Criação e Evolução (Parte 11)

October 7, 2022

Andamos falando da interpretação do mito hebraico de Gênesis 1. Partilhei com vocês que esta é visão recentemente defendida por Miller e Soden, no seu livro In the Beginning... We Misunderstood [No princípio… um mal-entendido nosso].[1] Vocês talvez estejam se perguntando quem são esses autores. Pois bem, são professores na Faculdade Bíblica de Columbia e na Faculdade Bíblica de Lancaster, ambos com doutorados do Seminário Teológico de Dallas. Assim, têm boa fé conservadora que é impecável.

Vimos, na última vez, que pensar que Israel, depois de estar em cativeiro no Egito por uns quatrocentos anos e, de fato, de adorar divindades egípcias, desenvolveu a sua própria história da criação, em reação a esses mitos egípcios da criação. O importante sobre a história da criação não era a sua verdade literal — a sua verdade científica —, mas, sim, as verdades teológicas que ela incorporava. Na história hebraica da criação, vemos tanto semelhanças com os mitos egípcios da criação quanto diferenças agudas e marcantes, com o povo de Israel a rejeitar os mitos pagãos politeístas e a substituí-los, por assim dizer, com um mito monoteísta hebraico do Deus criador de Israel.

Depois de partilhar com vocês, na última vez, um breve resumo da história egípcia da criação, na medida em que a história pode ser reconstruída de diversos textos que perpassam dois milênios, permitam-me dar o resumo do que eles pensam ser a teologia hebraica da criação, contrastada, em seguida, com a teologia egípcia da criação. Isto se encontra nas páginas 176-177 do livro, e vou simplesmente ler este resumo deles:

No dia 1, Deus separa a luz das trevas e põe em movimento o dia e a noite. É o ponto de partida necessário para tudo que vem a seguir, trazendo luz e ordem à massa de água desordeira e infinita. Ele se mostra a fonte e controle do dia e noite. A luz não é divina (sol e lua), e as trevas não são ameaça. Do caos da massa aquática, Deus, primeiro, produz ordem, ensinando que as trevas não devem ser temidas, e a luz não deve ser reverenciada. O próprio Deus é o criador da luz, tanto espiritual quanto física... No dia 2, Deus ordena o firmamento no seu lugar para reter as águas ameaçadoras acima e abaixo. Ele é quem sustenta o mundo no seu lugar e prepara o palco onde a humanidade executará a história do reino de Deus. Deus retém as águas e, então, libera-as de acordo com a sua vontade. No dia 3, Deus ordena as águas em um lugar e manda que a terra seca apareça. Na terra, ele chama à existência plantas vivas, que nutrirão a humanidade. Ele funda a terra sobre as águas, estabelecendo a sua autoridade sobre a terra tanto quanto a água. Ele provê alimento para as criaturas que, em breve, criará. O palco está totalmente montado. Tudo que, anteriormente, era tohu (desolado) está, agora, organizado e ordenado. Tudo molhado e tudo seco pertence a Deus. Ele pode fazer com isto aquilo que quiser. No dia 4, Deus começa a decorar o cosmo, colocando os luminares celestes no seu lugar. Os luminares, mantidos anônimos deliberadamente, servem como marcadores impessoais do tempo. Não são deificados como controladores da história, como em outras culturas. Não controlam os assuntos da humanidade ou os movimentos da história, pois somente Deus pode fazê-lo. No dia 5, Deus traz à vida criaturas vivas que preenchem o céu e as águas que estavam vazios até então. Cada nicho da criação tem o seu propósito e os seus habitantes.[2] Nada disto aconteceu por acaso. Ademais, ninguém compete com o poder e autoridade de Deus. Até mesmo as grandes criaturas marinhas — os temidos “monstros” — são, simplesmente, criaturas sob a autoridade de Deus. No dia 6, Deus preenche o último nicho vazio da sua criação: a terra. Primeiramente, ele cria os animais, “todas as criaturas, grandes e pequenas”. Então, ele forma a criatura singular, feita à imagem do próprio Deus: a humanidade. Este é o clímax do processo criador: seres humanos feitos à imagem de Deus para servir como seus regentes na terra. Todas as criaturas feitas antes dos humanos estão sob a autoridade delegada da humanidade. Tudo que era bohu (vazio) agora transborda vida. No dia 7, a semana de trabalho divina está completa, para jamais ser repetida. Deus terminou o ordenamento e preenchimento do seu cosmo, e colocou na terra alguém para cuidar dos seus interesses e trazer-lhe o culto e glória devidos. É hora de Deus pôr de lado o seu uniforme de trabalhador, vestir suas vestes reais e tomar o seu trono de descanso. E é hora de que esta nova criação se junte a ele em tal repouso e desfrute das maravilhas e beleza da criação, numa relação familiar com o Criador. É um dia infindável — a saber, o sétimo dia —, com a oferta de comunhão ilimitada a todos que a desejam.[3]

