpretação do mito hebraico de Miller e Soden. Não me é totalmente claro qual dessas interpretações eles, de fato, endossam. Penso que seja a segunda. Penso que ela é muito mais plausível do que a primeira intepretação, que parece ser uma espécie de abordagem do século XIX à mitologia, em que se lê de modo muito engessado, como tentativa protocientífica de descrever o mundo, e não como tentativa figurada ou simbólica de explicar a natureza do universo e de Deus.

Pergunta: Fico me perguntando, dado o modo em que Miller e Soden criaram o seu relato da criação egípcia ao percorrer e selecionar detalhes de alguns milênios de materiais, o quanto eles escolheram a dedo os seus dados para chegarem a uma história da criação egípcia com semelhanças superficiais, e se outro estudioso teria formulado um relato de criação bem diferente.

Resposta: Pois é, esta é uma preocupação minha também. Não posso responder à pergunta, porque não sou egiptólogo. Como disse, eles não citam as fontes originais no livro, de modo que não posso fazer esse tipo de comparação. Isto nos leva a suspeitar que os dados podem muito bem ter sido escolhidos a dedo. E vimos como essa metodologia pode ser abusada em estudos do Jesus histórico, podendo ser abusada neste caso também. Por isso, penso, sim, que precisamos de mais informações, basicamente. Não estou fechando as portas para eles, mas acho que precisamos de mais informações para sermos convencidos.

Pergunta: Não cremos que os egípcios acreditassem, de fato, nos mitos; e será que, de algum modo, estamos imputando ao fato de ser a história egípcia da criação um mito, de certa forma, a história israelita da criação ser um mito ou dever ser entendida de modo não-literal?

Resposta: Esta seria a interpretação deles. Sim, eles diriam que o relato da criação, em Gênesis 1, pertence ao mesmo gênero literário desses outros mitos antigos de criação. Lembre que enfatizei que dizer ser algo um mito não significa, neste contexto, que se trata de mentira, falsificação ou ficção. Trata-se de narrativa que busca proporcionar uma espécie de explicação definitiva da própria sociedade e cultura, e assim por diante, como o sábado que se tem em Gênesis 1. Assim, neste sentido, penso que Gênesis tem, sim, função mítica. O que eles diriam é que, quando ele é lido no contexto desses mitos egípcios, são tão semelhantes de diferentes maneiras (e acabei de dizer que isto precisa ser demonstrado mais a fundo) que se sugere que deveriam ser interpretados da mesma forma. É esta a ideia.

Continuação: Penso que a premissa subjacente que eles têm é que os mitos egípcios e outros mitos de criação foram escritos antes de Gênesis porque a hipótese deles era que não tínhamos textos antes de 1000 a.C. Acho que isto está errado.[11] Se o relato de Gênesis foi escrito antes dos outros, muita coisa se explicaria.

Resposta: No caso, acho que precisamos ter uma posição com muito mais nuanças para defender essa ideia. Isto porque esses textos que estão no nosso Antigo Testamento foram escritos em hebraico. Assim, obtemos uma ideia muito boa das origens da língua hebraica e do tipo de hebraico usado que oferece uma data anterior àquela em que o texto não poderia ter surgido. Mas o que se poderia dizer é que esse texto hebraico incorpora tradições entre outras coisas que foram transmitidas, talvez nem mesmo em hebraico, mas foram, em algum momento, escritas, proporcionando, portanto, uma espécie de fonte comum que estaria por trás das duas histórias e talvez outras parecidas. Acho que se pode dizer algo assim. A questão seria se a posição é defensável ou não. Não tenho a qualificação para dizer.

[A próxima pergunta é, simplesmente, um longo comentário de uma pessoa a defender a sua própria teoria de Gênesis a partir da perspectiva de Deus.]