Assim, este seria o conteúdo teológico desse mito hebraico da criação, conforme o entendem. Concordam com a visão de Blocher[4] de que os dias não tinham a pretensão de ser ordenados cronologicamente. Vocês vão se lembrar que, de acordo com Blocher, os primeiros três dias criam a esfera ou o domínio para algo e, então, os segundos três dias criam os habitantes desse domínio: os animais, as criaturas marinhas, as aves e, enfim, o próprio homem. Assim, não pensam que esses sete dias têm a pretensão de representar, necessariamente, uma ordem cronológica. Antes, trata-se de artifício literário da criação de esferas ou lugares e, então, do preenchimento destes com diversas criaturas. Também concordam com a visão de Walton[5] (que discutimos da última vez) de que a criação, de fato, começa com o versículo 2 de Gênesis 1, e não com o versículo 1. O versículo 1 é apenas um título sumário: a criação começa, de fato, no versículo 2, com as águas primevas já instaladas.

Pergunta: Como eles sabem que é esta a versão egípcia? Qual é a possibilidade que os hebreus tenham trazido esta versão para o Egito?

Resposta: Eles não tratam desta questão, mas penso que se enquadrariam no consenso da pesquisa veterotestamentária de que a narrativa hebraica da criação não é tão antiga. Obviamente, pode-se dizer que está baseada em tradições orais anteriores, transmitidas por incontáveis gerações. Não abordam esta questão. Eles, simplesmente, olham os paralelos e, então, como eu disse, depreendem que, porque Israel estava no Egito e adorava aos deuses egípcios, Gênesis 1 vem depois, tendo sido escrita como uma espécie de reação a essa religião anterior que fora incutida neles. A visão tradicional da autoria do Pentateuco é que foi Moisés quem o escreveu. Se for assim, seria refletido algo posterior às histórias que ouviram no Egito.

Pergunta: Então, os primeiros seis dias não são cronológicos e, portanto, Deus pede à humanidade que entre no sétimo dia com ele. Antes de se chegar ao sétimo dia, no descanso celeste com Deus, ainda se está em um desses outros dias, como o sexto dia?[6]

Resposta: Não vejo como se conclui isso. Não estão negando que Deus tenha feito essa obra de criação e, agora, não está mais a fazê-la. Ele está no sétimo dia agora. Ele não está mais nesse modo criativo. Porém, não pensam que a sequência em que ele fez esta criação é, necessariamente, a mesma sequência narrada ao longo de sete dias.

Continuação: Entendo o que você está dizendo, mas estou tentando perguntar onde isso tudo situa a humanidade antes de nascerem de novo e estarem em repouso com Cristo.

Resposta: Ah, eles nem sequer abordam esse tipo de questão teológica. Ela não entra em jogo.

O que podemos dizer para avaliar esta visão? Penso que seja importante, primeiramente, dizer algo acerca da natureza do mito. O que são mitos? Mitos são narrativas sagradas que servem para fundamentar uma cultura e as suas instituições. Ao contar a história, uma cultura mostrará a sua origem e a sua fundação, particularmente no que diz respeito a práticas culturais significativas. É importante porque a palavra “mito”, na cultura popular, não é empregada deste modo. Quando as pessoas usam a palavra “mito”, costumam querer dizer algo como ficção ou, até mesmo, mentira, e não uma espécie de narrativa fundacional para uma cultura. Assim, é importante entender que, quando se fala de mitos da criação, não estão sendo empregados no sentido popular de uma história falsa ou invenção. Antes, é narrativa sagrada que busca fundamentar uma cultura e a sua instituição em algum tipo de relato da criação.