Resumo e implicações

Chegamos, então, ao resumo e implicações. Penso que já conseguem ver, com este panorama de diversas interpretações bíblicas de Gênesis 1, que há uma ampla gama de interpretações de Gênesis 1 defendidas por estudiosos evangélicos crentes na Bíblia. Não estamos encaixotados em apenas uma interpretação válida e sólida para o cristão crente na Bíblia. Há uma ampla gama de interpretações de Gênesis 1. Talvez você diga: “Pois bem, quais destas interpretações é a melhor, se é que alguma delas é? Qual você endossaria?”. Aqui preciso dar minha visão honesta: não sei! Ando estudando e lendo sobre o assunto há muito tempo e ainda não tenho certeza de qual é a melhor visão. Assim, não tenho uma opinião cerrada sobre o assunto. Mas acho que não há problema nisto. Penso que o cristão pode ter a mente aberta para diversas interpretações de passagens bíblicas e não precisa enquadrar todo mundo em apenas uma interpretação aceitável. Espero que, em decorrência deste panorama, você ganhou um novo apreço da rica diversidade de visões que biblistas crentes adotam sobre esta passagem. Espero que você tenha gostado de percorrer algumas destas interpretações tanto quanto eu. Foi bom para mim passá-las em revista e ler alguns dos livros mais recentes, como o de Miller e Soden. Espero que você tenha achado tudo isso estimulante. Porém, quando se trata de dar um juízo definitivo sobre estas interpretações, ainda não estou nesta posição. Por isso, simplesmente tenho de manter-me aberto neste quesito.

Pergunta: Quando se entra em discussões com descrentes ou agnósticos, esta é uma das coisas que eles indicam quanto à validade de Deus e da religião. Quando se entra nessas discussões, como enfrentar a questão?[12]

Resposta: Obrigado por fazer esta pergunta, porque você está totalmente correto. Em decorrência da influência de gente como Richard Dawkins e alguns outros biólogos evolutivos, penso que uma das principais razões para a descrença, até mesmo para o ateísmo por parte de muitas pessoas hoje, é estarem convencidas de que Gênesis 1 ensina que o mundo foi criado em seis dias consecutivos de 24 horas, dez a vinte mil anos atrás, e que o cristão crente na Bíblia tem de aceitar isto e, portanto, rejeitar o que diz a ciência moderna sobre a idade do universo, a idade da terra e a origem da complexidade biológica. Espero que este panorama que percorremos mostre como esse tipo de objeção é completamente despropositado. O que faço ao lidar com descrentes, quando o assunto é trazido à tona, é simplesmente compartilhar com eles algumas dessas perspectivas e interpretações alternativas, mostrando que há cristãos crentes na Bíblia que as defendem. Não preciso propor nenhuma delas; nem sequer preciso negar que a interpretação literal esteja correta. Tudo que se precisa fazer é mostrar que se pode ser cristão crente na Bíblia sem estar comprometido com um mundo de 6 mil anos de idade, criado em seis dias de 24 horas. Isto tira o tapete de debaixo da objeção. Acho que se trata de material muito importante, por tirar o tapete de debaixo do que, na minha opinião, é a principal razão para o ateísmo ou agnosticismo por parte da cultura popular hoje.

Continuação: Com certeza, é uma resposta, mas não sei... nas minhas conversas com alguns dos amigos do meu filho, quando começamos a falar do assunto, eles simplesmente ignoram a questão e me dizem: “Diga algo definitivo. Como é que você, como cristão, crê que haja algum tipo de história limitada da criação, já que há tantas provas geológicas disponíveis?”

Resposta: Se você está ouvindo o que acabei de falar, caso alguém me diga: “Como é que você pode acreditar, como cristão, que o mundo foi criado em seis dias literais de 24 horas, cerca de 10 mil anos atrás?”, eu direi: “Não creio nisto, e não é preciso crer nisto para ser cristão”. Lembro que, quando palestrava na Universidade da Irlanda do Norte uma vez, um aluno veio conversar comigo depois da minha preleção e me disse: “Meus amigos andam compartilhando comigo sobre Cristo. Para virar cristão, preciso crer que o mundo foi criado em seis dias de 24 horas?”. Eu respondi: “Não, você não precisa crer nisto para ser cristão”. E o rapaz elevou as mãos ao céu e disse: “Aleluia! É algo que estava me prevenindo de entregar a minha vida a Cristo”. Assim, a simples explicação de que há uma gama de opções era tudo que ele precisava ouvir. Se os amigos do seu filho têm a mente aberta, em vez de só usarem a questão como pretexto para a descrença, deveriam satisfazer-se em saber que, como cristão, não é preciso estar comprometido com estas visões que acham censuráveis. Caso você sustente a visão de Miller e Soden, ou a visão da teoria da lacuna, ou a visão do dia-lacuna, não há nenhum problema. Assim, pergunte-lhes qual é o problema e peça que expliquem. Penso que só o fato de saber destas opções já é apologética muito poderosa.

Pergunta: Parece-me que, na apologética, nós nos concentramos nestas questões e objeções que eles têm, mas será que a objeção deles não é mesmo se eles são materialistas ou se acreditam no sobrenatural? Porque parece que, ao subir um degrau na cadeia alimentar, muitas vezes é a negação total que fazem do sobrenatural, em geral, que rejeitaria todas essas diversas teorias, sejam elas de seis dias literais, ou seis mil ou seis milhões.[13]

Resposta: Pois bem, gastamos, como você sabe, meses neste curso falando sobre argumentos cosmológicos para a existência de Deus, argumentos do ajuste fino, argumentos morais e argumentos ontológicos. Assim, está tudo situado no contexto de uma robusta teologia natural para a existência de um criador pessoal do universo que é sem começo, atemporal, a-espacial, incausado, imaterial, inteligente, tremendamente poderoso e maximamente grande, sendo ele a fonte de valor e dignidade morais objetivos. Por isso, não se esqueça da nossa teologia natural. Mas digo, sim, com toda candura, ao menos nas minhas palestras a colegiais e universitários, muitas vezes não é nada tão profundo ou sofisticado, como você acabou de dizer. É só que eles pensam que, se você é cristão, precisa crer que o mundo foi criado 6 mil anos atrás, em seis dias consecutivos de 24 horas, mas não conseguem crer nisso. Mesmo jovens de boa vontade, como meu amigo na Irlanda do Norte, não conseguem crer nisso. Para eles, é como se estivessem cometendo suicídio intelectual, à luz do que aprenderam em biologia e ciências da terra no colegial. É, realmente, muito menos sofisticado, na minha opinião, do que o tipo de anti-sobrenaturalismo que você expressou. Ora, se for isso mesmo, obviamente, você precisa ir bem mais a fundo do que eu acabei de dizer.

Continuação: E se, hipoteticamente, por não o terem aceitado como a explicação da criação, disserem: “Sou cristão agora, porque não precisei crer nisso” e, ao longo do tempo, a ciência ou a experimentação e observação pareçam provar que, talvez, foram mesmo seis dias? Será que isto vai anular o testemunho cristão deles?

Resposta: É uma pergunta interessante. Acho que não. Porque, lembre-se, acho que a interpretação literal é uma opção que pode estar certa. Penso haver razões para achar que não está certa, mas elas não são definitivas. Por isso, honestamente — com toda sinceridade aos meus irmãos e irmãs! —, fico mesmo aberto a uma gama de visões alternativas. Não me seria nada preocupante se a ciência virasse de cabeça para baixo e, de repente, demonstrasse que o mundo tem 6 mil anos. Ficaria feliz e nem um pouco incomodado. Estou mesmo aberto a uma diversidade de opiniões, neste caso. Como falarei da próxima vez, acho que, por isso, podemos largar mão da questão teologicamente e deixar que a ciência nos diga se o mundo tem ou não 6 mil anos ou 13,7 bilhões de anos.

Pergunta: Gostaria de fazer um comentário. Estamos lidando com fundamentalismo secular. Só enxergam as coisas de um jeito também.

Resposta: Se eu entendi você, o que está dizendo é que o secularista só enxerga o cristianismo como se este tivesse apenas uma visão, uma visão que consideram absurda. É verdade. A objeção parte da ignorância. Jamais leram livros sobre o assunto. Jamais estudaram Gênesis 1. É pura cultura popular baseada na ignorância. Por isso, se você chegar com uma gama mais abalizada e generosa de opções e disser: “Ora, você não precisa se comprometer com isso para crer em Cristo”, eu espero que, se a pessoa busca com sinceridade, receberá de bom grado as informações e estará, portanto, mais aberta a Cristo.