Gênesis 1 serve, claramente, a esta função. Penso que serve, claramente, a este papel mítico. É uma história da criação que fundamenta tudo em Deus e no seu poder, servindo também, especialmente, para fundamentar a prática do sábado por parte de Israel. Claramente, a prática de observar o sábado, que é tão central à identidade de Israel, fundamenta-se ou baseia=se na história da criação dos seis dias da obra de Deus e, então, no sétimo dia do seu descanso. Gênesis 1 serve, claramente, a uma espécie de função mítica na fundamentação de Israel e do mundo, especialmente as suas práticas sabáticas.

No entanto, conforme também observam Miller e Soden, Gênesis 1 drasticamente desmitologiza, de diversas maneiras. Quando comparado com os mitos pagãos dos vizinhos de Israel, o notável é a ausência de quaisquer deuses e deusas, de monstros ou forças guerreiras opostas a Deus, que ele deve combater e vencer. Em particular, não há nenhuma divindade astral em Gênesis 1. Conforme observam eles, o sol e a lua são apenas o grande luminar e o pequeno luminar: são apenas luminares no céu criados por Deus. As estrelas não são deuses. São apenas criaturas sob o controle de Deus. Igualmente, isso ganha destaque especial, caso adotemos a visão de que o versículo 1 ensina, de fato, creatio ex nihilo, como defendi. Já ofereci uma crítica da visão de que a criação não começa com o versículo 1, de modo que não vou repetir aqui; porém, na medida em que Miller e Soden rejeitam a visão de que a criação começa no versículo 1, penso que não conseguem entender adequadamente a função da narrativa na fundamentação de tudo no poder e autoridade absolutos de Deus. Ele é quem traz o mundo à existência a partir do nada, no versículo 1, de maneira que não há nenhuma força oposta a Deus que ele deva vencer e derrotar a fim de criar o mundo. Assim, Gênesis 1 tanto desmitologiza a narrativa da criação quanto serve também a uma espécie de função mítica.

Pois bem, em relação à tentativa de Miller e Soden de ver Gênesis 1 como se fosse moldado significativamente por mitos egípcios da criação, devo dizer que ainda sou bastante cético quanto à tentativa de enxergar o relato da criação em Gênesis 1 como se fosse moldado por mitos egípcios da criação.[7] Uma das dificuldades na avaliação é, simplesmente, que não temos um mito coerente da criação no Egito. Vocês vão se lembrar que é tudo juntado de uma diversidade de textos, recortes e inscrições ao longo de dois milênios, de modo que é dificílimo sequer falar de um mito coerente da criação.

O meu ceticismo, entretanto, vai ainda mais fundo. Não sou estudioso do Antigo Testamento, mas, na área de Novo Testamento, encontra-se esse mesmo tipo de tentativa de explicar os motivos do Novo Testamento ao se acharem paralelos na mitologia pagã ou em textos judaicos do Antigo Testamento. Isto levou à rejeição generalizada desta técnica nos estudos do Jesus histórico. Pode-se encontrar paralelos para quase tudo. Case se busque com muita insistência, pode-se encontrar paralelos a uma história em outras histórias para as quais não há absolutamente nenhuma relação genética. Por exemplo, em estudos do Jesus histórico., sei que muitos estudiosos observam as semelhanças significativas entre a história do sepulcro vazio de Jesus e a história de Daniel na cova dos leões.[8] Ou a história de Josué e os cinco reis selados na caverna com pedras.[9] Ou mesmo Jacó a remover a pedra pesada do poço a fim de dar água aos animais.[10] Ainda assim, essa história do sepulcro vazio não pode derivar de todas essas outras histórias, embora se possa encontrar paralelos, como a pedra pesada, a caverna e coisas assim. Então, temos de ter ciência do que foi denominado “paralelomania” por parte de alguns estudiosos, porque é fácil selecionar histórias específicas a fim de extrair semelhanças, sem haver nenhum tipo de relação genética entre elas.

Acho muito significativo que, assim como esse supostos miticistas que tentam explicar o Jesus histórico com base em paralelos a mitos antigos, Miller e Soden também deixam de citar as fontes originais que, segundo alegam, contêm tais paralelos. Vocês vão ver que as pessoas que dizem serem determinados motivos ou crenças cristãos derivados da mitologia quase nunca citam as fontes originais. Jamais citam os mitos originais. Por quê? Porque, quando se leem no contexto, pode-se ver que, embora eles se cruzem num paralelo ou num ponto aqui ou ali, a coisa toda é tão completamente diferente e tão completamente dessemelhante que os paralelos se tornam banais e insignificantes. Assim, temos de dizer que não se trata de trabalho de pesquisa importante. Por mais interessante que seja, precisamos que eles nos exponham os textos egípcios — citando-os de fato — e, então, mostrem os paralelos, caso queiram que creiamos serem tais paralelos indicações importantes de uma relação genética entre Gênesis 1 e as histórias egípcias.

De fato, os paralelos que eles alegam não são tão impressionantes assim, ao observá-los. O melhor paralelo, penso eu — e bastante claro e marcante —, seria a presença do oceano primevo no princípio. Tanto nos mitos egípcios quanto em Gênesis 1, tem-se a criação a partir de uma espécie de escura massa aquática primeva. Parece ser semelhança significativa. No entanto, tal motivo é comum em histórias míticas: a ideia de um oceano primevo ou águas das quais emerge o mundo, mesmo histórias que não têm absolutamente nenhuma conexão genética com Israel. Assim, embora seja paralelo interessante, é difícil avaliar a sua importância. Miller e Soden se socorrem muito do fato de que, nesses mitos egípcios, a luz existia antes do sol. Dizem que se trata de paralelo a esta característica deveras desconcertante do relato de Gênesis, em que se tem a luz já no dia 1, mas o sol não é criado até o dia 4.[11] Afirmam que isto reflete esses mitos egípcios da criação. Porém, mais uma vez, infelizmente, não citam os textos egípcios para que os examinemos. Parece ser, simplesmente, uma inferência que fazem. Ou seja, como o deus-sol emerge das águas antes de ser criado o sol, inferem que deve ter havido luz antes da existência do sol. Porém, trata-se de uma inferência. Não é nem um pouco claro, a menos que nos citem o texto que, realmente, diga: “havia luz antes de ser criado o sol”, em vez de só dizer que havia uma divindade que era o deus-sol e, então, o sol veio em seguida. Assim, como disse, é difícil avaliar o nível real de importância desses paralelos.

A questão crítica, na minha opinião, ao avaliar a interpretação deles é como se entendiam esses mitos antigos da criação. Como é que os povos antigos enxergavam essas histórias da criação? Durante o século XIX, literatos tendiam a entender esses mitos antigos da criação como um tipo de protociência: isto é, uma espécie de tentativa pré-científica crua de explicar como o mundo e as coisas que nele há vieram a existir — relatos ora tidos como obsoletos à luz da ciência moderna. Assim, o século XIX tinha uma visão deveras antagônica a esses mitos antigos da criação. Foram considerados, basicamente, obsoletos e ciência crua. No entanto, durante o século XX, mitólogos não os viram como uma espécie de protociência crua. Antes, tenderam a ser vistos como relatos simbólicos ou figurados da criação do mundo ou de diversas coisas que há nela. Assim, não era a intenção que fossem entendidos literalmente. Tratava-se de relatos simbólicos. Eram relatos figurados ou metafóricos que não deviam ser entendidos como tentativas pré-científicas de explicar o modo em que é o mundo.

Como Miller e Soden entendem esses mitos antigos da criação, incluindo a história da criação em Gênesis 1? Será que estão dizendo que as pessoas literalmente criam nesses mitos antigos e que Gênesis emprega essa cosmovisão obsoleta dos antigos, enquanto corrigia a teologia deles? Seria o que Gênesis 1 está fazendo? Gênesis 1 está usando a linguagem desse relato protocientífico, interpretado literalmente e obsoleto acerca do mundo e, então, revisando a sua teologia. Será que é disto que trata Gênesis 1? Ou será que Miller e Soden estão dizendo que os povos antigos não criam bem nesses mitos literalmente, mas os enxergavam figuradamente, e Gênesis, do mesmo modo, apresenta uma história figurada da criação, a fim de ensinar uma nova teologia? Assim, surge a pergunta: como é que os antigos consideravam esses mitos da criação? Eles os entendiam literal ou figuradamente? Miller e Soden não falam em uníssono sobre esta questão, de modo que não me é claro justamente qual é a visão deles. Na página 155, eles afirmam o seguinte (ouçam atentamente esta citação):