Pergunta: Uma das inquietações com todo este assunto é esta: o senhor diz que a ciência pode e deve poder informar-nos sobre estas questões, porque, teologicamente, estamos seguros, independentemente de qual seja a resposta. Mas será que é verdade com respeito a Adão? Porque me parece que Adão é figura histórica. Até mesmo em Lucas, a genealogia de Jesus remonta até a Adão e passa por todas essas figuras históricas. O senhor poderia comentar as implicações teológicas, neste caso, e por que podem ser preocupantes?

Resposta: Sim, no caso, você está fazendo uma pergunta muito boa sobre a historicidade de Adão e Eva. Será que devem ser considerados figuras puramente simbólicas, como afirmam algumas pessoas, ou será que eram mesmo pessoas históricas que realmente viveram? Quando chegarmos à seção da Doutrina do Homem, neste curso, voltaremos ao assunto: o que ensina a antropologia sobre as origens humanas e o que ensina a antropologia teológica.[14] Discutiremos a questão em mais detalhes. Penso que o Novo Testamento, assim como o Antigo Testamento, parece nos comprometer com um Adão e Eva históricos. Assim, teremos de abordar como isto é defensável à luz da antropologia moderna. Por isso, aguente aí para esta questão mais à frente.

Pergunta: Estou só pensando no testemunho ao descrente, e parece-me, pelo que ouvi, quer se adote o que está escrito literalmente, quer como simbolismo, está tudo na mente do crente. A grande ideia é que o mundo foi criado nos sete dias, mas ela está apontando para o fato de que Deus é o criador. O importante a crer é que Deus é o criador de tudo, e não quantos dias levou para criar.

Resposta: Sem dúvida, concordo com você que é este é o argumento que Walton, Miller e Soden e Blocher fazem. Parece-me ser central e fundamental. O que temos aqui em Gênesis 1 é um relato monoteísta da criação que atribui tudo a Deus. E isto é verdade especialmente, conforme argumentamos, no versículo 1, em que a criação começa de fato, e não no versículo 2. O versículo 1 diz que tudo, no princípio, foi criado por Deus. Por isso, penso que, teologicamente, você está correto. Mas quero dar uma correção e admoestação em relação ao que você disse logo no começo. Não está apenas na mente do crente se ele entende a questão simbólica ou literalmente. Isto leva imediatamente ao subjetivismo e relativismo — o que o texto quer dizer para você e, então, cada um compartilha a sua própria perspectiva subjetiva, e todos os limites se rompem: isto leva imediatamente a uma espécie de visão subjetivista. Antes, o que estamos perguntando aqui é: “Como é que o autor pretendeu que este texto fosse interpretado, e como é que o seu público original o teria entendido, quando o ouviu?”. Trata-se de questões objetivas que literatos discutem, investigam e debatem. Não é só uma questão de se sentar num estudo bíblico e perguntar: “o que este texto quer dizer para mim?”, o que pode ser muito subjetivo e relativista. Aqui, estamos lutando para responder a uma questão objetiva, mas penso que o seu comentário teológico sobre o que seja fundamental e fundacional, neste caso, está correto, sem dúvida alguma. Não são os sete dias; é Deus como criador de tudo.[15]


[1] Johnny V. Miller, John M. Soden, In the Beginning… We Misunderstood: Interpreting Genesis 1 in Its Original Context (Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2012).

[2] Ibid., p. 107.

[3] “A terra e todos os seus moradores derretem-se de pavor, mas eu lhe fortaleci as colunas” (Salmos 75.3).

[4] 5:06

[5] Ibid., p. 45.

[6] Ibid., pp. 48-49.

[7] Ibid., p. 148.

[8] Ibid., p. 16.

[9] Ibid., p. 156.

[10] 10:33

[11] 15:00

[12] 19:59

[13] 24:57

[14] 30:03

[15] Duração total: 33:19 (Copyright © William Lane Craig 2013)