Se o autor original pretendia que o relato fosse entendido figurada ou simbolicamente, estaríamos errados ao atribuir-lhe sentido literal. Se o autor original usou as descrições incorretas do público, a fim de fazer argumentos teológicos, estaríamos errados em esperar que o seu texto corrigisse o vocabulário ou percepções deles.[12]

Estas duas frases consecutivas são contraditórias![13] A primeira frase expressa a visão de que esses mitos eram entendidos simbólica ou figuradamente. Porém, a segunda frase expressa a visão de que os povos antigos entendiam serem esses mitos descrições precisas do mundo, embora fossem imprecisas, e a narrativa de Gênesis toma e emprega essas descrições imprecisas do mundo simplesmente para corrigir a teologia. Estes são os dois pontos de vista opostos que estamos tentando discutir; todavia, no caso, eles parecem estar afirmando os dois, em frases justapostas. Mas qual delas vale? Será que as narrativas eram entendidas simbólica ou figuradamente, ou será que eles as entendiam literalmente, de modo que Israel ou Moisés simplesmente empregam essas descrições incorretas e imprecisas do mundo a fim de fazer argumentos teológicos?

Por outro lado, Miller e Soden parecem dizer que os antigos, realmente, criam ser o mundo conforme esses mitos o retratam. Ao longo do livro, eles oferecem reconstruções artísticas do mundo, segundo descrito nesses mitos antigos da criação. Por exemplo, na página 44, encontra-se a suposta imagem do cosmo, conforme concebido no Antigo Testamento. Essas imagens são retratos bastante fantásticos e bizarros do modo em que o mundo foi, supostamente, concebido pelos israelitas antigos. Comentam eles:

Quase todos concordam que muitas figuras de linguagem e muitas observações comumente aceitas são usadas para descrever a criação de Deus. Por exemplo, a Bíblia diz que a terra está estabelecida numa fundação e que tem pilares (Sl 104.5; 75.3). Isto reflete o mundo em que o escritor ou leitores concebiam o mundo; pareciam pensar na terra como um disco, e não como globo. As montanhas se achavam na borda do disco, sustentando o céu... Faria sentido para eles que esse disco, com as águas a margear as bordas, fosse sustentado por pilares, com estes firmados numa fundação sólida.[14]

Assim, eles têm, nessa reconstrução artística, uma imagem do mundo como uma espécie de disco flutuante no mar, amparado por esses pilares que os israelitas antigos, supostamente, pensavam estar debaixo da terra, sustentando-o nas suas fundações.

Mais uma vez, em outra passagem, dizem eles:

Havia uma verdade literal por trás do que percebemos como discurso figurado ou observacional; de fato, os povos antigos talvez tenham entendido tais declarações como realidade literal, por causa das suas observações. Por outro lado, talvez tenham percebido que não eram tão precisas assim, mas tratava-se de modo comumente aceito de falar do mundo.[15]

Assim, é como se fossem semiliterais. Mais uma vez, em outra passagem, dizem eles:

Ao processarmos o que acabamos de observar sobre Gênesis 1 e os relatos da criação no antigo Oriente Próximo, vemos que Deus corrige, sim, teologia incorreta, mas a sua instrução não depende de observações e descrições científicas precisas do mundo material. Tal realidade se encaixa bem com o conceito de revelação progressiva: a ideia de que Deus, paulatinamente, revelou-se na estrutura cultural que o seu povo conhecia.[16]

Segundo esta perspectiva, Deus pegou esta visão científica obsoleta do mundo e, simplesmente, adotou-a como meio de lhes ensinar teologia correta, não se preocupando em revisar essa cosmovisão obsoleta.[17] Mais uma vez, escrevem eles:

Se Deus tivesse tentado corrigir a observação e percepção de Israel sobre o mundo material, teria feito sentido às pessoas no seu contexto histórico? ... Em outras palavras, Deus corrigiu a cosmovisão espiritual delas, e não a imagem física do mundo, ensinando-lhes quem era Javé, o Deus deles (Êxodo 6.6-7). Ele começou com a maneira em que pensavam e falavam sobre a criação, a fim de lhes ensinar o que eles, de outro modo, não poderiam reconhecer ou entender.[18]

Mais uma vez, Deus simplesmente adota a linguagem imprecisa do mundo antigo a fim de lhes ensinar essas verdades teológicas, sem endossar tal imagem imprecisa do mundo.[19]

Por último, eles consideraram a objeção de uma pessoa hipotética: “Se vocês afirmam que Gênesis 1 emprega visões antigas errôneas para desafiar a crença de Israel em Deus, será que vocês não estão solapando a doutrina da inspiração e inerrância?”.[20] Este é um objetor hipotético a dizer: “Vocês estão afirmando que Gênesis emprega visões antigas errôneas, a fim de desafiar a crença deles em Deus”. Eles respondem: “Esta questão sobre inspiração e inerrância pressupõe, incorretamente, que empregar as visões imprecisas das pessoas... é o mesmo que afirmar tais visões”.[21]

Não estou aqui para avaliar a adequação desta resposta, mas apenas tentando entender a visão deles. Parece-me que o que estão dizendo, no caso, é que as pessoas, realmente, acreditavam que esses mitos antigos descreviam a maneira em que é o mundo. Eles pensavam, de fato, que era como um disco em repouso sobre pilares, e o firmamento era um domo rígido que ficava no topo das montanhas, com Deus, por assim dizer, condescendendo a usar esta visão imprecisa do mundo para lhes ensinar verdades teológicas importantes. Seria uma visão da narrativa que a veria como se estivesse tentando comunicar verdades protocientíficas literais acerca do mundo.

Como disse, muitas das declarações do mundo sugerem que é esta a visão que Miller e Soden estão adotando. No entanto, como veremos da próxima vez, há outros parágrafos no livro que também citarei nos quais eles parecem afirmar justamente o oposto: essas narrativas não eram entendidas literalmente, mas apenas figurada ou simbolicamente e, portanto, não eram imprecisas, porque estavam tentando representar o mundo como ele é.[22]

 

[1] Johnny V. Miller, John M. Soden, In the Beginning… We Misunderstood: Interpreting Genesis 1 in Its Original Context, (Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2012).

[2] 5:03

[3] Ibid., pp. 176-177.

[4] Ver Henri Blocher, In the Beginning: The Opening Chapters of Genesis (InterVarsity Press, 1984).

[5] Ver John H. Walton, The Lost World of Genesis One, (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2009).

[6] 9:57

[7] 15:13

[8] cf. Daniel 6.16-23

[9] cf. Josué 10.16-18

[10] cf. Gênesis 29.10

[11] 20:01

[12] Miller e Soden, In the Beginning… We Misunderstood, p. 155.

[13] 25:17

[14] Ibid., pp. 43-44.

[15] Ibid., p. 45.

[16] Ibid., p. ???.

[17] Como exemplo, Miller e Soden dizem adiante no livro: “Por exemplo, se Gênesis 1 pretende começar com o ponto de vista comum no antigo Oriente Próximo — em especial, a visão egípcia — sobre o escuro caos aquático da pré-criação, a narrativa não concorda com nada da ciência moderna. Se Gênesis deixa intacta a conclusão antiga das águas infindáveis acima do céu e abaixo da terra, sem corrigir tal inferência da observação com a realidade de um espaço que é bilhões de anos-luz de vazio, ele não está preocupado em apresentar uma versão correta do que a ciência talvez valide posteriormente. Ele, simplesmente, não aborda as questões científicas de hoje ou de qualquer época. Antes, Gênesis apresenta verdade teológica: Javé é criador, soberano transcendente e absoluto sobre todas as coisas. Ele não é parte da criação, mas completamente separado dela” (Ibid., pp. 150-151).

[18] Ibid., p. 151.

[19] 30:30

[20] Ibid., p. 153.

[21] Ibid.

[22] Duração total: 32:51 (Copyright © William Lane Craig)